Dois pontos de Ponta Negra concentram água imprópria para banho em 2026
Natal, RN 8 de jun 2026

Dois pontos de Ponta Negra concentram água imprópria para banho em 2026

8 de junho de 2026
7min
Dois pontos de Ponta Negra concentram água imprópria para banho em 2026
Foto: Reprodução Live Cam Natal/YouTube

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Em Ponta Negra, o Morro do Careca e o trecho do acesso principal são os dois pontos da praia que mais registram água imprópria para banho em 2026. De 23 boletins de balneabilidade divulgados pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) neste ano, em nove deles essas áreas estavam inaptas para os banhistas. 

A situação se manteve no último fim de semana. A coleta foi realizada na quarta-feira (3) e divulgada no sábado (6). De acordo com o boletim de balneabilidade, a água próxima ao acesso principal à praia estava com 22 coliformes a cada 100 ml de água, número considerado baixo. Contudo, em 22 de maio, o número chegou a 1100, e a 3500 em 14 de maio. Como os dados indicaram variações na qualidade, com registro de níveis elevados de contaminação naquele período, houve a continuidade da classificação do trecho como impróprio para banho.

Já no Morro do Careca, a última vez que a coleta indicou água imprópria foi em 14 de maio, quando indicou 2600 coliformes a cada 100 ml de água. Em 16 de abril, a série de registros indicou outro número elevado: 9200.

Além de Ponta Negra, o boletim mais recente do Idema também mostra outros cinco trechos impróprios para banho na Região Metropolitana de Natal:

Pirangi do Sul (Igreja), em Nísia Floresta;

Foz do Rio Pirangi, em Nísia Floresta;

Rio Pirangi (Ponte Nova), em Parnamirim;

Rio Pirangi-Pium (Balneário Pium), em Parnamirim;

Areia Preta (Escadaria de Mãe Luíza), em Natal.

Áreas impróprias para banho coincidiram com alagamentos provocados pela engorda

No ano de 2026 em Ponta Negra, os trechos só passaram a ficar impróprios para o banho a partir de março. A situação coincidiu com as chuvas do período e os alagamentos na área da engorda. Em 1º de abril, por exemplo, a faixa de areia da praia de Ponta Negra voltou a registrar alagamentos após as chuvas que atingiram a capital desde o início do dia. A água ficou acumulada ao longo de vários trechos da área que há mais de um ano foi alargada pela obra da engorda, que consumiu investimentos de mais de R$ 100 milhões.

Saiba Mais: Chuvas causam novos alagamentos em área da engorda de Ponta Negra

As chuvas também provocaram a formação de uma vala, conhecida como voçoroca, na região próxima à base do Morro do Careca. Em um vídeo, foi possível ver a força da voçoroca formando um verdadeiro rio que arrastava sedimentos do Morro do Careca em direção ao mar da praia de Ponta Negra.

Coordenador do projeto de monitoramento, o geólogo Ronaldo Diniz disse à reportagem em abril que a água imprópria para o banho é comumente influenciada por efluentes não tratados que chegam à praia.

No final de maio, a Prefeitura disse ter constatado um vazamento de efluentes após vistoria no dissipador 8, localizado no final da Rua Halley Maestrinho, no calçadão de Ponta Negra. Segundo a Prefeitura, os fiscais identificaram o colapso estrutural na rede de esgotamento e que as infiltrações e o escoamento irregular se estendiam até a galeria pluvial, permitindo que o esgoto “minasse” pelas paredes e pelo piso. E que, por isso, a situação representa risco ambiental e ameaça à saúde pública.

A Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern), órgão responsável pela gestão e manutenção do sistema de saneamento da cidade, negou existir um vazamento de esgoto na praia de Ponta Negra provocado pela empresa, que estaria chegando à faixa de areia. A Caern rebateu a Prefeitura de Natal e disse que a notificação enviada pelo Executivo foi recebida sem o relatório técnico sobre os possíveis vazamentos.

Equipes técnicas da Companhia realizaram vistorias em diferentes horários na rua Halley Maestrinho, endereço indicado pela Prefeitura, mas nenhuma irregularidade, vazamento ou desconformidade operacional foi detectada pelas equipes, constatando-se que o sistema na região opera em total normalidade, de acordo com a empresa.

A respeito do documento mencionado pelo Executivo Municipal, a Caern disse que localizou uma notificação enviada pela Prefeitura no fim da manhã da quinta-feira (28), contudo, o documento foi recebido sem o relatório técnico citado. 

“Diante disso, a Companhia solicitará formalmente o compartilhamento integral desses dados para análise de suas equipes”, informou.

Dissipadores com “lagoas pútridas”

Ainda em maio, o Ministério Público Federal (MPF) apresentou uma ação civil pública em relação aos alagamentos na engorda da praia de Ponta Negra, que comprovam a existência de “lagoas pútridas” com água contaminada em dissipadores que consolidariam, segundo o órgão, a existência de uma “crise sanitária”.

As informações foram baseadas em estudos técnicos da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec) e perícia do MPF.

Segundo o texto, os registros do Procedimento Administrativo revelam um cenário de calamidade sanitária. As vistorias da Funpec identificaram 84 pontos de saída de água na orla, dos quais 29 apresentavam fluxo constante mesmo em períodos de estiagem, indicando o lançamento ilegal de águas de piscinas e duchas de estabelecimentos privados. 

Saiba Mais: Engorda: dissipadores contêm “lagoas pútridas” em Ponta Negra

“Mais grave ainda, a identificação de águas cinzas com odor fétido em diversos dissipadores (especialmente nos 1, 2, 3, 4, 5, 7 e 8) confirma que a rede pluvial está contaminada por águas servidas. A profundidade dessas águas estagnadas chegou a 93 cm no dissipador 8, criando verdadeiras lagoas pútridas em plena área turística”, diz um trecho da ação.

Em outro ponto, o Ministério Público Federal aponta que os relatórios de junho de 2025 Programa de Manutenção, de Reparo e de Melhorias (PMRMD) consolidam a existência de uma crise sanitária, documentando águas estagnadas e pútridas nos dissipadores 7 e 8, com profundidades de até 93 cm, exalando odor de esgoto e criando focos para vetores de doenças como a leptospirose.

“Esta deficiência mantida, quando se soma a um sistema de drenagem insuficiente e falta de monitoramento da qualidade da água e dos sedimentos, pode propiciar um comprometimento significativo da balneabilidade da praia de Ponta Negra”, diz a passagem citada de um laudo técnico.

Ainda segundo o MPF, a má execução da obra afeta o direito coletivo à saúde e a um meio ambiente equilibrado, “gerando retrocessos infraestruturais inaceitáveis”.

“O acúmulo de águas contaminadas e resíduos sólidos transformou o enrocamento e os dissipadores em abrigos para vetores de doenças. A exemplo disso, relatórios de novembro e dezembro de 2025 apresentados pela FUNPEC documentaram uma infestação de roedores entre os dissipadores 13 e 14. O risco de transmissão de doenças de veiculação hídrica, como a leptospirose, é um alerta constante nos relatórios e no Laudo Técnico nº 263/2026/SPPEA/PGR”, alerta.

Já em relatório de dezembro de 2025 do Programa de Controle da Vazão das Águas Pluviais nos Períodos Chuvosos (PMCVAP), a Funpec ressaltou que, embora o sistema de drenagem esteja implantado, foram verificadas limitações operacionais relevantes, tais como “acúmulo de resíduos, deposição de sedimentos e presença de água estagnada em diversos dissipadores”. De acordo com as considerações do relatório, essas condições reduzem a capacidade hidráulica efetiva do sistema, especialmente durante eventos de precipitação intensa, comprometendo a vazão projetada e aumentando o risco de alagamentos. Além disso foram apontadas fragilidades no controle operacional, na execução construtiva e nas rotinas de manutenção, especialmente em decorrência de reincidência de danos em dispositivos de microdrenagem e indícios de falhas estruturais localizadas. 

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.