Morre Jacqueline Brasil, referência do ativismo trans no RN; relembre sua trajetória
Natal, RN 27 de jul 2026

Morre Jacqueline Brasil, referência do ativismo trans no RN; relembre sua trajetória

25 de junho de 2025
4min
Morre Jacqueline Brasil, referência do ativismo trans no RN; relembre sua trajetória

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O movimento trans perdeu uma de suas vozes mais firmes: faleceu, na noite desta terça-feira (25), Jacqueline Brasil, militante potiguar e fundadora da ONG Atrevida. Reconhecida nacionalmente por sua trajetória de luta, Jacqueline foi pioneira na defesa dos direitos da população trans no Rio Grande do Norte. Sua morte gerou comoção entre lideranças sociais e organizações de direitos humanos em todo o país.

Jacqueline criou e presidiu a Associação das Travestis, Homens e Mulheres Transexuais do RN (Atrevida), fundada em 2008 na capital potiguar. A organização se tornou uma das primeiras do estado voltadas à promoção da saúde, inclusão social e garantia de direitos da população trans. Atuou especialmente nas áreas de combate à violência, inserção no mercado de trabalho, permanência escolar e acolhimento de pessoas vivendo com HIV.

Em 2011, foi uma das protagonistas na luta pela homologação do Decreto Estadual nº 22.331, que assegurou o direito ao uso do nome social por travestis e transexuais em todos os órgãos do Poder Executivo do Rio Grande do Norte, um marco no reconhecimento da identidade de gênero no estado.

“Jacqueline foi um verdadeiro símbolo da resistência trans e travesti no Rio Grande do Norte e em todo o Brasil”, escreveu a vereadora de Natal, Thábata Pimenta, em suas redes sociais.

Reconhecimento nacional

Pelo impacto de sua militância, Jacqueline recebeu, em 2013, o Prêmio Dr. Eduardo Barbosa, na Bahia, concedido pelo Grupo Gay de Camaçari (GGC). A premiação homenageia ativistas e entidades que se destacam no enfrentamento à homofobia, promoção da saúde e construção de ambientes de paz para a população LGBTQIAPN+.

A homenagem celebrou o trabalho da ONG Atrevida e o protagonismo de Jacqueline como uma das principais vozes travestis do Nordeste. “Nós atuamos em várias frentes em defesa dos direitos dos travestis e temos um trabalho diferenciado na inclusão de travestis com o vírus HIV em políticas públicas de saúde”, declarou ela à época.

Símbolo de luta

Antes de se tornar ativista e viver sua transição de gênero, Jacqueline foi sargenta da Marinha do Brasil. Sua história de vida é marcada por rupturas, enfrentamentos e ressignificações. Da rigidez do quartel, ela seguiu para os frontes da militância, onde encontrou sua missão: abrir caminhos para que outras travestis e pessoas trans pudessem existir com dignidade, visibilidade e afeto.

Ao longo da carreira, teve atuação destacada em redes nacionais como a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), ABGLT e FONATRANS, contribuindo com articulações políticas em defesa dos direitos humanos, com foco nas populações em situação de vulnerabilidade, como pessoas privadas de liberdade e soropositivas.

Luto e legado

A ANTRA publicou uma nota de pesar destacando que Jacqueline era uma “traviarca”, militante histórica que “carregava a ANTRA em seu corpo, em sua voz e em cada gesto de coragem”. “Com a força de quem sabia que resistir também é amar, ela enfrentou as dores do mundo com dignidade e firmeza, sendo farol para muitas que hoje seguem seu caminho”, diz a nota.

Já a Rede Gay do Brasil lembrou a trajetória de Jacqueline como uma das pioneiras no enfrentamento à LGBTfobia e invisibilidade da população trans no RN. Em 2022, ela participou como artista em uma apresentação cultural da Rede, reafirmando seu compromisso com a arte como linguagem de resistência.

A partida de Jacqueline Brasil representa uma perda inestimável para o movimento LGBTQIAPN+. Mas, como destacam as entidades das quais fez parte, seu legado permanece vivo. Jacqueline é lembrada não apenas pelas conquistas políticas, mas pelo afeto, pela firmeza e pela generosidade com que se entregou à luta.

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