Aos 66 anos, a agricultora Maria Lúcia Matias de Oliveira já perdeu a conta de quantas vezes ouviu dizer que as águas do Rio São Francisco chegariam ao sertão. Moradora da comunidade Capivara, em Uiraúna (PB), ela atravessou décadas vendo a promessa permanecer distante. Nesta quarta-feira (2), acompanhou a inauguração do Túnel Major Sales com a emoção de quem acredita estar mais perto de ver o sonho acontecer.
“Esse momento representa muita coisa boa para nós. Esperamos muitos anos por isso. Agora nós vamos ter essa água. Vai mudar tudo: a plantação, a produção, a nossa vida. A gente quase morreu de sede. Só não morreu porque Deus mandou chuva”, disse a agricultora, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mãe de cinco filhos, avó de 19 netos e bisavó de nove.
Maria Lúcia Matias de Oliveira | Foto: Joana Lima
Maria Lúcia não foi a única a transformar a inauguração em uma lembrança da própria vida. Entre as centenas de pessoas que acompanharam a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quase todas carregavam alguma memória da seca: açudes vazios, longas caminhadas em busca de água ou plantações perdidas. O túnel, com pouco mais de seis quilômetros de extensão, era visto menos como uma obra de engenharia e mais como a possibilidade de interromper um ciclo que atravessou gerações.
Foi para inaugurar essa estrutura, considerada estratégica para conduzir as águas da transposição do Rio São Francisco até 54 municípios do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, beneficiando cerca de 750 mil pessoas, que Lula voltou ao Alto Oeste potiguar.
No discurso, o presidente reconheceu que a espera pela água atravessa a história do semiárido.
“Eu fico imaginando a quantidade de séculos que o povo do semiárido esperou por essa água. A seca é um fenômeno da natureza. Da fome causada pela seca, não. Isso depende de quem governa.”
Lula lembrou que a transposição começou a ser discutida ainda no século XIX e defendeu que a obra representa o direito de permanecer no próprio território, sem que a seca obrigue famílias a abandonar suas casas em busca de sobrevivência.
Na plateia, porém, os discursos ganhavam outro significado. Para quem vive da agricultura, falar da chegada da água é falar da possibilidade de plantar, colher e permanecer na terra.
É assim que pensa Ana Heloísa da Silva, de 21 anos, moradora da comunidade quilombola Lagoa de Pedra, na zona rural de Luís Gomes.
“A água é vida. É uma alegria participar desse momento. A gente passa por períodos de seca muito fortes. Sem água a gente não vive. Então isso representa esperança para toda a comunidade.”
Ana Heloísa da Silva, de 21 anos, moradora da comunidade quilombola Lagoa de Pedra, na zona rural de Luís Gomes. | Foto: Joana Lima
A diferença entre Ana e Maria Lúcia é de 45 anos. Mas as duas compartilham a mesma espera.
Também agricultor, José Filho, de 75 anos, pai de quatro filhos e avô de dez netos, acredita que talvez não aproveite tudo o que a obra poderá proporcionar. Ainda assim, fez questão de acompanhar a inauguração.
“Vai mudar muito. Quem tiver coragem de trabalhar vai produzir mais. Vai plantar milho, feijão, arroz… Água é o que faz a diferença.”
Agricultor, José Filho, de 75 anos | Foto: Joana Lima
A poucos metros dali, Maria Dolorosa da Silva, de 80 anos, observava a movimentação em silêncio. Quando perguntada sobre o significado daquele momento, respondeu como quem resume uma vida inteira.
“A gente cresceu ouvindo falar da transposição. Hoje vê a obra acontecendo de verdade. É muito bom para quem vive da agricultura.”
Maria Dolorosa da Silva, de 80 anos | Foto: Joana Lima
Ao tomar a palavra, a governadora Fátima Bezerra também trouxe para o centro da cerimônia uma memória pessoal. Recordou a infância no interior, quando acompanhava a mãe de madrugada para buscar água em cacimbas, e afirmou que o túnel representa mais do que uma intervenção de engenharia.
“Hoje não inauguramos apenas um túnel. É uma passagem entre um passado marcado pela escassez e um futuro construído com dignidade.”
Segundo a governadora, quando Lula reassumiu a Presidência, em 2023, o Ramal do Apodi tinha pouco mais de 10% de execução física. Hoje, supera 93%, resultado dos investimentos federais destinados à segurança hídrica da região.
Apesar da celebração, ninguém ali confundia a inauguração do túnel com o fim da caminhada. Ainda restam etapas para que todo o sistema entre em operação e a água percorra o caminho até as comunidades.
Foto: Joana Lima
Mesmo assim, ao deixar Major Sales, agricultores carregavam a sensação de que a espera finalmente havia encurtado.
A verdadeira inauguração, afinal, não será a do túnel.
Será a do primeiro roçado verde depois de uma vida inteira olhando para um céu sem chuva.