Ator potiguara, Juão Nÿn leva ao teatro 1º caso de LGBTfobia do Brasil
Natal, RN 15 de jun 2026

Ator potiguara, Juão Nÿn leva ao teatro 1º caso de LGBTfobia do Brasil

27 de março de 2025
6min
Ator potiguara, Juão Nÿn leva ao teatro 1º caso de LGBTfobia do Brasil

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Em 1614, na então recém-fundada cidade de São Luís do Maranhão, um indígena tupinambá foi condenado à morte por soldados franceses. O motivo: seus modos de vida, suas práticas sexuais e sua existência livre, que confrontavam as normas morais impostas pelos invasores europeus. Amarrado à boca de um canhão, Tybyra foi executado e apagado da história oficial do Brasil. Séculos se passaram até que essa história fosse lembrada novamente, graças à pesquisa do antropólogo Luiz Mott, que identificou o episódio como o primeiro caso documentado de LGBTfobia no território brasileiro.

Mas Tybyra voltou. Voltou em forma de arte, de resistência e de memória viva. Voltou pela voz, pelo corpo e pela língua de Juão Nÿn, artista potiguara, nascido e criado no bairro do Alecrim, em Natal (RN), que decidiu transformar essa história esquecida em um espetáculo cênico visceral, falado em tupi-potiguara, conduzido por elementos rituais e atravessado por espiritualidade indígena.

A peça “Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira” estreou há duas semanas no Sesc/SP e segue em cartaz por mais 15 dias (com lotação esgotada em todas as sessões). Mas a história deve percorrer o Brasil e cruzar fronteiras: Juão Nÿn deseja, inclusive, levar o trabalho à França, como um gesto de devolução histórica. “É um objetivo e já estamos conversando com equipes da França”, comenta o artista, ciente da potência simbólica desse retorno.

“Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira” é mais que teatro. É uma resposta tardia e urgente a uma violência colonial ainda presente no corpo e na alma do Brasil. Em cena, Juão revive Tybyra não como mártir, mas como símbolo ancestral de liberdade, fluidez e pertencimento. “Tudo o que sabíamos de Tybyra era sobre ele morto. Na peça, trago ele vivo, com voz, com vida”, explica Juão em entrevista ao blog.

A peça nasceu como livro, publicado em 2020 por Juão Nÿn. A obra é uma ficção inspirada no episódio real de 1614. O texto é uma resposta simbólica ao olhar colonial presente nos relatos da época — especialmente no livro do frade francês Yves d’Évreux. A dramaturgia transfere a voz da história ao corpo dissidente indígena, representado por Tybyra, e insere a perspectiva ancestral da comunidade TLGBS+. Traduzido para o tupi-guarani moderno, o livro é bilíngue e rompe com a lógica narrativa hegemônica ao recusar respostas fechadas, propondo diálogos abertos com o(s) outro(s), e com o silêncio como presença dramatúrgica.

Em cena, Juão incorpora o personagem com intensidade, espiritualidade e dor ancestral. O espetáculo, falado em tupi-potiguara, desafia o público a sentir além das palavras. As legendas aparecem apenas em momentos-chave. A proposta é clara: romper com o teatro cerebral e convocar uma experiência sinestésica, sensorial, ritualística. Uma prática cênica decolonial e profundamente indígena.

No palco, Juão tem a companhia da cantora Clara Potiguara, nascida na terra indígena de Baía da Traição (PB) e responsável pela trilha sonora original. Clara, como Juão, também vive um processo de redescoberta da própria língua ancestral. Ao cantar em tupi, ela reencontra uma parte de si e do seu povo. Antes da estreia em São Paulo, a peça percorreu aldeias indígenas no interior do estado. A decisão de começar pelos territórios tradicionais reafirma a proposta de um teatro de retomada, que inverte a lógica colonial da arte como ferramenta de dominação. Juão lembra que o teatro foi a primeira linguagem artística a colonizar o Brasil. “Procuro fazer o oposto e uso o teatro para dar e aflorar a dignidade às línguas e aos corpos indígenas”.

De Natal ao mundo: o corpo como território

Juão Nÿn nasceu em 1989, em Natal, mas viveu parte da adolescência em Curitiba. Desde pequeno, sentia que sua vida teria que ser guiada pela arte. O teatro entrou de vez em sua trajetória quando voltou ao Rio Grande do Norte e assistiu a um espetáculo do grupo Clowns de Shakespeare. Hoje, vive em São Paulo, onde a arte é seu ofício. Além de ator, é performer, músico e criador de arte radical. Em Natal, fundou a banda punk AK-47, conhecida por seus shows performáticos, como o dia em que subiu ao palco com 240 baratas vivas no corpo. Mais tarde, formou o duo Andróide Sem Par, com três álbuns lançados. Já na capital paulista, uniu-se ao coletivo Estopô Balaio, que há dez anos propõe um teatro popular e político nas ruas e nos trens da periferia, uma arte sem moldura, sem cortina e sem palco tradicional.

Foi também em São Paulo que sua identidade indígena se inflamou. E, com o contraste, veio o chamado: conectar-se às raízes potiguares e à luta por visibilidade de seu povo.

No Rio Grande do Norte, como ele lembra, não há sequer uma terra indígena demarcada. A ausência de reconhecimento institucional reforça o apagamento histórico. Ainda assim, Juão se afirma como guerreiro da cultura, atuando na Articulação dos Povos Indígenas do RN (Apirn) e participando das mobilizações nacionais por demarcação e direitos.

A palavra como alma, o palco como território

Para Juão Nÿnpalavra é alma. Sua arte, portanto, é também um chamado ao despertar. Um grito ancestral que vem do Rio Grande do Norte e ecoa em palcos cada vez mais distantes e mais atentos. A peça Tybyra, que nasceu de um desejo solitário de fazer um monólogo em 2019, tornou-se um marco do teatro indígena contemporâneo e agora está pronta para atravessar o Atlântico. Quando isso acontecer, será mais do que uma apresentação: será um ato de devolução poética, uma forma de dizer ao mundo que a cultura indígena do Brasil está viva, fala sua própria língua e ocupa o lugar que lhe foi negado.

Conheça um pouco do texto do livro que deu origem à peça:

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