Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que nada do que será discutido aqui se trata de uma verdade absoluta. É mais uma reflexão sincera e aberta sobre as aprendizagens que adquiri ao longo de anos de relacionamentos e, muitas delas, fruto de diálogos profundos com dois dos meus melhores amigos, Ricardo Alexandre e Rafael Amâncio, que sempre me trazem de volta à lucidez nos momentos em que eu me deixei levar pelas armadilhas da paixão.
Nunca fui uma mulher padrão. Tenho a pele negra, sou gorda, tatuada e, até pouco tempo, careca. Apesar de ter consciência do meu nível cultural, intelectual e da minha independência, nunca me achei digna de receber amor. Passei a viver uma busca constante e incessante pelo amor da minha vida. Nessa jornada, toda vez que não era escolhida, sentia que a culpa era minha. Não era boa o suficiente. Então, quando alguém ficava comigo, eu me esforçava para dar o meu melhor e convencer essa pessoa a ficar. Atenção, carinho, presentes… Eu estava atenta às necessidades do meu parceiro, inclusive psicológicas, e buscava sanar todas elas. Eu era a mãe, a psicóloga, a amiga, a consultora de carreira. Adoeci.
Adoeci porque, enquanto dava demais, recebia migalhas em troca. Para meus parceiros, estava cômodo ser tão amado e desejado sem a necessidade de se doar emocionalmente ou mesmo ter responsabilidade afetiva com meus sentimentos e com a relação. Os limites iam sendo ultrapassados e eu perdoava, em troca de uma projeção de mudança do outro que só existia na minha cabeça. Quando começavam as cobranças por mais atenção, mais respeito e mais consideração, o namoro virava um ringue onde eu sempre saía machucada e abandonada no final. Não, nunca consegui terminar meus relacionamentos.
Esse relato pode ser surpreendente para algumas pessoas não tão íntimas, podem pensar: “Como alguém tão bem-sucedida não tem maturidade emocional para relacionamentos afetivos?”. Talvez porque uma coisa não ande de mãos dadas com a outra. Talvez porque essa habilidade seja pouco discutida na escola ou mesmo entre amigos. Passei a vida ouvindo que eu precisava aprender a ser feliz sozinha, que não deveria viver buscando um amor e que querer viver um relacionamento estável e todas as firulas de uma paixão era apenas carência da minha parte. Fraqueza!
Depois de muitos relacionamentos falidos, conselhos dos meus amigos e das moças que me acompanham espiritualmente, cheguei a algumas conclusões reconfortantes, pelo menos para mim. Com Oxum, Cigana e Pombagira aprendi a me amar, de verdade. A olhar meu lado bonito e minhas sombras e entender que esta sou eu. Não preciso demonstrar menos intensidade para não parecer emocionada. Se o outro não consegue ou não quer lidar com esse arroubo, que se vá. Compreendi que, se para alguns eu sou gorda e ameaçadora, para outros eu sou exemplo de mulher gostosa e empoderada.
Como filha de Iemanjá, entendi que é natural querer ter uma família. Gosto de estar em um relacionamento e ter alguém para cuidar, mas que não use isso como moeda de troca. Precisa ser recíproco. O outro precisa querer ficar e estar disponível para a troca. Aprendi quais são meus limites e a deixá-los muito claros. São para a minha proteção, então estão fora de negociação, ainda que isso implique o afastamento da pessoa. Não se perde o que nos faz mal; nos livramos disso. Minha validação já não está mais nas mãos do outro. Ser escolhida não define meu valor. Posso não ser o seu tipo, e tudo bem. Posso deixar claros meus limites, e isso fazê-lo ir embora logo de início, e tudo bem. Posso deixar claro o que espero de uma relação e ser muito para alguém. Estou tranquila em relação a isso.
Encontrar amores já não é meta de vida. Eu gosto de ficar sozinha, fico bem sozinha, preciso, inclusive, de momentos de solidão para regular minhas emoções ou mesmo fazer coisas que não são possíveis a dois, mas gosto de estar em um relacionamento e saber que tem alguém ali. Mas já entendi que é injusto colocar o peso da responsabilidade de cuidar de mim e me fazer feliz nas mãos dos outros. É fato que ambos vamos chegar quebrados, mas o compromisso de se cuidar e sanar nossas feridas precisa ser nosso em primeiro lugar.
Eu não sou uma pessoa carente por ser assim. Não estou em falta com nada, nem mesmo com amor-próprio. Sou uma pessoa inteira, complexa e que busca viver momentos especiais e verdadeiros a dois, mas, enquanto não vêm, sei “sair da mesa quando o amor não está sendo servido”, sem textão… o outro sabe de si.