Você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo.
E você tem que fazer isso o tempo todo.
Ângela Davis
Há cerca de um mês encontrei um amigo ― artista potiguar ― em um evento sobre literatura. Enquanto tomávamos café, ele mencionou do espanto que os mulherios das letras regionais, já amplamente conhecidos no meio literário local, lhe causavam. Por um lado, ficava feliz pelo avanço dos trabalhos em prol da valorização das escritoras potiguares, por outro, sentia-se “acuado” pela forma aguerrida com que esses coletivos se posicionavam. “Homens não podem falar nesses espaços…”, “homens não são convidados a se apresentarem…”, eram suas queixas.
Lembrei a ele ― pois é uma pessoa com quem se pode dialogar ― o motivo da existência do nosso movimento: o desprezo com que fomos tratadas por séculos; a indiferença acerca do que produzimos e o modo como ainda hoje somos subestimadas em nossa capacidade de produzir textos de qualidade. De igual forma, justifiquei que a sociedade ainda estranha reuniões como as nossas (em que as mulheres têm a primazia da palavra) pela falta de costume de permitir o protagonismo feminino.
“Enquanto houver essa cultura de subalternidade em relação à mulher, precisamos deixar claras as regras antes de cada encontro”. Acho que ele entendeu. Mas parecia triste sob o sorriso concordante (em parte porque apesar de ser um talentoso artista da terra, não tem o merecido reconhecimento). Como já disse Câmara Cascudo: “Natal não consagra, nem desconsagra ninguém”.
Mas essa introdução pretende apenas deixar clara nossa posição e nossa firme decisão de continuar a fortalecer a participação delas no cenário literário potiguar (e os homens que lutem pelos deles). Para isso, pretendo, a partir de agora, enaltecer um grande feito do Mulherio das Letras Zila Mamede: Há cinco anos, o coletivo, estabelecido na capital, criou um clube exclusivamente voltado à leitura de escritoras, em especial as do RN. De lá para cá, aconteceram verdadeiras festas literárias onde se celebrou o talento, a criatividade, a singularidade, a diversidade e a visão de mundo de mulheres ― leitoras e escritoras do nosso estado.
Carla Alves não gosta que a tratem como coordenadora, apesar de ter tido a ideia de criar o clube e de ser a pessoa que inicia, articula e conduz praticamente todas as atividades realizadas. Há uma razão justificada para o sentimento da professora, produtora (e agitadora) cultural natalense: ela defende relações horizontalizadas entre as integrantes. Aliás, esse é um princípio caro ao Mulherio nacional, portanto, difundido e defendido desde o seu início.
A horizontalidade se manifesta na forma colaborativa de criação, divulgação e debate literário do clube. As integrantes se conectam através de um grupo de whatsapp e se reúnem presencialmente uma vez por mês no Mahalila Café e Livros para realizarem reuniões após a leitura de uma obra. O diálogo é o principal instrumento desse fazer coletivo.
A valorização das experiências pessoais e da escuta mútua permite que mulheres de diferentes origens, idades e trajetórias encontrem espaço para se reconhecerem e se fortalecerem na literatura. Essa forma de organização não é apenas um modus operandi, mas uma prática política coerente com o ideal de igualdade e emancipação que orienta o movimento.
As reuniões descritas me remeteram às festas das comunidades tribais primitivas (muito antes das mulheres serem vistas como bruxas) que honravam as forças da terra e elegiam guardiãs de saberes. Não é à toa que parte do simbolismo dessas festas é resgatado nos movimentos feministas. Eles têm íntima relação, pois trabalham com temas profundamente ligados ao feminino.
Abaixo os nomes dos livros lidos ao longo dos cinco anos do grupo, bem como de suas autoras. Esperamos que o Clube de Leitura Mulheres lendo Mulheres chegue a um futuro em que elas terão seu espaço amplamente garantido e em que se naturalize a proeminência e a intelectualidade das que escrevem.
Como diria Nivaldete Ferreira pela boca de sua personagem Bárbara Cabarrús: Maldigo essas solidões cravejadas de estrelas e riscadas de caminhos que esbarram sempre numa cerca… Sou a medonha, como dizem, mas não cedo nada do meu espírito a ninguém…
2020
JANEIRO: O ARADO, Zila Mamede.
FEVEREIRO: O CONTO DA AIA, Margaret Atwood.
MARÇO: OLHOS D’ÁGUA, Conceição Evaristo.
ABRIL: NÍSIA FLORESTA PRESENTE, Constância Lima Duarte.
MAIO: O VOO DA GUARÁ VERMELHA, Maria Valéria Rezende.
JUNHO: O DIÁRIO DE ANNE FRANK, Anne Frank.
JULHO: EU SEI POR QUE O PÁSSARO CANTA NA GAIOLA, Maya Angelou.
AGOSTO: METADE CARA, METADE MÁSCARA, Eliane Potiguara.
SETEMBRO: MARIA QUEIROZ BAÍA, Lúcia Eneida Ferreira Moreira.
OUTUBRO: MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS, Clarissa Pinkola Estés.
NOVEMBRO: QUARTO DE DESPEJO, Carolina Maria de Jesus.
DEZEMBRO: PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM, Clarice Lispector.
2020/2021
JANEIRO: OPÚSCULO HUMANITÁRIO, Nísia Floresta e AMORA, Natália Borges Polesso.
FEVEREIRO: A ORIGEM DO MUNDO: uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado, Liv Strömquist e JORRO, Marize Castro.
MARÇO: CICUTA E CILÍCIO, Jeanne Araújo e EMPODERAMENTO, Joice Berth.
ABRIL: CONTRAPONTOS DA LITERATURA INDÍGENA CONTEMPORÂNEA NO BRASIL, Graça Graúna e CANINANA, Eveline Sin.
MAIO: CARTA À RAINHA LOUCA, Maria Valéria Rezende e HAICAIS IMPERFEITOS, Anchella Monte.
JUNHO: FRANCISCA, Ana Cláudia Trigueiro e VERMELHO FOGO, Regina Azevedo.
JULHO: TUDO NELA BRILHA E QUEIMA / NÃO ME DESCULPO POR ME DERRAMAR, Ryane Leão e INTERSECCIONALIDADE, Carla Akotirene.
AGOSTO: EU SOU MALALA – A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã, Christina Lamb e Malala Yousafzai e PERSÉPOLIS, Marjane Satrapi.
SETEMBRO: OS TESTAMENTOS, Margaret Atwood e TOCAIA DO NORTE, Sandra Godinho.
OUTUBRO: O CALIBÃ E A BRUXA, Silvia Federici e CIRANDA DAS MULHERES SÁBIAS, Clarissa Pinkola Estés.
NOVEMBRO: ÁGUA DE BARRELA, Eliana Alves Cruz e TERRA NEGRA, Cristiane Sobral.
DEZEMBRO: O BAÚ DE FILOMENA, Tereza Custódio e MEL E DENDÊ, Fátima Farias.
2023
JANEIRO: CIRANDA DE LIVROS, várias autoras (poemas).
FEVEREIRO: VILA DE AFETOS – Marcas do cuidado, Meine Siomara Alcântara.
MARÇO: NO HORIZONTE TEM CHUVA FIANDO, Bia Crispim.
ABRIL: FIOS DO TEMPO (quase haicais), Graça Graúna.
MAIO: POEMAS DE QUEM CRIOU RAIZ, Araceli Sobreira.
JUNHO: FRUTAR, Rizolete Fernandes.
JULHO: LIÇÕES DE OTIMISMO E OUTRAS CRÔNICAS, Andreia Braz.
AGOSTO: FLOR DE QUEROSENE, Carmen Vasconcelos.
SETEMBRO: POESIAS DE UMA POTIGUARA, Meyriane Costa.
OUTUBRO: NA CASA DOS AFETOS, Jeanne Araújo.
NOVEMBRO: SUBVERSOS DE UM MUNDO POÉTICO, Bárbara Maria.
DEZEMBRO: SANGRA-SE, Diulinda Garcia.
2024
JANEIRO: LANÇA CHAMAS, Regina Azevedo.
FEVEREIRO: DE REPENTE A VIDA ACABA, Clotilde Tavares.
MARÇO: DIÁRIOS 1973-1974, escritos por MÉRCIA ALBUQUERQUE.
ABRIL: ENTRE A PALAVRA E O IMPULSO, Renata Marques.
MAIO: STELA E OUTROS POEMAS DE AMOR, Marina Rabelo.
JUNHO: QUASE CONTO, Josimey Costa.
JULHO: VIZINHAS, Itamara Almeida.
AGOSTO: CERCAS DE PEDRAS, Jeanne Araújo.
SETEMBRO: VERTIGO, Adélia Danielli.
OUTUBRO: MEIA PORÇÃO DE SOL, Iara Maria Carvalho.
NOVEMBRO: MEMÓRIAS DE BÁRBARA CABARRÚS, Nivaldete Ferreira.
DEZEMBRO: AS FAXINEIRAS SABEM DE TUDO, Ana de Santana
2025
JANEIRO: VOO LIVRE, Patrícia Diniz.
FEVEREIRO: NOTÍCIAS DA EXISTÊNCIA DO MUNDO, Clotilde Tavares.
MARÇO: MAROCEANO, Marize Castro.
ABRIL: VIÚVA VENENO, Milena Azevedo e Germana Viana.
MAIO: A ANCESTRAL – Dona Lourinha e Suas Histórias, Josimey Costa.
JUNHO: ALGUIDAR DE MEMÓRIAS – Pinceladas, Maria Rizolete Fernandes.
JULHO: REVELIA, Idyane França.
AGOSTO: DE TAMBABA À PRISÃO, Amanda Karoline.
SETEMBRO: A MULHER DO BEIJA FLOR, Araceli Sobreira Benevides.
OUTUBRO: BRUMA, a última estrela, Ana Cláudia Trigueiro.
NOVEMBRO: PAISAGENS IMPRÓPRIAS, Ilane Ferreira Cavalcante.
DEZEMBRO: ARLINDO, IlustraLu.