Silvério Filho: “Nada de bom pode vir da extrema direita”
Silvério Alves Filho, 32, conta que desde a infância viveu imerso no meio da comunicação. A influência veio do pai, radialista e editor de um blog em São Paulo do Potengi. Mas o filho de Silvério Alves começou sua carreira no mundo jurídico: se formou em Direito, foi servidor no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN) e só em 2024 tomou a decisão de, efetivamente, viver da comunicação. O trabalho rendeu frutos: o Blog Silvério Filho no Instagram já ultrapassa a marca de 100 mil seguidores, numa estratégia definida pelo comunicador como “formato de guerrilha”. Seu alvo principal? A extrema direita.
Desde que passou a focar nas redes sociais, Filho buscou ocupar um vácuo que enxergava na mídia potiguar. De um lado, via muitos blogs de direita com uma linguagem definida por ele como “firme, sarcástica, mais ácida”. “E nós não tínhamos na esquerda”, diz.
“Então, qual foi a minha ideia? Eu não tinha condições de fazer um jornalismo profissional e também não pretendia. A minha intenção era fazer uma comunicação em formato de guerrilha, que tinha aspectos jornalísticos, mas cuja função primordial era uma atuação política. E por questões éticas, eu nunca me identifiquei como jornalista, sempre como comunicador”, explica.
Essa comunicação híbrida, uma mistura de influência digital, memes, jornalismo, atuação política não eleitoral, “como se fosse um agente político sem mandato”, teve o primeiro boom nas eleições municipais de 2024, em que apoiou abertamente a então candidata a prefeita de Natal, Natália Bonavides (PT). Para isso, procurou a todo instante se contrapor aos veículos e blogs ligados à direita.
“A gente ficou conhecido, teve espaços abertos, mas eu tinha plena consciência disso que, pra crescer, eu tinha que bater forte na extrema direita”, observa, sobre a trajetória inicial.
Para ele, a leitura estava correta.
“Existia uma espécie de grito reprimido do pessoal de esquerda que vinha apanhando muito da mídia de extrema direita que não tinha compromisso nenhum com a ética jornalística, com a ética política, compromisso nenhum. E a gente precisava, a meu ver, de pessoas que estivessem dispostas a quebrar alguns ovos para fazer um omelete. Um tipo diferente de exposição, que correria determinados riscos.”
Sua tática envolvia — e ainda envolve — críticas aos principais nomes do campo conservador em Natal, como Álvaro Dias, Rogério Marinho e Paulinho Freire. Mas também aos principais blogueiros de direita do Rio Grande do Norte.

“A gente pegava artigos deles e fazia vídeos ou artigos refutando. Pegávamos cortes de vídeos de participação em programas e fazíamos vídeos reagindo e refutando, e sempre com um tom de sarcasmo, porque de fato eram argumentos absurdos que eram facilmente refutáveis”, conta, sobre a atuação em 2024.
Com passagens pela 97 FM, Rádio Universitária e ICL Notícias, o comunicador potengiense agora almeja novos voos. Recentemente, se lançou pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB — uma decisão fruto do sucesso alcançado nos últimos anos.
“A gente conseguiu realmente criar laços com setores da militância que, para mim, até aquele momento [2024] eram inesperados. Eu pensava em algum momento construir isso, mas foi mais rápido do que eu imaginava”, relata.
Para 2026, a meta é ousada: quer não somente estadualizar seu nome para o RN, mas, quem sabe, até nacionalizar para todo o Brasil.
“Eu creio que será possível por meio da abordagem que nós temos, uma abordagem que eu chamo de ‘abordagem raposística’, que nós mesclamos linguagens informais com linguagens formais, conteúdos mais simples de meme, de tiração de onda, até conteúdos mais complexos de análise política, de análise linguística. Eu brinco que nós conseguimos ir do simples ao complexo, do sério à resenha, do religioso ao mundano”, afirma ‘Raposinha’, como também é chamado.
O homem que um dia já se definiu como conservador ainda se mantém como cristão, e quer utilizar o conhecimento religioso a seu favor.
“Há nas esquerdas uma certa escassez de pessoas que debatam sobre religião, que analisem religião, Bíblia, etc. E diante do meu histórico, de um passado que eu tive inclusive como católico conservador, a gente tem um certo estudo de apologética, no sentido de estudar a religião para debater. Então isso é um aspecto que eu trago comigo de tempos passados que vai favorecer o nosso processo de nacionalização diante da escassez de pessoas dentro dos espectros das esquerdas que trabalhem esse tipo de tema e trabalhem especialmente no formato da apologética”, acredita.
Quando chegar a hora da campanha, Silvério Alves Filho já sabe o que vai apresentar aos eleitores: a necessidade de um projeto nacional civilizatório, que compreende, segundo ele, a busca por um projeto de desenvolvimento.
“Um desenvolvimento econômico, direcionado a melhorar a vida das pessoas com geração de emprego, geração de renda, recolhimento de impostos para o Estado e cumprimento, naturalmente, dos direitos trabalhistas. A busca pelo desenvolvimento econômico no sentido de também possibilitar o surgimento de empregos de melhor qualidade”, aponta.
Também não quer deixar de lado o combate à violência de gênero, questões relacionadas aos direitos das pessoas com deficiência, das mães atípicas e, de um modo geral, as pautas estruturais, como educação, saúde e segurança.
“É um norte da busca por um projeto nacional civilizatório, onde nós tenhamos desenvolvimento, distribuição de renda, garantia dos direitos das minorias, por isso também não apenas um projeto nacional de desenvolvimento, mas um projeto nacional civilizatório. Porque há necessidade de inclusão dessas pessoas, muitas vezes relegadas pela sociedade, pessoas LGBT, pessoas negras, pessoas indígenas, pessoas com deficiência, e nós precisamos incluir na busca também por isonomia, que o Estado sirva especialmente para aqueles que mais precisam do Estado.”
O combate à extrema direita, claro, não vai sair do radar. Filho acredita que ainda é possível manter um diálogo com uma direita democrática, aquela “comprometida com as instituições, com a Constituição Federal, com a qual divergimos, mas conseguimos respeitar e dialogar”, afirma. “Da extrema direita, nada de bom pode vir. Porque eles não têm compromisso com a verdade, eles não têm compromisso com a ética, eles não têm compromisso com os recursos públicos, eles não têm compromisso com a Constituição Federal nem com o povo brasileiro. Então, nada de bom pode vir daí”, prossegue.
No planejamento futuro, também está o lançamento de um livro para 2027, pensado desde já, em que pretende analisar a atual dinâmica da política e da comunicação, envolvendo também o fenômeno da extrema direita no país.
“Estamos em busca do desenvolvimento, de fato, de uma teoria. Uma teoria que consiga analisar o modo atual como ocorre a dinâmica da comunicação e da política nas redes sociais, como isso influenciou a política tradicional, como se influenciou a percepção que as pessoas têm da realidade. E, para tanto, estamos fazendo estudos de marketing, de psicologia, de linguística, de mídia, de ciência política, tentando montar um arcabouço a partir do qual a gente consiga desenvolver essa teoria”, adianta o comunicador.