Mais uma banda neonazista no RN é identificada e número sobe para 4
Subiu para quatro o número de bandas de black metal do Rio Grande do Norte com discursos extremistas associados ao neonazismo e ataques a judeus, comunidade LGBTQIA+ e negros. As informações são da organização não-governamental Stop Hate Brasil.
Essas bandas brasileiras são adeptas do National Socialist Black Metal (NSBM), um movimento extremista que se utiliza do subgênero musical black metal, surgido nos anos 1990, e é conhecido por suas letras e ideologias associadas à apologia ao nazismo, neonazismo, ao antissemitismo, supremacismo branco, racismo e a apologia à violência racial/étnica.
Inicialmente, o levantamento indicou a existência de 125 bandas deste tipo no país, e outros 48 grupos sem identificação. A quarta banda potiguar surgiu deste contingente que passou a ser detectado.
O relatório não nomeia e nem inclui a lista completa de bandas para evitar promoção involuntária ou publicidade indevida. A Agência SAIBA MAIS teve acesso aos nomes e repassou à Polícia Civil, mas adotou a mesma decisão de não divulgar os nomes completos, apenas as iniciais. A Polícia, por sua vez, se limitou a informar que está acompanhando o caso. As bandas são:
1 – B, de Mossoró*
2 – E.A, de Natal
3 – W, de Natal
4 – P.C, de Parnamirim
* A identificação das cidades foi feita com base no site The Metal Archives, que mapeia bandas do cenário
Além disso, de acordo com o levantamento dos pesquisadores, ainda teria um membro do Rio Grande do Norte em uma outra banda do Paraná, com a inicial S.
Segundo Michele Prado, que conduziu o estudo ao lado de Ricardo Cabral Penteado, o extremismo e a radicalização estão bem pulverizados no Brasil, não estando concentrados em alguns estados.
“A internet rompeu fronteiras. Antes, por exemplo, para você gravar um disco, para você entrar num grupo extremista, neonazi, ligado ao supremacismo branco, tinha um ritual de iniciação, era escondido, às vezes em garagem, uma coisa mais clandestina, marginal. Com a internet não precisa. Com a internet eles se conectam muito rapidamente, muito fácil. Então, você cria espaços de networking entre esses extremistas. Isso explica, por exemplo, um local como o Nordeste ter quatro bandas [no RN]. Eu também achei bastante aí no Rio Grande do Norte”, afirma.
Prado lembra que, no Brasil, manifestações de racismo e antissemitismo são consideradas crimes graves de acordo com a Lei nº 7.716/1989.
“Esses indivíduos antissemitas, racistas, neonazistas, estão violando a Lei 7.716, que criminaliza esses discursos, e esse é um crime imprescritível e inafiançável. Ou seja, não importa se o seu discurso, o seu álbum, o seu disco antissemita, de apologia ao nazismo, racista, foi feito em 1990 ou em 2025, porque para a Justiça continua sendo crime. Então, a Justiça vai punir. Cedo ou tarde essa pessoa será processada e condenada de acordo com a lei”, afirma.
Black Metal não pode ser reduzido à supremacistas, dizem pesquisadores
De acordo com Michele Prado e Ricardo Penteado, o Black Metal, como subgênero multifacetado e culturalmente significativo, não pode ser reduzido ou sequestrado por uma subcultura extremista que busca transformá-lo em veículo de intolerância, extremismo e violência.
“O Black Metal é muito mais amplo e diversificado, incluindo bandas ativamente antifascistas que combatem as ideologias extremistas e discursos de ódio dentro da própria cena, como o movimento RABM (Red and Anarchist Black Metal)”, apontam.
O que é o NSBM
Ao contrário da percepção inicial de que se tratava de um fenômeno marginal e restrito a pequenos grupos, o estudo conduzido pelos pesquisadores destaca que o NSBM no Brasil tem se expandido de forma significativa, mantém uma rede estruturada e interliga-se com movimentos neonazistas e bandas extremistas do supremacismo branco de diversas partes do mundo.
De acordo com a pesquisa, a subcultura extremista NSBM no Brasil não é apenas uma manifestação periférica, mas uma subcultura relevante que encontra apoio e difusão tanto no território nacional quanto no cenário global. As bandas NSBM utilizam a música como ferramenta para espalhar discursos de ódio, angariar recursos financeiros para ecossistemas extremistas globais e recrutar e radicalizar indivíduos, especialmente mais jovens, o que é amplificado pelo ambiente digital. O estudo revela também a criação de múltiplos pseudônimos por parte de músicos ligados a esse movimento, além da utilização de plataformas de streaming e redes sociais para disseminar suas mensagens extremistas.
Como as bandas foram identificadas
A Stop Hate Brasil empregou critérios sólidos e rigorosos para a identificação e classificação de bandas associadas ao National Socialist Black Metal (NSBM). Esses critérios incluíram a análise detalhada de capas e contracapas de álbuns, símbolos utilizados, títulos de álbuns, imagens de divulgação, a presença das bandas em sites e festivais do supremacismo branco global e voltados à disseminação do NSBM, títulos de músicas, análise das letras quando encontradas e o reconhecimento dessas bandas, pelos próprios círculos extremistas, como parte dessa subcultura. A Stop Hate Brasil também realizou consultas e reuniões com indivíduos especializados na própria cena do Black Metal.
Palavras como “Guerra, ” “Sangue, ” “88” (referência codificada ao ‘Heil Hitler’), “Judeus” , “Vitória” , antissemitismo/antissionismo violento e expressões associadas à gramática histórica nazista e neonazista (por exemplo referências à uma suposta dominação global de judeus, que neonazistas chamam de ZOG – governo de ocupação sionista) e “Ariano” aparecem repetidamente nos títulos das músicas das bandas identificadas nacionalmente.
Esses termos, de acordo com o estudo produzido por Michele Prado e Ricardo Cabral Penteado, reforçam mensagens de supremacia racial, exaltação de hierarquias militaristas e apologia à violência.
Exemplos de títulos como “Aryan Blood – Ancient Empire” (Sangue Ariano – Império Antigo) e “88 Shots in Your Race” (88 Tiros em Sua Raça) mostram como as bandas utilizam a linguagem para provocar e influenciar seus públicos. Ao inserir essas mensagens em suas músicas, as bandas não apenas promovem ideologias extremistas, mas também as utilizam como ferramentas de recrutamento, atingindo audiências no Brasil e no exterior. Outras músicas glorificam terroristas supremacistas e assassinos em massa; incitam violência direcionada contra a comunidade LGBTQ+ (“homokiller” , “homocaust” são dois exemplos) e o etnonacionalismo.
Saiba+
Relatório indica existência de 3 bandas neonazistas no RN