RN tem três feminicídios em três dias
Desde o final de semana até esta terça (9), foram registrados pelo menos três casos de feminicídio no Rio Grande do Norte. Na madrugada do domingo (7), Érika Sueli dos Santos Farias, 24 anos, foi morta dentro de casa, no bairro de Monte Castelo, em Parnamirim. O principal suspeito é o companheiro da vítima, que foi preso em flagrante.
Vizinhos ouviram uma briga entre o casal e chamaram a polícia, que ao chegar ao local flagrou Franklin da Silva Martins, de 38 anos, tentando deixar a residência ensanguentado.
Érika, que é natural de São Paulo do Potengi e mãe de dois filhos, foi encontrada já sem vida em um dos cômodos da casa. As crianças moram com a avó e não presenciaram o momento do confronto. A vítima foi morta com vários golpes de uma garrafa de café na cabeça, que também foi arremessada contra a parede. O caso será investigado pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Parnamirim.

Já na manhã do domingo, Maria das Vitórias da Silva, de 42 anos, foi morta a facadas, também dentro de casa, onde morava com o ex-companheiro, que é o principal suspeito do crime. Segundo informações colhidas no local, José Vanderley não aceitava o fim do relacionamento. O crime ocorreu na cidade de Santa Cruz. Maria das Vitórias ainda tentou fugir, mas morreu na calçada de casa. O suspeito ainda conseguiu fugir, mas foi preso nesta terça (9).

A Polícia Civil também apura a morte de um casal, no bairro das Quintas, Zona Oeste de Natal, na noite desta segunda (8). No local, também foi encontrado um bebê de três meses, que foi resgatado e entregue a familiares da mãe.
As primeiras informações colhidas pelas equipes de plantão da DHPP apontam para a hipótese inicial de um caso de feminicídio seguido de suicídio. Porém, a investigação segue em andamento para confirmação dos fatos. De acordo com a Polícia Civil, o homem e a mulher tinham um tiro na cabeça e uma arma foi encontrada perto do corpo do homem.
A mulher foi identificada como Simone Patrícia Soares de Figueiredo.
Tentativas de feminicídios crescem em 2025
Entre janeiro e agosto deste ano foram registrados 12 casos de feminicídio no Rio Grande do Norte. Um caso a menos do que o mesmo período de 2024, quando foram registradas 13 ocorrências. Os dados são da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (Coine).
Já as tentativas de feminicídio subiram de 40 para 42 entre janeiro e agosto de 2025 em comparação com o mesmo período do ano passado.
No mês de julho, Igor Cabral, 29, foi detido depois de espancar a então namorada, Juliana Soares, de 35 anos, com mais de 60 socos dentro de um elevador em um condomínio, no bairro de Ponta Negra, na Zona Sul de Natal.

Imagens do circuito interno registraram o momento em que ela leva dezenas de socos. A violência deixou a vítima com o rosto desfigurado. O segurança do condomínio, ao ver as imagens, acionou a Polícia Militar.
Quando o elevador chegou ao térreo, o agressor foi contido pelos moradores até a chegada dos policiais. A vítima, que foi levada para o Hospital Walfredo Gurgel, sofreu fraturas no rosto, deslocamento da mandíbula e perda parcial da visão.
A delegada Victória Lisboa relatou que o agressor, ao prestar depoimento na Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam), alegou que tinha claustrofobia. Depois de ser detido em flagrante, durante audiência de custódia, Igor teve a prisão preventiva decretada.
A discussão, segundo a Polícia Civil, teria começado em uma área comum do condomínio, onde eles faziam um churrasco com amigos. Juliana relatou que Igor teve uma crise de ciúmes quando ela lhe mostrou mensagens que havia recebido em seu celular.
No dia 1º de agosto Juliana Soares, vítima das agressões, passou por uma cirurgia para restauração dos ossos do rosto no Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol). Juliana teve múltiplas fraturas no rosto e maxilar e deve ficar com sequelas, segundo o cirurgião-dentista Kerlison Paulino de Oliveira, responsável pela cirurgia.

Em depoimento à Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher da Zona Leste, Oeste e Sul (DEAM-ZLOS), Juliana revelou que Igor Cabral, antes de cometer a tentativa de feminicídio, havia lhe estimulado a cometer suicídio.
“Ela informou que já havia sido agredida com um empurrão e que em outras ocasiões ela conversou com ele sobre a possibilidade dela se matar e ele incentivava ela a tomar essa atitude”, contou a delegada.
“Ela estava com o psicológico abalado e aí ele a estava incentivando [a tomar os remédios]. Isso, inclusive, será apurado melhor porque também pode configurar crime”, acrescentou a delegada.
Em entrevista à TV Tropical, Juliana também contou que o ex-namorado demonstrava comportamento possessivo, já havia lhe empurrado e cometido muita violência psicológica, mas não imaginava que ele chegaria ao ponto de tentar matá-la.
RN teve aumento da violência doméstica em 2024
O número de feminicídios no Rio Grande do Norte caiu 21%, passando de 24 em 2023 para 19 em 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado em julho.
Porém, as tentativas de feminicídio tiveram alta de 71%. Eram 39 casos em 2023 que saltaram para 67 em 2024. E o problema da violência contra a mulher persiste quando se avalia os dados da violência doméstica, que aumentou 3%. Foram registrados 1.178 casos em 2023 e 1.221 em 2024.
Os casos de ameaça que têm mulheres como vítimas passaram de 10.166 em 2023 para 10.509 em 2024, uma alta semelhante na casa dos 3%. Também foram contabilizados os casos de perseguição (stalking), que passaram de 1.063 em 2023 para 1.190 em 2024, o que representa alta de 11%. Dentre os casos de violência psicológica, foram 979 casos em 2023 contra 910 no ano passado, numa queda de 7,3%.
RN tem queda de crimes e aumento de violência contra a mulher
O aumento da violência contra a mulher se dá num contexto de redução geral dos dados de violência. O Rio Grande do Norte teve queda de 31% nos roubos a estabelecimentos comerciais, que passaram de 1.060 para 729 entre 2023 e o ano passado. Também houve queda de 16%, nos roubos a residência, que passaram de 1.021 para 856 nesse mesmo período. Já o roubo a transeuntes também teve queda de 17%, os casos baixaram de 9.656 para 7.992 entre 2023 e 2024.
Brasil
Quase uma década depois da promulgação da lei do feminicídio, os dados seguem preocupantes. No último ano, todos os dias, ao menos quatro mulheres morreram vítimas de feminicídio no Brasil. No total do ano, foram 1.492 mulheres. É o maior número já observado desde 2015, quando a lei entrou em vigor.
Segundo o Anuário, houve uma alta de 0,7% na taxa de feminicídios em 2024 em comparação a 2023. Esse crescimento, mesmo que não tão expressivo em termos relativos, se dá em um contexto de redução geral das Mortes Violentas Intencionais (MVI) – considerando ambos os sexos -, tendência que tem sido observada ano após ano.
Em números absolutos, em relação às mulheres, mesmo com a queda de homicídios dolosos, temos pouco a comemorar: 3.700 mulheres perderam as suas vidas de forma violenta em 2024; dessas, 1.492 foram mortas em razão de serem mulheres