Produções do RN são selecionadas para a mostra competitiva do Prêmio Pierre Verger
Natal, RN 8 de jun 2026

Produções do RN são selecionadas para a mostra competitiva do Prêmio Pierre Verger

8 de junho de 2026
4min
Produções do RN são selecionadas para a mostra competitiva do Prêmio Pierre Verger

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Dois filmes produzidos no Rio Grande do Norte estão entre os selecionados para a 16ª Mostra de Filmes Etnográficos do Prêmio Pierre Verger (PPV), uma das mais importantes premiações dedicadas ao audiovisual antropológico no Brasil. Em sua edição de 30 anos, o festival reunirá produções de diversos países entre os dias 9 e 17 de julho, em Goiânia, durante a 35ª Reunião Brasileira de Antropologia.

Representando o estado, os documentários “Transcendendo Fronteiras”, dirigido pela antropóloga Sol Alves, e “Maria Fogo”, de Fábio de Oliveira (Ta’angahara), disputam espaço em uma seleção que reúne 26 filmes de diferentes regiões do Brasil e do exterior.

Criado pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), o Prêmio Pierre Verger consolidou-se ao longo de três décadas como uma das principais vitrines para produções que exploram questões sociais, culturais e políticas a partir do olhar antropológico. Nesta edição comemorativa, o evento também contará com conferências, mesas especiais e debates sobre marcos importantes do audiovisual antropológico.

Para Sol Alves, a indicação de “Transcendendo Fronteiras” representa o reconhecimento de uma narrativa construída a partir da memória e da resistência da população trans e travesti.

“A indicação de Transcendendo Fronteiras ao Prêmio Pierre Verger representa um reconhecimento muito importante para o filme e para as discussões que ele mobiliza sobre memória e identidade. Fico muito feliz em ver essas narrativas ganhando projeção nacional”, afirma.

A diretora também destaca a relevância de ver uma produção potiguar realizada majoritariamente por pessoas LGBTQIA+ alcançar um espaço de destaque nacional.

“Considero fundamental que uma produção potiguar, construída majoritariamente por pessoas LGBTQIA+, esteja entre os indicados. Isso amplia a visibilidade de histórias frequentemente marginalizadas e evidencia a potência do audiovisual nordestino na produção de conhecimento e transformação social”, diz.

O curta-metragem tem como eixo a trajetória de Leilane Assunção, uma das primeiras mulheres transexuais doutoras do Nordeste e referência histórica na luta pelos direitos da população trans. A obra reúne depoimentos de lideranças travestis e transexuais do Rio Grande do Norte e busca preservar memórias que ajudaram a abrir caminhos para novas gerações.

Já o documentário “Maria Fogo” acompanha a vida da ceramista Maria Gonçalves, mestra da cultura popular conhecida por manter viva uma tradição ancestral de produção artesanal de cerâmica na comunidade de Coqueiros, em São Gonçalo do Amarante.

Ao receber a notícia da seleção, o diretor Fábio de Oliveira relata ter vivido um momento de emoção coletiva.

“Recebemos a notícia com enorme alegria e emoção. Foi como ver o reconhecimento de um trabalho que nasceu das mãos de Maria Fogo e de toda a comunidade envolvida. Para nós, estar entre os selecionados do Prêmio Pierre Verger é uma confirmação de que a força da tradição, da arte e da resistência cultural pode dialogar com o mundo através do cinema”, afirma.

Segundo ele, a indicação representa um marco para toda a equipe envolvida na produção.

“Significa que o esforço coletivo, a dedicação e o compromisso com a memória cultural foram reconhecidos em um espaço de prestígio internacional. Para a equipe, é um incentivo e também uma celebração. Mostra que o cinema etnográfico pode ser feito de forma colaborativa, com raízes profundas e vozes diversas. Para o filme, é a oportunidade de alcançar novos públicos e reforçar a importância da cerâmica como arte ancestral de resistência.”

Embora abordem universos distintos, os dois filmes compartilham um mesmo compromisso: registrar histórias frequentemente ausentes das narrativas oficiais e transformá-las em memória coletiva. De um lado, a luta por reconhecimento e permanência da população trans; de outro, a preservação de saberes tradicionais transmitidos pelas mãos de uma mulher que molda o barro há décadas.

A presença simultânea das duas produções na mostra competitiva reforça a diversidade do audiovisual potiguar contemporâneo e amplia a visibilidade de narrativas construídas a partir de experiências, identidades e patrimônios culturais que resistem ao esquecimento.

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