Atribui-se a Aristóteles, filósofo grego que viveu entre 384 a.C/322 a.C., a frase “a arte imita a vida”, que sintetiza a ideia da vida como fonte de inspiração para os artistas.
Muito tempo depois, o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) fez uma releitura inversa do aforismo aristotélico e afirmou que “a vida imita a arte”, para resumir a ideia de que sempre nos valemos da cultura para criar ou moldar nossos comportamentos.
Na década de 1980, o gaúcho Humberto Gessinger contextualizou a frase e cravou que “a vida imita o vídeo”, para denunciar a relação de dependência que estabelecemos entre o que vemos na telinha – da TV, do computador ou do telefone celular – e o que reproduzimos na vida real.
Retomo a frase dos finados Engenheiros do Havaí para ilustrar uma reflexão que tenho feito por esses dias em função da realidade que vivemos hoje, com muita gente querendo repetir na vida os malfeitos que assistem na tela.
Ou será que, depois do comportamento nada exemplar dos jogadores da seleção argentina, com aquele festival de agressões contra os espanhóis na partida final da Copa do Mundo, sob a complacência da FIFA não foi percebida pelo olhar atento de milhões de jovens à procura de inspiração para vencer na vida?…
Me peguei indignado com o que vi na Copa e com o que revi, nesta semana, em um vídeo gravado no Eusébio, cidade vizinha a Fortaleza, em que uma jogadora fez uma falta criminosa, achou pouco e chutou por várias vezes a cabeça da jogadora caída ao chão.
Diferente do presidente da FIFA, que fez de tudo para a Argentina ganhar a Copa e quando viu que não conseguiu seu intento, mandou uma carta aos argentinos pedindo perdão pelo insucesso, a FIFA eusebiana suspendeu a criminosa por cinco anos e o caso foi parar na Polícia.
Então me lembrei de um outro argentino que vi nas telas, o presidente Javier Milei, que deu um show de agressividade e desrespeito na convenção do governador paulista, Tarcísio Freitas, e do quase ex-pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro.
Ao melhor estilo entonjohniano do Caminito, Milei soltou a franga e rasgou o verbo contra o Brasil e as autoridades brasileiras, quando o país que ele governa está em frangalhos, devastado pelo desemprego, pela fome, pela censura e pela repressão, pelo desespero dos aposentados?…
Quem essa evita (dos patins) de costeletas pensa que é no jogo do bicho?…
Milei, a exemplo do norteamericano Donald Trump e dos militares que comandaram o Brasil e a Argentina por anos, aboliram as liberdades políticas, instituíram a censura, demitem e perseguem quem não concorda com suas sandices e seus trambiques.
Nos governos dos generais, ninguém podia sequer insinuar que o país vivia sob uma ditadura porque iria preso, apanhava, torturado, perseguido ou sumido, com os tantos filhos das mães da Praça de Maio lá e Rubens Paiva, Luiz Maranhão ou Hiran Pereira por aqui.
A estratégia dos bolsonaristas e dos políticos da direita, porém, continua sendo a de acusar o governo e o presidente Lula pelos defeitos que são deles para ganhar notoriedade nas redes e likes nos vídeos.
Esquecem eles de que mentira tem pernas cada vez mais curtas e quando elas são repetidas muitas vezes, se perdem no turbilhão das redes e viram pó… o perigo é que os estragos que elas causam, porém, são incalculáveis e, muitas vezes, irreversíveis.