Mãe Luíza: o morro é feito de samba
Natal, RN 2 de jul 2026

Mãe Luíza: o morro é feito de samba

1 de dezembro de 2024
7min
Mãe Luíza: o morro é feito de samba
Fotos: Cedidas.

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“Quem não gosta do samba, bom sujeito não é / É ruim da cabeça ou doente do pé…”. Os versos de “Samba da Minha Terra”, uma das canções mais conhecidas do compositor baiano Dorival Caymmi, gravada pela primeira vez em 1957, ilustram bem como o samba faz parte da identidade cultural dos brasileiros.

Reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil, o ritmo é tão importante que possui uma data própria para sua celebração. O Dia Nacional do Samba, comemorado na segunda-feira, 2 de dezembro, foi oficialmente instituído em 2023, mas já era festejado desde 1960. Para o imaginário popular, o gênero musical está intrinsecamente associado ao cenário urbano do morro, das comunidades e das periferias, cujo cotidiano inspirou muitos sambas que se tornaram clássicos da música brasileira.

Foi justamente em um desses cenários que surgiu uma das rodas de samba que atrai um público cada vez maior em Natal. O “Samba na Escadaria”, no bairro de Mãe Luíza, na Zona Leste de Natal, teve sua primeira edição em março de 2024. Rapidamente, a novidade se espalhou, o evento entrou para o calendário cultural da cidade e gente de todas as regiões começou a frequentar a “sexta-feira mais charmosa” da capital, como define a produtora Lena Bandeira.

Idealizadora do projeto, junto com o cantor Zé Roberto, criador do grupo “Sambaduzé”, Lena contou que a escolha do local da roda de samba não foi à toa. A escadaria de Mãe Luíza, erguida após a tragédia do deslizamento de terra que atingiu o bairro em junho de 2014, tem uma peculiaridade que chamou a atenção deles: está de frente para o mar e de costas para a comunidade.

“Entendemos que aquele lugar era o espaço perfeito para fazer a roda de samba, porque junta a beleza da vista para o mar com a valorização da comunidade, um lugar bonito, culturalmente rico e cheio de gente trabalhadora, mas que muitas vezes é invisibilizado e marginalizado”, comentou a produtora cultural.

Lena Bandeira contou que Zé Roberto queria criar uma roda de samba “em uma comunidade que não tivesse essa oferta cultural”, oportunizando tanto aos moradores locais como aos visitantes o acesso a um evento gratuito, que também abre espaço para valorizar os artistas natalenses.

Lena Bandeira, produtora do “Samba na Escadaria”.

A produtora cultural revelou que pesou também o fato de a maioria dos eventos culturais estarem concentrados em poucas áreas da cidade, muitas vezes inacessíveis para quem mora na periferia em razão da conhecida dificuldade de mobilidade urbana de Natal.

Zé Roberto já participava de outras rodas de samba de Natal, como a “Quinta de Lei”, que acontece há oito anos, nas noites de quinta-feira no Beco da Lama, no bairro de Cidade Alta. A ideia de criar o “Samba na Escadaria” surgiu do desejo de popularizar ainda mais esse gênero musical que reúne um público cada vez mais diversificado e que se renova uma geração após a outra.

Zé Roberto, idealizador da roda de samba, com cantoras convidadas.

“O projeto veio para se integrar com as outras rodas de samba da cidade, mantendo viva essa tradição em Natal. É um evento que promove também inclusão, diversidade e dá visibilidade a artistas locais e da própria comunidade”, orgulha-se Lena Bandeira.

Ela também ressaltou o impacto econômico e social do evento, que movimenta o comércio da comunidade, além de beneficiar os vendedores ambulantes que se integraram ao projeto e comercializam seus produtos durante a roda de samba.

Ação Beneficente

Ao longo de 2024, o projetou realizou 11 edições do Samba na Escadaria, que acontece quinzenalmente. A última edição do ano, na próxima sexta-feira (6), será beneficente. Lena e Zé Roberto decidiram aproveitar o evento para arrecadar alimentos e brinquedos para doar às famílias da comunidade.

“É uma forma de agradecer à comunidade por nos acolher, receber nosso projeto e ajudar manter viva a tradição da roda de samba. Estamos muito felizes com o resultado”, declarou a produtora, acrescentando que a expectativa é de ajudar entre 30 e 50 famílias, dependendo do volume de doações.

Além de doar gêneros alimentícios não perecíveis, as doações também podem ser feitas via Pix, através da chave [email protected].

O projeto deverá retornar em 2025, mas a data ainda não está definida. Por ser gratuito, a realização depende de apoios, parcerias e patrocínios para se viabilizar. “Queremos consolidar a escadaria de Mãe Luíza como um ponto de cultura democrático de Natal”, completou Lena.

O samba é negro

As origens do samba como o conhecemos remetem às rodas de dança feitas pelos negros escravizados da Bahia, em meados do século XIX. Foi assim que surgiu o samba de roda, levado ao Rio de Janeiro no início do século XX, que originou o samba urbano carioca, a forma mais tradicional do gênero em nosso país, nascido nos terreiros onde os negros realizavam seus rituais religiosos.

Falar de samba, portanto, é contar uma história de resistência, identidade e ancestralidade, porque a alma do samba é negra.

O samba é crítica social, mas também é a forma como o sambista expressa seu amor, sua solidão e uma certa visão nostálgica da vida. É que, como dizem os versos de Noel Rosa, “sambar é chorar de alegria”.

A melancolia também é um tema frequente do samba, como descreveu Paulinho da Viola em “Quando bate uma saudade”: “Quando o poeta se encontra / Sozinho num canto qualquer do seu mundo / Vibram acordes, surgem imagens / Soam palavras, formam-se frases…”.

Em “Desde que o samba é samba”, Caetano Veloso e Gilberto Gil nos lembram que “o samba é o pai do prazer” e “filho da dor”.

Alcione já anunciava em “Não Deixe o Samba Morrer”, gravada originalmente em 1975, que “o morro foi feito de samba / de samba pra gente sambar”. Então, nada melhor que seguir o conselho da Marrom e subir o morro de Mãe Luíza para “escutar um samba honesto”.

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