Trilhas Potiguares celebra 30 anos e realiza ações de extensão em 14 cidades
por Letícia Oliveira
Em uma cerimônia institucional ilustrada por narrativas históricas, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) celebrou, no dia 17 de julho, três décadas de existência do Programa Trilhas Potiguares. O Auditório da Reitoria serviu como palco para a celebração e, em seguida, para o Seminário de Integração que sela a preparação final das equipes de estudantes, professores e técnicos administrativos que colocarão o pé na estrada nos próximos dias.
Promovida pela Pró-Reitoria de Extensão (Proex), a solenidade foi estruturada para homenagear a trajetória do maior programa estruturante de extensão do estado, cuja premissa fundamental é romper os muros universitários e consolidar o impacto social e acadêmico direto nos municípios. Conduzido pelo mestre de cerimônias Wilderson Queiroz e sob a coordenação técnica de Dalila Belchior, o evento reuniu a alta administração da UFRN, diretores de centros acadêmicos, superintendentes, secretários, além de discentes e antigos gestores que ajudaram a pavimentar o caminho do programa.
A abertura dos trabalhos foi marcada pela apresentação do Grupo Parafolclórico da UFRN, um projeto permanente de Arte e Cultura da Proex que realiza o resgate estético das manifestações populares brasileiras há 35 anos. Sob a direção geral e artística de Petrucia Nóbrega, as coreografias assinadas por Rosie Marie e Isabel Batista, direção técnica de Lucia Nóbrega e Adriano Nascimento, e figurinos de Carlos Sérgio Borges, o grupo encenou o espetáculo Balé do Sertão. A performance fundiu a força do Carcare Xaxado ao cortejo dramático dos Brincantes do Reis do Congo, maracatus, Bumba meu Boi e galantes.
O público conheceu a evolução histórica da extensão potiguar por meio do lançamento de um episódio especial do projeto cinematográfico “Extensão da Memória”, idealizado para registrar as vozes, os cenários e as transformações sociais operadas pelo programa ao longo de sua existência.
Outro momento importante da tarde foi o descerramento da placa comemorativa dos 30 anos do Trilhas Potiguares. O monumento traz a frase escolhida pela Comissão Organizadora e de autoria da estudante Laryssa Grazielly de Lima Sousa: “Trilhas Potiguares: 30 anos levando a universidade aos territórios e trazendo os saberes do povo para dentro dela”, com o design gráfico criado pelo servidor e programador visual Rogério Melo, integrante da Assessoria Técnica da Pró-Reitoria de Extensão (Asstec/Porex).
O momento dos pronunciamentos oficiais foi marcado por discursos sobre o papel da universidade pública. O servidor Tiago Lincka discursou em representação a todos os coordenadores de equipe, enfatizando a complexidade logística e o compromisso ético de guiar os alunos em campo. A mesa de honra contou ainda com as palavras do ex-coordenador do Trilhas Potiguares, Edvaldo Vasconcelos de Carvalho Filho, do atual coordenador geral do Trilhas, Luiz Alves Morais Filho, e do Pró-Reitor de Extensão, Graco Aurélio Câmara de Melo Viana. O prof. Dr. Luiz Alves, ressalta que, ao longo desses 30 anos, a extensão universitária, através do Programa Trilhas Potiguares, tem contribuído para o fortalecimento do processo de inclusão e o favorecimento do desenvolvimento social e humano, em áreas estratégicas do conhecimento como ciência, tecnologia, saúde, educação, meio ambiente, trabalho e renda, direito e justiça social.
O Reitor da UFRN, José Daniel Diniz Melo, em discurso, ressaltou a trajetória do programa na história da UFRN e reconheceu a sua importância na instituição: “Criado em 1996 pela Pró-Reitoria de Extensão, o Trilhas Potiguares nasceu de uma convicção simples e, ao mesmo tempo, muito exigente: a de que uma universidade pública só cumpre plenamente sua missão quando está presente onde ela é mais necessária. Não bastava formar profissionais competentes dentro de nossos campi. Era preciso levar o conhecimento construído aqui para dialogar com os saberes que já existiam lá”.
Para materializar o reconhecimento institucional, a reitoria realizou a entrega de placas honoríficas a doze coordenadores gerais que conduziram o programa ao longo das últimas três décadas, firmando suas contribuições para o desenvolvimento regional: João Telésforo Nóbrega de Medeiros (Coordenador pioneiro); Arnon Alberto Mascarenhas de Andrade (in memoriam), representado por sua viúva, Iracy Garcia Mascarenhas de Andrade; Marjorie da Fonseca e Silva Medeiros; Rita de Cássia da Conceição Gomes; Orgival Bezerra da Nóbrega Júnior; Maria da Conceição Fraga; Eriama de Araújo Hackradt; Breno Guilherme de Araújo Tinôco Cabral; Edvaldo Vasconcelos de Carvalho Filho; Ricardo Diego Rimenez Gurgel da Fonseca; representado por seu pai, Francisco Canindé da Fonseca; Luiz Alves Morais Filho; e Itamar de Morais Nobre.
Durante os pronunciamentos, os reitores e coordenadores do programa enfatizaram a real dimensão e a filosofia que sustentam as ações de campo. Foi ressaltado que o verdadeiro propósito da iniciativa reside no seu caráter multiplicador, atuando como um agente semeador de saberes, gerando e compartilhando metodologias práticas nas comunidades para que os próprios cidadãos e gestores locais se apropriem desse conhecimento, transformando-os em ampliadores internos capazes de dar continuidade ao desenvolvimento social de forma autônoma e sustentável.
Próxima intervenção
A primeira fase desta edição comemorativa em território norte-riograndense ocorreu entre os dias 13 e 18 de julho, quando as primeiras caravanas de extensionistas se deslocaram com destino aos municípios de Alexandria, Frutuoso Gomes, Serra Negra do Norte e Viçosa. Essa etapa inicial serviu para consolidar o compromisso técnico e social do programa com as regiões visitadas, se preparando para o segundo grupo de municípios que receberá as ações na próxima semana.
Com o encerramento do Seminário de Integração, a UFRN mobilizou a sua infraestrutura para continuidade prática da segunda fase da edição de 2026. Entre os dias 19 e 25 de julho, um grupo com cerca de 350 estudantes, professores e servidores deixou a capital potiguar para desenvolver cerca de 630 atividades diversas.
Durante mais sete dias de imersão total, os viajantes estão em atuação nos municípios de Arez, Cruzeta, Galinhos, Itajá, Lagoa de Velhos, Lajes, Martins, Pedro Avelino e Ruy Barbosa. Nessas localidades, estudantes e professores aplicam diagnósticos previamente construídos, desenvolvendo oficinas de capacitação técnica, minicursos, intervenções em saúde pública, assessoria jurídica comunitária e dinâmicas artísticas. O objetivo é responder de forma qualificada às principais vulnerabilidades sociais apontadas pelas administrações municipais parceiras.
O legado social e os saberes deixados nos municípios
Classificado como um dos pilares estruturantes da Proex, o Programa Trilhas Potiguares consolidou-se como uma das políticas de extensão mais longevas e respeitadas do cenário educacional da UFRN. A sua real magnitude reside no estabelecimento de um sistema de “via de mão dupla”, o qual se pratica a troca de saberes de forma dinâmica.
Durante os pronunciamentos, a reitoria da universidade e os coordenadores do programa enfatizaram a real dimensão que sustenta as ações de campo. Foi ressaltado que o Trilhas Potiguares não possui a pretensão nem o papel institucional de solucionar de forma imediata todas as demandas estruturais ou os problemas crônicos de uma comunidade. Na realidade, o projeto busca transferir metodologias e práticas para as comunidades locais. A meta é transformar cidadãos e lideranças em multiplicadores do próprio desenvolvimento.
Três décadas de expansão
O programa teve sua primeira edição em 1996, baseado em um projeto de extensão do Centro Acadêmico de Geografia da UFRN, batizado de Pé-na-Trilha. A iniciativa consistia em realizar longas incursões de campo e caminhadas pelo território norte-riograndense, permitindo que os estudantes fizessem uma leitura geográfica e humana detalhada da realidade estadual.
Em 1997, o projeto virou um programa oficial da UFRN sob o comando do professor João Telésforo Nóbrega de Medeiros. Desde então, o programa tem como base a ideia de ampliar o envolvimento direto da UFRN na busca por soluções concretas para os problemas estruturais das localidades visitadas. Ao avaliar o patamar alcançado pela ação hoje, o professor Telésforo relata que “se sente como um pai vendo o filho crescer”, e deseja que “os jovens continuem acendendo essa chama”, criando um ambiente onde todos cooperam para fazer o bem para a comunidade.
Ao longo das décadas seguintes, o sucesso do programa impulsionou um forte processo de nacionalização e internacionalização. A inserção global teve seu marco inicial em 2017, quando o Trilhas Potiguares realizou uma inédita missão acadêmica em Moçambique. A cooperação internacional provou sua eficiência e voltou a ser realizada no país africano em 2025. Alinhado a isso, desde 2024, o Programa passou a internalizar e acolher estudantes estrangeiros no Rio Grande do Norte.
A internacionalização do Programa também ganhou força nesta edição através da construção de parcerias com universidades estrangeiras, reunindo docentes da Universidade de Múrcia (UM), na Espanha, e da Universidade Save (Unisave), em Moçambique. Para a professora Crisalita Djeco Funes, da Unisave, essa união de forças terá um impacto significativo para a comunidade moçambicana. Ela ressaltou que o Trilhas Potiguares deixa claro que tudo aquilo que se recebe enquanto estudante universitário pode ser transmitido para as comunidades que não conseguem chegar à universidade, alimentando nelas a esperança de também alcançar o ensino superior. A professora Crisalita lembrou ainda que “há muito conhecimento local que acaba se perdendo, mas que a união entre a pesquisa, a extensão e o ensino se torna um braço forte de formação para os jovens, funcionando como uma verdadeira e rica troca de saberes”.
No âmbito nacional, os esforços de expansão e intercâmbio ganharam tração em 2023, quando o Trilhas Potiguares firmou parceria com o projeto UFPE no Meu Quintal (UFPENMQ), desenvolvido pela Universidade Federal de Pernambuco. A primeira missão conjunta ocorreu na cidade de Sertânia, no sertão pernambucano. Devido ao sucesso da operação, a parceria foi renovada em 2024 no município de Belém do São Francisco (PE).
Essa mesma energia de expansão marcou a edição do Trilhas realizada no Pará este ano, uma operação que levou as ações de transformação e o intercâmbio cultural para a Região Norte do país. As ações do programa percorreu realidades diversas do território paraense, atuando tanto em áreas urbanas quanto em comunidades ribeirinhas e rurais nas localidades de Aurora, Outeiro, São Sebastião da Boa Vista, Combu, Tomé-Açu, Curuçá e a capital Belém. Em cada um desses destinos, as equipes da UFRN adaptaram suas oficinas e projetos para dialogar diretamente com as necessidades locais, enfrentando desafios geográficos e logísticos complexos, como o deslocamento fluvial pelos rios da Amazônia.
Na opinião do prof Dr. Itamar Nobre, coordenador adjunto do Programa Trilhas Potiguares, a celebração das três décadas do Trilhas Potiguares reafirma que a extensão universitária da UFRN transcende o papel de uma mera extensão acadêmica, consolidando-se como um instrumento estratégico de transformação social e humana.