Quem foi a Viúva Machado: lenda natalense tem história desvendada em livro
Natal, RN 2 de jul 2026

Quem foi a Viúva Machado: lenda natalense tem história desvendada em livro

23 de junho de 2025
7min
Quem foi a Viúva Machado: lenda natalense tem história desvendada em livro

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

A história da mulher que comia fígado de crianças e morava num lindo casarão no bairro da Cidade Alta, no centro de Natal, como é de se supor, não passa de uma lenda, e mais do que injusta. Amélia Duarte Machado era a esposa de um rico e habilidoso comerciante português que veio morar na capital potiguar. Amélia, que não teve filhos, tornou-se viúva e teve que gerenciar um patrimônio que abarcava os quatro cantos de Natal e Região Metropolitana numa época na qual as mulheres não tinham qualquer tipo de autonomia.

Aliás, é desse “atrevimento” em gerir o próprio patrimônio que a autora do livro, Maria Elza Bezerra Cirne, suspeita ter surgido a lenda em torno da Viúva Machado.

Ela virou empresária e não tinha filhos, só depois é que veio o filho adotivo. Ela era sozinha nesse mundo e enfrentou tudo para se tornar uma empresária de sucesso aos 53 anos na década de 1930, quando para comercializar algo a mulher tinha que pedir licença ao marido pelo Código Civil”, conta a autora.

O livro é rico em histórias, mas não apenas da Viúva Machado, como de todo o contexto histórico e político.

Eu queria mostrar o contexto das mulheres, da quebra de barreiras. Essa lenda deve ter sido criada como uma punição para ela por ter sido uma empresária de sucesso na época. Ela tinha um patrimônio imobiliário imenso. O Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim, por exemplo, foi doação dela. O Colégio Atheneu, em Petrópolis, foi comprado pelo Estado, o Batalhão que fica perto do campus [da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN], foi desapropriado na época da 2ª GM, também é terreno dela. Se você percorrer Natal, muitos espaços têm relação com o casal. A Ribeira, Petrópolis, o Machadinho foi doação dele. Ninguém nunca valorizou esse casal, ele tem o mero nome de rua Manoel Machado. Ferreiro Torto, em Macaíba também foi deles, assim como a Fazenda Guarapes, que deu origem aos bairros de Guarapes, Planalto e Felipe Camarão”, resume a autora da biografia.

O livro também traz os relatos sobre o primeiro jogo em Natal, que depois acabou sendo proibido por Getúlio Vargas.

Está bem contextualizado, afinal é um período de quase 100 anos”, acrescenta Elza.

Para dar vazão a essas conexões entre a história de Natal e do casal, também foi criada uma exposição com maquete dos espaços relacionados, além de instalações e fotografias antigas.

Para escrever “Viúva Machado – A grandeza de uma mulher”, Elza teve que montar um quebra-cabeça das diferentes fontes de informação.

Maria Elza Bezerra Cirne, autora da biografia

A ideia surgiu no Instituto Histórico e Geográfico quando foi formada uma comissão para estudarmos mulheres pioneiras em algum aspecto da história, mas que não fossem tão conhecidas. A gente sempre ouvia aquela história da Viúva Machado… papa-figo que amedrontava as crianças… fui coletando as informações que surgiram, tem uma tese de mestrado sobre a vida dela e meu tio que viabilizou uma entrevista dela com Vicente Serejo em 1976. Fui juntando as peças do quebra-cabeças, escrevi um artigo menor e publiquei na revista do Instituto Histórico, mas pensei: ‘essa mulher não vai ficar só nesse artigo não, tem material para muita coisae decidi fazer a biografia. Isso foi em 2022, são três anos de pesquisa para chegar ao resultado final”.

Uma das dificuldades foi conseguir falar com a família da Viúva Machado, que se é ressentida com a lenda criada em torno do nome dela.

“Eu entendo perfeitamente. Ela perdeu 14 crianças, foram 11 abortos e três crianças que nasceram vivas, mas morreram. Ela sempre foi uma benemérita para a cidade, ajudou muito, tinha vários afilhados. É uma crueldade o que fizeram com ela”, avalia Elza.

A fortuna, que futuramente seria herdada pela Viúva Machado, foi construída por Manoel Machado, português que chegou sem nada em Natal e construiu um verdadeiro império.

Era época da expansão da cidade ele começou a adquirir terras. Ele morre em 1934 e ela fica viúva. Ela já era uma dama da sociedade. Quando começaram os voos transatlânticos, eles recebiam as personalidades. Ele doou a primeira área para o campo de pouso em Parnamirim, o que posteriormente se tornou o Aeroporto Augusto Severo, depois de passar para a base aérea durante a 2ª Guerra, que já foi na época dela viúva, tomando conta do patrimônio”, revela Elza.

Na época em que ficou viúva, Amélia Duarte Machado enfrentou uma política em efervescência no Rio Grande do Norte, também se destacando como figura relevante na 2ª Guerra.

Uma parte [da propriedade dela] foi desapropriada e comprada para ampliar a base área e a base naval. Ela também era fornecedora das bases militares porque tinham um grande empório de secos e molhados, consignação, importação e exportação! Perguntam: como é que esse povo construiu tudo isso? É uma coisa que ninguém tem noção do que eles tiveram. Ele certamente foi um hábil comerciante, pelas pesquisas ele também era bem relacionado. Deve ter sido um gentleman que soube penetrar e fazer acontecer”, conta Elza, que relata que a característica marcante de Amélia Machado era a humildade.

Mesmo com toda a riqueza, ela sempre foi uma pessoa que gostou de ajudar. Doações para a igreja nem sei dizer quantas. Foram várias as doações e reformas, por exemplo, para a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em frente à residência dela”, relata.

Atualmente, a geração da família de Amélia Duarte Machado que continua viva são os netos do filho adotivo, que pediram para serem mantidos no anonimato.

O livro vem para restaurar a imagem dela. Acho que o principal objetivo do livro é mostrar quem foi Dona Amélia, a pessoa especial que ela foi, que muito contribuiu para a cidade e que foi injustamente atacada. Queremos desmistificar tudo isso. O livro tem apenas um capítulo sobre a lenda, que é para mostrar o que fizeram com ela”, conclui Elza Cirne.

Amélia Duarte Machado morreu aos 99 anos, poucos meses antes de completar um centenário, em 1981.

Serviço

O QUÊ? Lançamento do livro e exposição “Viúva Machado – A grandeza de uma mulher”

QUANDO: quinta-feira (26)

HORÁRIO: 17h

ONDE: Pinacoteca do Estado

ENTRADA: livre

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.