Vontade eu tenho, não tenho é sorte!
Natal, RN 21 de jul 2026

Vontade eu tenho, não tenho é sorte!

21 de julho de 2026
5min
Vontade eu tenho, não tenho é sorte!

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Faço parte de um grupo de zap que, digamos, debate sexualidade e possibilidades diversas. Em um grupo de pessoas desenroladas e extrovertidas, é comum que postem com frequência fotos e imagens, etc e tal. Acho curioso quando diante de fotos de mulheres, inevitavelmente alguns homens comentem com a frase “vontade eu tenho, não tenho é sorte”, seja como texto digitado, meme ou sticker, a popular figurinha.

Meu espanto acontece pela fatalidade pessimista do comentário. O sujeito já decretou que deseja a mulher da foto, mas, por alguma razão que ele não sabe explicar, não conseguirá tê-la, senão por algum acaso do destino, também chamado de sorte.

Tudo bem que se trata de uma frase clichê de efeito, talvez usada como elogio quando se não tem nada criativo para dizer, mas se fomos para o psicologismo e lembrarmos do velho Freud, é nessas trivialidades que a psique se manifesta. Percebo essa frase em postagens do Instagram, principalmente em modelos e influencers glamurosas, mas também em conversas privadas de zap, conforme amigas já me confidenciaram e mostraram.

A vontade é de perguntar: amigo, tem certeza que se trata de sorte? Atualmente as mulheres se queixam com muita constância que os homens não investem mais em abordagens educadas e/ou inteligentes, nem em convites gentis, mas objetivos e menos ainda em travar um contato básico antes de manifestar suas vontades, digamos.

O curioso é que o perfil de muitos desses homens que tem vontade, mas, segundo eles mesmos, não tem sorte, é de quem defende ideologicamente a meritocracia, aquele sistema que a pessoa só consegue as coisas por merecimento, através de luta, determinação e resiliência.

Ué, então deduzo que se o sujeito tem vontade de ter/conhecer/encontrar uma mulher ele não deveria contar com a sorte, mas sim com a exposição das qualidades dele, não é isso?

Pois é, não exatamente. Segundo boa parte das mulheres, em tempos de zap e redes sociais os homens vem errando a mão nos contatos iniciais e comunicação e fazendo a parte deles para sabotar qualquer eventual sorte. As queixas mais frequentes são de que os marmanjos já querem falar de sexo sem “preliminares” virtuais, como conversar, saber um pouco mais sobre a mulher, procurar afinidades, trocar áudios etc.

E mesmo em relação ao sexo, segundo as moças, as inicativas masculinas também vem sendo desastrosas. Boa parte propõe a transa convidando para a própria casa ou, pior, propondo ir na casa da mulher. Ou seja, dispensando não apenas um motel, como descartando qualquer preâmbulo, como barzinho, drinques, jantar, ouvir música ao vivo.

Há posturas piores. Mulheres vem reclamando muito do péssimo hábito dos homens, mal iniciam um contato mais íntimo, de mandarem foto dos pênis por zap. Um horror. Que fica mais grave quando se percebe que parte considerável desses marmanjos é da faixa dos 50/60 anos, justamente aquele perfil que tem nostalgia “de antigamente”. pois é, “naqueles tempos” não se abordava mulheres mostrando foto da piroca. Melhore, amigo.

Na verdade, com o comportamento masculino padrão atualmente, a sorte é a mulher não bloquear de cara o contato do conquistador. Ou não expor o desastrado Don Juan nas redes. Na verdade, essa prática, do exposed, de publicizar assédios, grosserias e ofensas, já está começando a ser disseminada entre mulheres cansadas desse comportamento tóxico.

Uma pessoa querida, com quem muito converso sobre essas temas, sempre me lembra que um dos maiores problemas dos marmanjos atualmente é não ouvirem as mulheres e não terem interesse no que elas querem (que àsvezes pode ser o mesmo que eles, seja sexo casual ou conversar putraria) o que faz com que tenham um comportamento padrão, e invariavelmente equivocado.

Voltando à frase que dá título a este texto, ainda que seja mais uma banalidade, também denota que se a sorte está lançada ele não tem responsabilidade não apenas pela vontade (que admite ter) como pela abordagem. Outra coisa que parece estar cansando as mulheres é a falta de iniciativa masculina, ausência de atitude. Não se conquista uma mulher contando com a sorte, assim como não se vence um campeonato de futebol, se passa em um concurso público ou se escreve um livro contando com a sorte. Como dizia o bordão do treinador Muricy Ramalho, aqui é trabalho, meu filho! E conquistar uma mulher pode ser trabalhoso, cidadão. Como tudo o mais nessa vida. Sorte a deixa deixa para o jogo (mas sem apostar nas bets) e não para o amor. Amor (assim como sexo) é trabalho duro, conquista e construção.

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