Por que Neymar e o Bolsonarismo compartilham o mesmo destino de fracasso?
*por Marcus Demétrios – Especialista em Gestão Pública Municipal e presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro) de Parnamirim/RN
“A decadência técnica e moral do principal camisa 10 brasileiro espelha o desastre político da extrema-direita: um rastro de individualismo, negação da realidade e a destruição completa do senso de coletividade.”
Existe um simbolismo incômodo, mas perfeitamente exato, no fato de Neymar Jr. ter se tornado o principal cabo eleitoral e aliado ideológico da família Bolsonaro. A identificação mútua não foi um acidente de percurso; foi o encontro de duas filosofias baseadas no egocentrismo, na rejeição à crítica e no desprezo pelas instituições que deveriam representar. Se o bolsonarismo sabotou o pacto social e democrático do Brasil, a liderança de Neymar implodiu a mística e a eficiência da Seleção Brasileira. Uma equipe que orbita em torno de um ídolo com esse DNA está estruturalmente condenada ao fracasso.
O Mito do “Menino”: a imaturidade como método
Dentro das quatro linhas, Neymar Jr. há muito deixou de ser a promessa de um novo Pelé para se tornar o símbolo da estagnação. O talento bruto, inegável em seus primeiros anos de Santos e Barcelona, foi asfixiado por defeitos crônicos que o impediram de alcançar o topo do mundo:
Individualismo Tático: Neymar joga para si, não para/com o coletivo. Sua insistência em prender a bola, retardar o contra-ataque e buscar o drible plástico em zonas perigosas do campo frequentemente destrói o ritmo coletivo da equipe.
O Estigma do “Cai-Cai”: A teatralidade diante de faltas leves transformou o craque brasileiro em piada global. Em momentos de alta pressão, em vez de focar na progressão do jogo, Neymar busca o conflito com a arbitragem e a simulação, desestabilizando o foco emocional do time.
Ausência nas Decisões: Enquanto ídolos do passado como Romário, Ronaldo e Rivaldo chamavam a responsabilidade nos momentos de asfixia, a marca registrada de Neymar em Copas do Mundo tem sido a omissão técnica em jogos decisivos ou as lesões decorrentes de uma preparação física negligenciada.
O caos extracampo: privilégio e impunidade
Fora de campo, a conduta de Neymar é o oposto do que se espera de um capitão e referência para as novas gerações. Sua vida pública é uma sucessão de escândalos, festas intempestivas em momentos de crise de seus clubes, problemas recorrentes com o fisco e, mais recentemente, graves infrações ambientais em suas propriedades de luxo.
Amparado por um staff subserviente e por uma blindagem familiar nociva, o jogador se recusa a crescer. Ele permanece no eterno papel de “menino”, uma blindagem retórica para justificar a irresponsabilidade de um homem de mais de 30 anos. O respeito à camisa da Seleção foi substituído pelo uso do escudo nacional como plataforma de relações públicas pessoais.
Assim como a família Bolsonaro transformou a Presidência da República em um balcão de negócios familiares e ‘lives’ de ressentimento, Neymar transformou a Seleção Brasileira em um puxadinho de suas férias e de seus amigos pagos — os “parças”.
O paralelo do desastre: jogador e político
O alinhamento político entre Neymar e o bolsonarismo faz sentido prático porque ambos operam sob a mesma cartilha comportamental. O desastre do bolsonarismo na política e o declínio de Neymar no futebol são frutos dos mesmos vícios.
Tanto no campo da política quanto no futebol, observa-se um conjunto de comportamentos semelhantes marcados pela dificuldade em lidar com críticas, pela construção de uma realidade paralela, pela transferência constante de responsabilidades e pelo incentivo à polarização.
Em relação à crítica, enquanto Bolsonaro passou a classificar a imprensa livre e as instituições de controle como “inimigas”, Neymar frequentemente trata jornalistas esportivos e torcedores críticos como “haters” movidos por inveja. Em ambos os casos, a crítica deixa de ser encarada como parte natural da vida pública e passa a ser interpretada como perseguição.
Outro aspecto é a formação de uma bolha de paranoia. Bolsonaro cercou-se de ideólogos radicais e de seus filhos, alimentando uma realidade paralela desconectada dos fatos. Neymar, por sua vez, isola-se em mansões e em um círculo de assessores e pessoas próximas que raramente o contrariam, reforçando uma percepção de mundo pouco confrontada por opiniões divergentes.
Também há uma tendência à terceirização da culpa. No discurso bolsonarista, os problemas econômicos, sanitários ou políticos são sistematicamente atribuídos a governadores, ao Supremo Tribunal Federal ou ao chamado “sistema”. No caso de Neymar, as eliminações e derrotas costumam ser atribuídas ao árbitro, às condições do campo, às escolhas do treinador ou ao acaso, raramente sendo assumida uma responsabilidade pessoal pelos resultados.
Por fim, a divisão aparece como consequência desse comportamento. Bolsonaro governou voltado prioritariamente para seu eleitorado mais radical, aprofundando a fragmentação do tecido social brasileiro. Já Neymar tornou-se uma figura que divide a própria torcida brasileira, despertando admiração em uma parcela do público e rejeição em outra, a ponto de muitos torcedores demonstrarem indiferença ou mesmo torcerem contra suas equipes quando ele está em campo.
Por que uma Seleção assim não pode dar certo?
O futebol de seleções modernas exige, acima de tudo, sacrifício, disciplina tática extrema e uma profunda conexão emocional com o torcedor. A Argentina venceu em 2022 porque havia um projeto coletivo onde dez operários corriam por um gênio (Messi) que assumia a postura de líder maduro da nação.
A Seleção Brasileira, sob a égide de Neymar, tornou-se o avesso disso. É uma equipe refém do humor de um jogador mimado, cuja filosofia de vida — em perfeita sintonia com o bolsonarismo — prega o individualismo feroz, o deboche pelas regras e a ostentação acima da competência.
Uma equipe não vence quando seu líder espiritual representa o que há de mais fraturado, egoísta e decadente em uma sociedade. Enquanto Neymar for o norte moral e técnico da Seleção, o esporte brasileiro continuará colhendo o mesmo resultado que o projeto político de seu aliado produziu: o isolamento, o vexame e a ruína institucional.