Desde que me descobri negra e, posteriormente, minhas demais etnias, tenho trabalhado incansavelmente, estudando, pesquisando e escrevendo para produzir conteúdo. Foram anos fazendo lives, promovendo cursos, publicando livros e artigos, participando de eventos, ministrando palestras e formações, até chegar ao momento de esgotamento total. Precisei me recolher, cuidar da saúde, e foi nesse momento que parei para repensar muitas coisas. Anos se passaram, e eu ainda sinto uma espécie de cobrança por produção de conteúdo. Então, vamos por partes.
Antes de mais nada, precisamos pensar no recorte racial. Pessoas brancas não são cobradas a comentar as falhas dos seus pares toda vez que isso acontece, mas basta acontecer algum episódio envolvendo pessoas negras para que todos esperem que a gente se pronuncie. Eu sei que existem influencers que vivem disso. Aconteceu, corre lá que a pessoa já está dando sua ilustríssima opinião. Uma vez me chamaram para participar de uma entrevista a fim de comentar uma tragédia envolvendo pessoas negras, e eu recusei. Por que não me chamaram antes para falar do meu trabalho? É óbvio que noticiar eventos assim é importante e ter pessoas com lugar de fala é fundamental, mas por que só somos lembrados nessas horas? A resposta é até óbvia, mas vou dizer caso alguém ainda esteja perdido: a mídia lucra com nossa tragédia e alguns influenciadores, também.
Quer saber minha opinião sobre as coisas? Leia meus livros! Já são cinco livros publicados sobre temáticas diferentes, sem falar em artigos publicados em jornais e apresentados em eventos científicos. Mas a verdade é que a maioria das pessoas não quer investir tempo e dinheiro comprando livros de pessoas não famosas. Isso sem falar na preguiça de ler e interpretar textos. A grande maioria, hoje, quer a discussão apresentada de forma resumida e rasa, em alguns posts do Instagram ou vídeos curtos e aligeirados, sobre uma pauta tão séria e complexa. Lélia Gonzalez e Abdias Nascimento teriam vergonha de nós.
Mas isso significa que não existem páginas sérias no Instagram abordando nossas questões? Lógico que não! Acompanho várias, mas, infelizmente, são páginas com poucos seguidores, se comparadas às outras, que são mais sensacionalistas. Essas páginas nos levam à reflexão, mas, como eu disse, o povo gosta de gente que já traz uma opinião formada para depois repetir como se tivesse lido livros e livros sobre o assunto. E ainda tem gente que tem a pachorra de vir ao meu privado perguntar o que eu acho sobre determinados assuntos. Virei sua coach particular?
Jogar essa cobrança nas minhas costas é colonial, e eu não aceito isso! Como uma pessoa de pele negra e ascendência indígena e cigana, estou mais preocupada com outras questões. A primeira delas é cuidar de mim. Não há nada mais urgente e necessário do que isso. Sou, hoje, uma pessoa cardiopata, fruto de muita luta racial ao longo de anos, e sabe quantas pessoas estavam ao meu lado quando infartei? Duas! Meu pai e minha filha. É justamente por causa deles que, durante anos, minha atenção e dedicação foram voltadas ao meu pai e, hoje, estão voltadas para a minha filha. Estou empenhada em deixar um legado para ela, para que saiba quem é e de onde veio. Para que entenda por que lutamos e faça suas escolhas no futuro.
Outro campo que escolhi para atuar foi a educação. A geração neta, como diria Nego Bispo. Já não acredito na vaidade dessa geração digital. Boto fé nessa meninada que tem lido, estudado e refletido de forma séria e com a cabeça aberta sobre os pontos que nos atravessam. Dar aula com empenho e dedicação dá muito trabalho. Exige pesquisa e organização de material, porque a maioria do que encontramos na internet vem carregada de estereótipos e, mais uma vez, a maioria nem para para fazer essa análise, mas se diz antirracista. Isso sem falar na execução em sala de aula. Tudo isso leva tempo. Um tempo que não gera engajamento.
O que a maioria das pessoas não consegue ver é que existe uma luta racial em estar viva e feliz. Sou uma mulher de 45 anos, saudável e com as condições mínimas para ter segurança e estabilidade. Isso não é a regra. É uma vitória. Sigo nas minhas confluências, e o que vai ser destaque nas minhas redes sociais é o fato de que eu estou viva! Lide com isso!