Você está apaixonada ou só está com fome?
Natal, RN 18 de jul 2026

Você está apaixonada ou só está com fome?

18 de julho de 2026
5min
Você está apaixonada ou só está com fome?

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​Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que nada do que será discutido aqui se trata de uma verdade absoluta. É mais uma reflexão sincera e aberta sobre as aprendizagens que adquiri ao longo de anos de relacionamentos e, muitas delas, fruto de diálogos profundos com dois dos meus melhores amigos, Ricardo Alexandre e Rafael Amâncio, que sempre me trazem de volta à lucidez nos momentos em que eu me deixei levar pelas armadilhas da paixão.

Nunca fui uma mulher padrão. Tenho a pele negra, sou gorda, tatuada e, até pouco tempo, careca. Apesar de ter consciência do meu nível cultural, intelectual e da minha independência, nunca me achei digna de receber amor. Passei a viver uma busca constante e incessante pelo amor da minha vida. Nessa jornada, toda vez que não era escolhida, sentia que a culpa era minha. Não era boa o suficiente. Então, quando alguém ficava comigo, eu me esforçava para dar o meu melhor e convencer essa pessoa a ficar. Atenção, carinho, presentes… Eu estava atenta às necessidades do meu parceiro, inclusive psicológicas, e buscava sanar todas elas. Eu era a mãe, a psicóloga, a amiga, a consultora de carreira. Adoeci.

Adoeci porque, enquanto dava demais, recebia migalhas em troca. Para meus parceiros, estava cômodo ser tão amado e desejado sem a necessidade de se doar emocionalmente ou mesmo ter responsabilidade afetiva com meus sentimentos e com a relação. Os limites iam sendo ultrapassados e eu perdoava, em troca de uma projeção de mudança do outro que só existia na minha cabeça. Quando começavam as cobranças por mais atenção, mais respeito e mais consideração, o namoro virava um ringue onde eu sempre saía machucada e abandonada no final. Não, nunca consegui terminar meus relacionamentos.

Esse relato pode ser surpreendente para algumas pessoas não tão íntimas, podem pensar: “Como alguém tão bem-sucedida não tem maturidade emocional para relacionamentos afetivos?”. Talvez porque uma coisa não ande de mãos dadas com a outra. Talvez porque essa habilidade seja pouco discutida na escola ou mesmo entre amigos. Passei a vida ouvindo que eu precisava aprender a ser feliz sozinha, que não deveria viver buscando um amor e que querer viver um relacionamento estável e todas as firulas de uma paixão era apenas carência da minha parte. Fraqueza!

Depois de muitos relacionamentos falidos, conselhos dos meus amigos e das moças que me acompanham espiritualmente, cheguei a algumas conclusões reconfortantes, pelo menos para mim. Com Oxum, Cigana e Pombagira aprendi a me amar, de verdade. A olhar meu lado bonito e minhas sombras e entender que esta sou eu. Não preciso demonstrar menos intensidade para não parecer emocionada. Se o outro não consegue ou não quer lidar com esse arroubo, que se vá. Compreendi que, se para alguns eu sou gorda e ameaçadora, para outros eu sou exemplo de mulher gostosa e empoderada.

Como filha de Iemanjá, entendi que é natural querer ter uma família. Gosto de estar em um relacionamento e ter alguém para cuidar, mas que não use isso como moeda de troca. Precisa ser recíproco. O outro precisa querer ficar e estar disponível para a troca. Aprendi quais são meus limites e a deixá-los muito claros. São para a minha proteção, então estão fora de negociação, ainda que isso implique o afastamento da pessoa. Não se perde o que nos faz mal; nos livramos disso. Minha validação já não está mais nas mãos do outro. Ser escolhida não define meu valor. Posso não ser o seu tipo, e tudo bem. Posso deixar claros meus limites, e isso fazê-lo ir embora logo de início, e tudo bem. Posso deixar claro o que espero de uma relação e ser muito para alguém. Estou tranquila em relação a isso.

Encontrar amores já não é meta de vida. Eu gosto de ficar sozinha, fico bem sozinha, preciso, inclusive, de momentos de solidão para regular minhas emoções ou mesmo fazer coisas que não são possíveis a dois, mas gosto de estar em um relacionamento e saber que tem alguém ali. Mas já entendi que é injusto colocar o peso da responsabilidade de cuidar de mim e me fazer feliz nas mãos dos outros. É fato que ambos vamos chegar quebrados, mas o compromisso de se cuidar e sanar nossas feridas precisa ser nosso em primeiro lugar.

Eu não sou uma pessoa carente por ser assim. Não estou em falta com nada, nem mesmo com amor-próprio. Sou uma pessoa inteira, complexa e que busca viver momentos especiais e verdadeiros a dois, mas, enquanto não vêm, sei “sair da mesa quando o amor não está sendo servido”, sem textão… o outro sabe de si.

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