Pesquisa da UFRN revela como bromélia ajuda a regenerar a Caatinga
Natal, RN 14 de jul 2026

Pesquisa da UFRN revela como bromélia ajuda a regenerar a Caatinga

14 de julho de 2026
6min
Pesquisa da UFRN revela como bromélia ajuda a regenerar a Caatinga
Foto: Cícero Oliveira

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Em um cenário marcado por calor intenso, escassez de água e solo praticamente inexistente, uma bromélia típica da Caatinga vem se revelando uma aliada fundamental da biodiversidade. Pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) mostra que a macambira-de-flecha (Encholirium spectabile) cria microambientes capazes de sustentar dezenas de espécies vegetais sobre afloramentos rochosos do semiárido nordestino.

O estudo analisou 155 touceiras da espécie distribuídas em 22 afloramentos rochosos do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Ao longo das estações seca e chuvosa, os pesquisadores registraram 35 espécies de plantas vasculares associadas às bromélias, pertencentes a 20 famílias botânicas diferentes. Os resultados indicam que quanto maior a estrutura da macambira, maior também a diversidade de plantas que consegue abrigar.

A pesquisa, liderada pelo biólogo Jaqueiuto Jorge e publicada em uma revista científica internacional da área de Ecologia Vegetal, reforça o papel da macambira como uma espécie capaz de modificar o ambiente e favorecer a sobrevivência de outros organismos em condições extremas.

Segundo o pesquisador, em entrevista à Agência Saiba Mais, uma das maiores surpresas observadas durante os anos de campo foi encontrar árvores de grande porte se desenvolvendo em meio às rochas graças às condições criadas pela bromélia.

“A gente ficou impressionado ao encontrar espécies como o umbuzeiro e o mulungu crescendo sobre afloramentos rochosos. São plantas que dependem de mais nutrientes e de condições favoráveis para se estabelecer. A macambira cria esse ambiente inicial que permite a germinação e o crescimento dessas árvores”, explica.

Além da importância ecológica, o umbuzeiro representa um elo entre fauna, flora e comunidades humanas do semiárido. Seus frutos servem de alimento para animais que, por sua vez, ajudam a dispersar sementes. Aves, morcegos e pequenos mamíferos utilizam as touceiras da bromélia como abrigo e acabam contribuindo para a dinâmica de regeneração desses ambientes.

Microclima contra o calor extremo

Diferentemente de outras bromélias conhecidas por armazenar água, a macambira-de-flecha atua principalmente por sua arquitetura. Suas folhas formam estruturas que acumulam matéria orgânica, retêm sementes e criam áreas protegidas das condições mais severas do ambiente.

Foto: Jaqueiuto Jorge

Os pesquisadores observaram que a temperatura dentro das touceiras tende a ser mais amena e a umidade mais elevada em comparação com as áreas expostas ao redor. Isso permite que algumas espécies permaneçam verdes e floridas por mais tempo, mesmo durante períodos de estiagem.

“O que percebemos é que as plantas associadas encontram dentro das touceiras condições mais favoráveis para sobreviver. A umidade é maior e o sombreamento reduz o estresse causado pelo calor excessivo”, afirma Jaqueiuto.

A pesquisa também identificou diferenças entre os períodos de seca e chuva. Algumas espécies aparecem apenas durante a estação chuvosa, enquanto outras conseguem atravessar os ciclos climáticos graças às condições proporcionadas pela bromélia.

Para os pesquisadores, esse papel ganha ainda mais relevância diante das mudanças climáticas. Espécies capazes de criar e manter ambientes favoráveis tendem a se tornar cada vez mais importantes em cenários de aumento das temperaturas e prolongamento das secas.

Além de sua importância para a conservação da biodiversidade, a macambira pode se tornar uma aliada em projetos de recuperação ambiental na Caatinga.

De acordo com Jaqueiuto Jorge, a espécie possui características que favorecem a regeneração de áreas degradadas. Suas raízes ajudam a estabilizar o solo e reduzir processos erosivos, enquanto a matéria orgânica acumulada em sua base cria condições para o estabelecimento de outras plantas.

“Ela é uma planta extremamente resistente e exige poucos cuidados. As raízes ajudam a segurar o solo, enquanto a matéria orgânica acumulada favorece a regeneração da vegetação. Isso faz da macambira uma candidata importante para projetos de restauração”, destaca.

Pesquisas ainda em andamento indicam que a bromélia também contribui para a decomposição da matéria orgânica e para a manutenção de invertebrados responsáveis pela formação de nutrientes no solo, ampliando seu potencial ecológico.

Os afloramentos rochosos onde a macambira ocorre estão sob pressão crescente. Entre as principais ameaças apontadas pelos pesquisadores estão o avanço da mineração, a retirada de rochas ornamentais, obras de infraestrutura e os efeitos das mudanças climáticas.

Segundo Jaqueiuto, a perda dessas bromélias pode provocar impactos que vão muito além da própria espécie.

“Quando se perde uma espécie-chave como a macambira, o impacto é muito maior porque outras plantas e animais dependem dela. Existe um risco de perda de serviços ecossistêmicos que ainda nem compreendemos totalmente”, alerta.

Após mais de uma década de pesquisas sobre a espécie, a equipe agora pretende aprofundar os estudos sobre as interações entre fauna e flora associadas às macambiras. O objetivo é entender como essas relações influenciam os chamados serviços ecossistêmicos, benefícios que alcançam tanto a biodiversidade quanto as populações humanas do semiárido. O estudo foi desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGECO), UFRN, Financiado pelo CNPq, CAPES e FAPERN.

Além do papel ecológico, a planta possui importância cultural para comunidades sertanejas. Suas folhas e frutos podem ser utilizados na alimentação, no artesanato e em práticas tradicionais, reforçando sua relevância para além dos limites dos afloramentos rochosos onde cresce.

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