Jornalista potiguar em Portugal: “Você viu que fui vítima de xenofobia, não foi?”
Natal, RN 15 de jun 2026

Jornalista potiguar em Portugal: "Você viu que fui vítima de xenofobia, não foi?"

14 de junho de 2025
6min
Jornalista potiguar em Portugal:

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Lorena Gurgel tem 39 anos, é jornalista, nasceu no Rio Grande do Norte e há dois vive em Portugal. Veio com o marido, que recebeu uma proposta de emprego na área de tecnologia, e trouxe o filho Ícaro, hoje com cinco anos. Mudaram-se em busca de segurança e qualidade de vida. Escolheram Portugal como se escolhe um lugar para fincar raízes. E estavam certos disso até o dia em que a raiz tremeu.

O último dia 11 de junho, era uma tarde comum, num posto de gasolina em Lisboa. Lorena cometeu um erro banal ao tentar abastecer o carro. Um engano simples, corrigível. Mas para quem já decidiu o lugar do outro no mundo, o problema nunca é o erro. É a origem.

Do outro lado da bomba, um homem português não hesitou:
Estás parva.”
“Volta para tua terra.”
“Vocês brasileiros só estão aqui pra bagunçar.”

Lorena congelou. Tentou reagir, com a voz rouca, tentou questionar o motivo daquela raiva. Quem já teve a alma empurrada contra um muro invisível entende.

Uma funcionária portuguesa do posto interveio. Acalmou, ajudou. Lorena perguntou:
— “Você viu que fui vítima de xenofobia, não foi?”
Viu um aceno de “sim” como resposta.

De volta para casa, ligou a câmera. Olhos marejados, voz firme. Gravou um vídeo:

Meu nome é Lorena Gurgel, sou brasileira com muito orgulho […]. Estou há dois anos morando em Portugal e nunca havia sofrido uma situação aberta de xenofobia […]. Até hoje. Um senhor gritou comigo, disse pra eu voltar pra minha terra, disse que a gente só vem aqui pra bagunçar. […] A gente paga imposto, a gente, na verdade, está sustentando esse país. Esse país sem os imigrantes não existiria […]. É revoltante. […] Intelectualmente, há uma lacuna. Porque é uma coisa de juntar A e B: sem imigrantes, não tem economia.

Na legenda do vídeo, versos da música eternizada na voz de Ney Matogrosso.
“E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minha alma cativa”
✊ #xenofobia #Portugal”

A publicação atravessou o Atlântico várias vezes em dezenas de interações Brasil-Portugal. Vieram comentários, relatos, desabafos. Um confessionário público se formou nas redes. Era como se Lorena tivesse gritado por muitos.

“Quando estive aí também passei por situações de xenofobia.”
“Sofri xenofobia na Suécia. Meu filho estava comigo.”
“Me assusta o crescimento da direita aqui (Portugal).”
“O espírito do Salazar ainda habita aqui (Portugal).”
“Essa xenofobia precisa ser exposta. Não é caso isolado. É estrutura.”

Cada comentário era um espelho. Um lembrete: o que Lorena viveu atravessa fronteiras, silêncios, continentes. Ser imigrante, em 2025, ainda exige coragem diária: para existir.

Na entrevista que me concedeu no dia em que postou o vídeo (feito dois dias antes), Lorena nomeia o que muitos fingem não ver:

“Há sempre uma xenofobia velada aqui. Sinto o tempo todo que somos preteridos: nos serviços públicos, nos restaurantes… Há frases sutis o tempo inteiro: os brasileiros se vestem assim, os brasileiros falam assado… Tudo ficou mais visível após o crescimento da extrema direita aqui (O partido Chega, que há quatro anos tinha apenas um representante da Assembleia de Portugal, hoje é a segunda força política com 60 deputados. E a principal bandeira é o combate a imigração). É o mesmo processo que vimos no Brasil. Vemos os ratos saindo do esgoto social. Estou em estado de alerta constante. Sabemos que vai acontecer. Só não sabemos quando.”

Lorena sabia. E, quando aconteceu, não estava preparada.

“Fiquei com vergonha. Me senti suja… um sentimento muito próximo do que sentimos ao sofrer assédio. Minha mãe soube pelo vídeo. Não contei a ninguém do Brasil. E confesso: sou privilegiada. Sou branca. E ainda assim doeu. Imagino o que os negros passam todos os dias. Por isso é importante falar. Pra que não doa em mais alguém amanhã.”

Ela se pergunta:

“O que há contra a gente? Viemos pra cá, investimos aqui… não viemos pedir favor. Trabalhamos, pagamos impostos, alugamos casas com preços altíssimos. O que a gente faz de errado que provoca tanta raiva?”

O que ela faz é viver. E isso, às vezes, basta para incomodar. Um sotaque fora de lugar, um riso fora do script e o incômodo começa. Como se dignidade tivesse passaporte. Como se um país tivesse dono.

Mas Lorena também sabe que Portugal não é só isso. Há quem acolha:

“Duas senhoras portuguesas do prédio onde eu moro disputam vaga de avó de Ícaro. Vivem fazendo bolinhos pra ele. São um amor. Conhecemos pessoas incríveis aqui. Portugal é lindo, tem segurança, tem natureza, tem beleza. Mas bate e assopra. E a gente não precisa ficar aqui a qualquer custo.”

Os dados ajudam a entender a estrutura:

  • Alta na imigração alimenta tensões
    * O número de estrangeiros residentes em Portugal saltou de 383,7 mil em 2015 para mais de 1 milhão em 2023. Os imigrantes já representam cerca de 10% da população portuguesa. Dentre eles, 360 mil são brasileiros, segundo o Itamaraty.
    * Uma pesquisa da Fundação Francisco Manuel dos Santos aponta que 38% dos portugueses acreditam que os brasileiros trazem desvantagens ao país, e 51% defendem a redução na entrada desses imigrantes.
    * Entre 2023 e 2024, o número de brasileiros barrados ao tentar entrar em Portugal cresceu 700%, saltando de 179 para 1.470, conforme o Relatório Anual de Segurança Interna.

  • Queixas de xenofobia em alta
    * De 2022 a 2024, as queixas de xenofobia subiram 30%, segundo a Agência para a Migração e Asilo (AIMA) e a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR). Em 2024, 150 dessas denúncias envolveram brasileiros — um aumento de 20% em relação ao ano anterior.
  • Mais de 1,2 milhão de pessoas discriminadas
    * Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2023, 16,1% da população entre 18 e 74 anos — o equivalente a 1,2 milhão de pessoas — relatou ter sofrido algum tipo de discriminação.
    * Destas, 40,1% apontaram fatores como cor da pele, território de origem ou grupo étnico como base para o preconceito sofrido.
  • Quase mil queixas em 4 anos à polícia
    * Entre 2021 e 2024, a GNR (Guarda Nacional Republicana) recebeu 392 denúncias por discriminação, ódio ou violência. Só em 2024, foram 160.
    * Já a PSP (Polícia de Segurança Pública) contabilizou 575 denúncias entre 2021 e 2023 — de 119 naquele ano para 243 em 2023.

  • Repasse de brasileiros para a previdência bate recorde
    * De cada 100 euros pagos por estrangeiros à Segurança Social portuguesa, 35,9 euros vêm de trabalhadores brasileiros, segundo o Ministério do Trabalho e Solidariedade.
    * Em 2023, os brasileiros contribuíram com 1,03 bilhão de euros (cerca de R$ 6,37 bilhões) — um aumento de 57% em relação ao ano anterior.
    * No total, todos os imigrantes que vivem e trabalham em Portugal aportaram 2,68 bilhões de euros (aproximadamente R$ 16,52 bilhões) ao sistema previdenciário do país — o maior valor já registrado.

Não é falta de presença. É excesso de invisibilidade.

No último 10 de junho, Dia de Portugal, a escritora Lídia Jorge sintetizou o dilema:

“O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.
Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.
A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.”

É preciso lembrar disso. Porque há quem ainda prefira os mapas desenhados a sangue — e não suportam a ideia de um mundo misturado.

Mas Lorena falou.
E quando uma mulher fala, a história se move.

“Se a gente voltar pra nossa terra, quem não vai ter terra são eles.”

E está certa. Porque quem ficou, precisa de cuidado. Cuidado que tem nome, tem cor, tem sotaque. Tem sobrenome brasileiro, africano, indiano…

Naquele dia, quem ouviu o grito foi Lorena.
Mas o eco atravessou fronteiras.
E não há como desouvir.


👉 Meu nome é Cledivânia Pereira. Sou jornalista de Caicó/RN e escrevo de Lisboa. Neste blog, conto histórias de potiguares espalhados pelo mundo: pessoas que, mesmo longe de casa, continuam levando suas raízes no gesto, na fala e na forma de seguir 🌾✈️.

Se você conhece alguém do Rio Grande do Norte vivendo fora do Estado que tenha uma boa história para contar, me escreva: [email protected]. Vou adorar saber e, quem sabe, contar 💌✨.

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