Sexta-feira passada foi um daqueles dias que a gente não vive impunemente. Um dia que atravessou o tempo e me atravessou por inteira. Um dia feito de pulsos e pulsações, de emoções à flor da pele, de risos rasgados e choros largos e profundos. De palavras que se libertaram na boca e no corpo. De declarações, desabafos, histórias de vida entrelaçadas com Literatura Comparada, com João Gilberto Noll, com a Academia, com amizades antigas e amores ainda pulsantes. Oremus por tudo isso!
Foi dia de expressar e ser expressada. Dia em que vivi, com todos os poros abertos, um “Instante ficcional”, profundamente real. Um momento denso, inteiro, mesmo sendo fragmento. Porque eu sou assim: fragmento de mim mesma, mas nunca pela metade. Um todo que carrega outros todos dentro de si. E mesmo quando cindida, sou potência, sou criação, sou energia ensolarada, como me chama uma amiga.
Sexta-feira passada, eu me derramei. Eu transbordei. Senti a vida correr como rio em cheia, e eu ali, com sede. Porque eu tenho fome de mundo, sede de viver. E viver, pra mim, é luxo. “Viver é luxo”, me disse Clarice. Um luxo conquistado, sentido na carne. E eu me lambuzo mesmo com isso tudo. Tenho quê! Sou uma travesti brasileira. Meu corpo é alvo, é território de disputa, é bandeira. Cada privilégio que experimento tem gosto de vitória, gosto de sangue e festa ao mesmo tempo.
Naquele dia, transicionei mais uma vez. Morri. Renasci. Fui Fênix. Troquei penas pra alcançar outros voos, mais altos, mais longos, mais arriscados. Voos que carrego no peito como promessa e desafio. Voos que me movem.
Sexta-feira passada, eu me vi sob holofotes. E senti o peso da luz. Senti o calor da conquista. Uma conquista que não é só minha. É de muitas. De todos os afetos que me sustentam, das mãos que seguraram as minhas quando minhas asas ainda não estavam prontas. Foi o dia da minha apoteose e eu a vivi como se vive um sonho que se sabe real demais.
Aquele instante virou semente em mim. Gênese. Fractal. Um ponto de partida que não encerra nada, só abre portas para compossibilidades e devires. Me vi nascendo de novo, me fazendo e desfazendo, num eterno passeio esquizo.
Sim, sexta-feira passada foi só mais um dia. Só mais um instante. Mais um fragmento.
E eu sigo assim: feita de cacos. Em cacos. Fragmentada, mas inteira. Sempre inteira. Densa, vibrante, rizomática, barroca — eternamente barroca.
Minha tese? Ah… minha tese fui eu quem defendi. Mas foi ela também que me defendeu. E segue me defendendo, como escudo e como espelho.
Sexta-feira passada eu me tornei ficção. E nessa ficção, eu fui, eu sou a mais pura verdade.