Durante décadas, a Viúva Machado ocupou o imaginário popular potiguar por meio de histórias que misturam medo, fantasia e memória. Agora, sua trajetória inspira um curta-metragem que busca revisitar quem foi a mulher por trás das lendas. No próximo dia 11 de junho, o Campus Parnamirim do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) promove o evento “Viúva Machado: memória, literatura e audiovisual”, reunindo pesquisa, literatura e cinema em torno de uma das figuras mais enigmáticas da memória popular do estado.
A programação acontece no Auditório Dominguinhos, em duas sessões, das 10h30 às 12h e das 13h às 14h30, e marca o lançamento do curta-metragem Uma Mulher Inventada, produção da Trampolim Companhia de Teatro construída a partir de anos de investigação sobre a vida e as representações da Viúva Machado. Confira o trailer:
Mais do que contar a trajetória de uma personagem histórica, o filme propõe uma reflexão sobre a forma como determinadas narrativas são construídas e perpetuadas ao longo do tempo, especialmente quando envolvem mulheres que desafiaram os padrões de sua época.
A diretora do curta Rebeka Carozza explica, em entrevista à Agência Saiba Mais, que o interesse pela personagem surgiu em 2019, quando começou a pesquisar histórias relacionadas à Viúva Machado. O contato com o conto O Casarão Amarelo da Viúva Machado, da escritora e pesquisadora Kalina Paiva, ampliou as possibilidades da investigação.
“A leitura do conto despertou ainda mais o interesse pelo tema e deu início a um processo de pesquisa que, inicialmente, tinha como objetivo a criação de um espetáculo teatral”, relata.
O projeto começou nos palcos, mas a pesquisa acabou abrindo novos caminhos. Conforme surgiam documentos, relatos e diferentes interpretações sobre a personagem, a equipe percebeu que a história também poderia ganhar força no audiovisual.
“Foi então que percebemos que essa história também tinha potencial para ser contada por meio do audiovisual, dando origem ao projeto do curta-metragem Uma Mulher Inventada”, afirma.
Ao longo da investigação, os pesquisadores encontraram versões bastante distintas sobre a mulher que viveu em Ceará-Mirim e se tornou uma figura lendária no imaginário potiguar. Durante décadas, histórias populares a retrataram como uma personagem assustadora, associada a narrativas de medo transmitidas entre gerações.
No entanto, outros relatos apresentavam uma imagem completamente diferente:
“Pessoas que conviveram com ela ou que ouviram histórias de familiares próximos descreviam uma mulher generosa, acolhedora, empreendedora e profundamente respeitada por quem a conheceu”, explica a diretora.
A partir desse contraste surgiu uma das questões centrais do filme: compreender como uma mulher reconhecida por sua atuação social e econômica acabou transformada em uma figura cercada por estigmas e fantasias.
Segundo a diretora, o objetivo da obra não foi apenas reconstruir uma biografia, mas questionar os mecanismos que produzem apagamentos históricos e distorções de memória.
“Nosso interesse foi apresentar uma Viúva Machado humana, complexa e atravessada pelas contradições do seu tempo”, destaca.
O curta também representa uma nova experiência artística para a Trampolim Companhia de Teatro. Acostumado à linguagem cênica, o grupo encarou o desafio de traduzir anos de pesquisa para uma narrativa cinematográfica, explorando as fronteiras entre memória, ficção e documento.
Além da exibição do filme, o evento contará com palestra das pesquisadoras Elza Cirne e Kalina Paiva. As duas vêm desenvolvendo trabalhos sobre a personagem e discutirão temas relacionados à memória, literatura e representação feminina.

Para a diretora, a história da Viúva Machado ultrapassa os limites de uma personagem específica e dialoga com questões mais amplas sobre gênero e construção da memória coletiva.
“Muitas vezes conhecemos determinadas figuras históricas apenas pelas versões que chegaram até nós, sem questionar quem contou essas histórias e quais interesses estavam envolvidos na construção dessas narrativas”, observa.
Ela espera que o público saia da sessão refletindo sobre as histórias herdadas e reproduzidas ao longo do tempo. “No fundo, Uma Mulher Inventada fala sobre a Viúva Machado, mas também fala sobre tantas outras mulheres cujas histórias foram contadas por outras vozes. É um convite para revisitar essas narrativas e perguntar quem ganha e quem perde quando uma mulher é transformada em mito.”
O evento é realizado pelo Núcleo de Artes (Nuarte) do Campus Parnamirim, em parceria com a Trampolim Companhia de Teatro, e é aberto à comunidade acadêmica e ao público em geral.
Serviço
Data: 11 de junho
Horários: das 10h30 às 12h e das 13h às 14h30
Local: Auditório Dominguinhos, Campus Parnamirim do IFRN
Programação: palestra com Elza Cirne e Kalina Paiva e lançamento do curta-metragem Uma Mulher Inventada
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