Setembro de Segunda Mão: moda sustentável com brechós, criadores e ativistas
Setembro vem sendo ressignificado no calendário da moda mundial. Criada para incentivar práticas de consumo mais conscientes, a campanha Setembro de Segunda Mão cresce a cada ano e busca chamar atenção para os impactos do fast fashion e para a urgência de repensar como nos relacionamos com as roupas. No Rio Grande do Norte, a iniciativa encontra terreno fértil em brechós, feiras de troca e projetos criativos que fazem da moda um espaço de transformação social e ambiental.
Uma das principais vozes do movimento no estado é Vivian Pedrozo, representante regional do Fashion Revolution, rede global que atua pela transparência e pela sustentabilidade na indústria da moda. Com trajetória que passa por grandes varejistas brasileiros e até pela grife britânica Alexander McQueen, Vivian conta que foi justamente dentro do sistema que começou a questionar os bastidores do setor.
“Estando dentro da indústria, vi de perto os impactos ambientais, sociais e a lógica acelerada da produção em massa. Essa vivência me fez repensar meu papel e mergulhar em práticas mais conscientes”, afirma.
Para ela, o Setembro de Segunda Mão é quase um manifesto. Os números dão a dimensão do problema: o planeta já tem roupas suficientes para vestir as próximas seis gerações, mas ainda assim a indústria produz entre 100 e 150 bilhões de novas peças por ano, cerca de 4.400 por segundo.
“Falar sobre segunda mão é também falar sobre reduzir a velocidade dos meios de produção e repensar o futuro da moda. Cada peça usada carrega história, técnica e qualidade que muitas vezes não vemos mais na produção atual”, explica Vivian.
Brechós como espaços de liberdade e criação
Se para Vivian o movimento se conecta ao ativismo, para Led (Luiz Eduardo), criador da marca potiguar Oner, o garimpo começou como forma de liberdade estética na adolescência.
“Quando chegava nas lojas com 15 anos, vi que os preços eram uma barreira para experimentar meu estilo. Foi nos brechós que encontrei essa liberdade acessível e diversa. Mais tarde, percebi também o impacto ecológico desse ato e coloquei a sustentabilidade como pilar da Oner, porque ela é uma extensão das minhas vivências”, conta.
Hoje, Led transforma roupas de segunda mão em peças customizadas, com estilo único e personalidade.

“Busco sempre que possível trabalhar com roupas usadas, para que quem consome a Oner também entenda a importância de consumir com consciência. Para mim, esse processo é um gesto artístico”, afirma.
No Rio Grande do Norte, brechós e feiras de troca se consolidam como pontos de encontro que estimulam novas relações de consumo. Para Vivian, essas práticas não são a solução isolada, mas fazem parte de uma transição necessária.
“O consumo consciente não é sobre comprar mais, mas sobre repensar nossas escolhas. A frase que sempre repito é: a roupa mais sustentável é a que já temos”, reforça.
Além do impacto ambiental, o movimento de segunda mão também toca dimensões sociais e culturais. Ele desafia preconceitos ainda presentes em torno do consumo de roupas usadas e questiona a ideia de status vinculada ao consumismo.
“Roupa de brechó não é velha nem sem valor. Muitas vezes são peças de alta durabilidade, com materiais e técnicas que já não vemos na produção em massa. Consumir segunda mão não é sinal de falta, é sinal de consciência”, destaca Vivian.
O desafio, segundo os ativistas, ainda é sobretudo cultural: mudar a narrativa que associa felicidade ao consumo acelerado. Entre as alternativas defendidas estão ampliar o acesso a brechós e feiras, investir em práticas de upcycling, prolongar a vida útil das peças e incentivar a curadoria local.
Para o futuro, Vivian acredita que a circularidade será palavra-chave, com mais práticas de reparo, trocas e reaproveitamento, enquanto a tecnologia ajudará a dar transparência à cadeia produtiva. Já Led aposta na criatividade e na estética como porta de entrada para o público jovem.
Ambos concordam que o Setembro de Segunda Mão vai além de uma campanha: trata-se de um convite para mudar a forma como enxergamos o ato de vestir. A programação especial do mês em Natal ainda não foi divulgada, porém tem um esquenta com data marcada: