Depois de séculos olhando para o céu, o sertão potiguar vê a água chegar pelo chão
Por décadas, a esperança do sertanejo chegava com as primeiras nuvens carregadas no horizonte. Agora, ela veio por outro caminho: correu pelos canais do Ramal do Apodi e cruzou a divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. Pela primeira vez, as águas da transposição do Rio São Francisco entraram oficialmente em território potiguar, transformando uma obra de engenharia em um acontecimento histórico para uma região que aprendeu a conviver com a seca.
A chegada das águas foi acompanhada nesta sexta-feira (3) pela governadora Fátima Bezerra em Major Sales, no Alto Oeste, apenas um dia após a inauguração do Túnel Major Sales pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se a cerimônia da quinta-feira marcou a entrega de uma das principais estruturas do Ramal do Apodi, a sexta-feira simbolizou aquilo que a população aguardava havia gerações: ver a água correr.
Ao som da sanfona e apresentação do grupo Os Caboclos de Major Sales, os moradores acompanharam a passagem das águas pelo canal. Muitos cresceram vendo açudes secarem, convivendo com o abastecimento irregular e dependendo de carros-pipa para garantir o consumo humano. A cena despertou emoção entre famílias que enxergam na transposição a possibilidade de um futuro diferente para o sertão.
“Isso aqui representa desenvolvimento para o nosso povo. Mas eu enfatizaria que é, sobretudo, uma reparação do ponto de vista histórico pelo que significa o projeto da transposição das águas do São Francisco para o semiárido nordestino. É uma passagem. As águas saem da Paraíba, depois de terem passado por Pernambuco e pelo Ceará, e agora adentram o Rio Grande do Norte, deixando para trás um passado de escassez, da seca braba, e trazendo para o sertão esperança e dignidade. Dignidade porque água é vida. É água para beber e para promover o desenvolvimento.”
Emocionada, a governadora relacionou a chegada da água à própria experiência de quem cresceu convivendo com a seca.
“Para uma geração de nordestinos como eu, que conheceu a seca de perto, ver hoje as águas do São Francisco adentrando o nosso estado é uma felicidade imensa. Renova a nossa esperança de seguir construindo um Rio Grande do Norte e um Nordeste cada vez mais fortes, sustentáveis, inclusivos, prósperos e justos.”
Fátima destacou que a chegada das águas completa um ciclo iniciado com outro eixo da transposição e passa a integrar todas as regiões do estado ao sistema de segurança hídrica.
“Este é um momento emblemático porque estamos falando do Eixo Norte, do projeto de integração das águas do São Francisco. A primeira etapa contemplou a bacia do Piranhas-Açu. Agora, com a integração da bacia Apodi-Mossoró, o Rio Grande do Norte passa a ser contemplado como um todo. Todas as regiões e todos os municípios do estado passam a fazer parte desse grande projeto de segurança hídrica.”
A governadora também relembrou sua atuação política desde o início da transposição e atribuiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a decisão de transformar um projeto histórico em realidade.
“Acompanhei essa luta desde o início, quando era deputada federal, em 2007. O presidente Lula teve coragem política e sensibilidade humana para enfrentar um desafio enorme e tirar esse projeto do papel. A presidenta Dilma deu continuidade à obra mesmo enfrentando todas as dificuldades do segundo mandato, garantindo os recursos necessários para que ela não fosse abandonada.”
Ela recordou ainda o período em que presidiu a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado, destacando a mobilização para garantir a retomada das obras após paralisações.
“Em 2015 e 2016, quando presidi a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado, a segurança hídrica do Nordeste foi a principal pauta. Mobilizamos o Parlamento, movimentos sociais, setores produtivos e a sociedade para defender a retomada das obras, que chegaram a ser paralisadas por decisão judicial.”
Para Fátima, a conclusão da transposição só foi possível com a retomada do projeto pelo terceiro governo Lula.
“Os governos Lula e Dilma deixaram a obra praticamente concluída. Depois vieram outros governos, e todos acompanharam o que aconteceu. Quando Lula voltou à Presidência, eu dizia a ele que o destino e a vontade do povo fizeram com que retornasse também para concluir essa obra. A transposição foi incluída entre as prioridades do novo PAC e hoje aquilo que parecia um sonho impossível tornou-se realidade: as águas do Velho Chico beneficiando o semiárido do Rio Grande do Norte.”

A água chega antes da conclusão da obra
Embora o Ramal do Apodi ainda tenha etapas a serem concluídas para operar plenamente, a entrada da água no território potiguar representa um dos momentos mais emblemáticos de toda a execução da transposição. É quando uma infraestrutura construída ao longo de anos deixa de ser apenas concreto, canais e túneis para cumprir sua finalidade.
Quando estiver totalmente concluído, o ramal deverá beneficiar aproximadamente 750 mil pessoas em 54 municípios do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, ampliando a segurança hídrica para abastecimento humano e atividades produtivas.
Especialistas apontam que a chegada das águas tende a reduzir a vulnerabilidade dos municípios às estiagens prolongadas, fortalecer a agricultura familiar, ampliar a oferta de água para consumo e criar condições para novos investimentos econômicos na região.
Uma espera que atravessou gerações
A história da transposição do São Francisco atravessou governos, mudanças de projeto, paralisações e disputas políticas. No sertão, porém, ela sempre foi medida de outra forma: pelo tempo da espera.
Para quem vive no semiárido, a chegada da água carrega um significado que vai além da infraestrutura. Ela representa a possibilidade de romper um ciclo histórico de escassez que marcou a vida de sucessivas gerações de nordestinos.
Ainda serão necessários novos trechos, testes e etapas operacionais até que toda a estrutura esteja em funcionamento. Mas, para os moradores que acompanharam a água cruzar a fronteira do Rio Grande do Norte nesta sexta-feira, a história já começou a mudar.
Depois de séculos esperando pela chuva, o sertão viu a esperança chegar correndo pelos canais.