Ser fiel até o fim: a voz de padre Júlio Lancellotti e o Brasil em disputa
Em Mossoró, no calor do sertão potiguar, a palavra de padre Júlio Lancellotti atravessou o salão da Conferência Regional de Direitos Humanos como quem lembra o óbvio que insiste em ser esquecido: “Estar do lado dos perseguidos você vai ser perseguido também, estar do lado dos rejeitados você vai ser rejeitado também”.
Na plateia, militantes, pesquisadores, lideranças comunitárias e cidadãos comuns se reconheceram nesse diagnóstico. Porque o que se discutia ali, quase dez anos depois da interrupção das Conferências de Direitos Humanos, não era apenas a formulação de propostas para políticas públicas. Era o direito à vida digna diante de um país que ainda trata a exclusão como destino.
Padre Júlio falou da população em situação de rua, mas poderia estar falando de qualquer grupo vulnerabilizado social e economicamente: povos indígenas, comunidades quilombolas, juventudes periféricas, pessoas LGBTQIA+. “Eles não podem viver só de pesadelos, eles têm que viver de sonhos também”, disse, lembrando que a desigualdade continua sendo afronta diária aos direitos humanos.
A retomada das conferências, interrompidas desde 2016, marca um gesto político importante: recolocar a participação popular como pilar da democracia. Essa movimentação acontece ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal decidiu pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e parte do alto comando militar pelos atos que atentaram contra o Estado democrático de direito. Uma resposta histórica a quem tentou romper a ordem institucional.
Mas o cenário também expõe contradições. No mesmo momento, a Câmara dos Deputados aprovou em primeiro turno a chamada PEC da Blindagem, que restringe investigações contra parlamentares e cria barreiras à responsabilização de autoridades. Se de um lado há passos firmes em direção à memória e à justiça, de outro ainda há a tentativa de consolidar privilégios que dificultam o combate a crimes de poder.
É nesse atravessamento que a fala de padre Júlio encontra sentido. Estar ao lado dos mais pobres, insiste ele, é assumir que os ataques virão. Não porque há algo de errado na defesa dos vulneráveis, mas porque o sistema se organiza para proteger quem está no topo e silenciar quem insiste em revelar as feridas abertas na base. “Nossa luta não é para vencer, é para ser fiel até o fim”, concluiu.
Entre denúncias e propostas, a Conferência Regional de Direitos Humanos terminou como começou: reafirmando que democracia não se sustenta apenas em tribunais ou no Parlamento. Democracia se sustenta, sobretudo, no chão onde os rejeitados resistem e os perseguidos continuam a sonhar.