Guia politicamente correto e decolonial para torcer na Copa
Natal, RN 8 de jul 2026

Guia politicamente correto e decolonial para torcer na Copa

8 de julho de 2026
4min
Guia politicamente correto e decolonial para torcer na Copa

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Copa do Mundo rolando com 48 seleções e aquela junção de países e povos numa confraternização de culturas e histórias onde torcer é uma festa, certo? Não exatamente. A mistura entre futebol e política é natural e necessária, mas nuances e excessos tornam as coisas um pouco mais complexas.

Acontece que a princípio o natural, digamos, seria torcer pelo país onde nascemos, crescemos e aprendemos a amar, e em segundo momento, seleções outras que nos inspirem simpatia, seja permanente ou de ocasião. Acontece que aplicar militância sócio-política com uma pitada de ideologia e história no ato de torcer pode tornar o cenário complexo e, por vezes, disfuncional.

Observemos a partida da última segunda-feira, pelas oitavas de final, entre Bélgica x EUA. Nas redes sociais muita gente defendendo torcer pela dominação dos anfitriões ianques, seja pelo inevitável histórico imperialista, seja pelo papelão do presidente Trump de se intrometer nas regras do torneio e pedir (sendo atendido, inclusive) a não suspensão do atacante Balogun, que não deveria jogar contra os belgas por ter levado cartão vermelho na rodada anterior.

Acontece que também muita gente lembrou que a Bélgica, sob o reinado de Leopoldo, matou e mutilou milhões no Congo. Portanto, não deveríamos dar apoio aos belgas colonialistas.

Questionei argumentando que não foram De Bruyne, Cortois ou Tielemans quem torturaram os congoleses. Inclusive o maior artilheiro e craque belga, Lulaku, é filho de congoleses. Então é para torcer contra ele?

Aí vem a defendida irmandade latina, onde devemos torcer pelos irmãos sul-americanos. Até chegar na Argentina, claro. Porque são racistas, é o argumento. Então em um Argentina contra Portugal ou Holanda, dois países que colonizaram o Brasil e mataram milhões de nativos originários (indígenas) é pra torcer por quem?

É normal que nossa torcida coletivamente seja pelo lado mais fraco. Mas a torcida romântica com base em estereótipos é algo a se questionar. Dia desses num barzinho assistindo a mesma Bélgica contra Senegal, duas mulheres na mesa torciam ardentemente pelos africanos “pois seus jogadores não têm as condições dos europeus, tem que treinar no barro e quase na pobreza”. Muita calma nessa hora. O craque senegalês Sadio Mané jogou no Liverpool e Bayern Munique, sendo um milionário que hoje joga na Arábia Saudita. O goleiro Mendy já jogou no Chelsea da Inglaterra e o meiocampista Sarr mora em Londres, contratado que é do Tottenham.

Seleções europeias de países com lamentável passado colonialista hoje têm em seu elenco muitos filhos de imigrantes. O craque da Espanha, Lamine Yamal, é negro filho de sudaneses. Na Inglaterra brilham os negros Saka e Bellingham. A Suíça tem filhos de imigrantes da Albânia, Sérvia e Kosovo. Há tempos as seleções não são feitas de uma etnia apenas, refletindo caldeirões sócio-culturais em vez de se curvando a uma estereotipação.

Caso mais emblemático é o da seleção multirracial da França, com maioria absoluta de pretos, incluindo o capitão Mbappé. Ah, mas não podemos torcer pela França porque o país colonizou e extorquiu a Argélia. Não podemos esquecer os abusos e absurdos da história da Europa, mas não faz sentido mandar essa fatura para os atletas em pleno 2026. Sejamos decoloniais, mas também sensatos. Torcer contra Dembele e Olise não nos torna necessariamente pró agressões europeias, assim como vibrar com uma derrota de Messi não nos faz antirracistas. Futebol é política e história sim, mas com cinquenta tons de cinza entre o branco ou preto. Torcer para Gana e contra a Áustria e não dar bom dia para o porteiro preto do condomínio não adianta muita coisa. Politicamente correto sem reflexão e de maneira radical sem olhar os contextos é gol contra.

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