Liderando com cuidado
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Liderando com cuidado

16 de maio de 2020
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Água sanitária, detergente, bucha, vassoura, rodo, pano, desinfetante de cozinha, desengordurante, desinfetante de banheiro, palha de aço, esponja, mais pano, pano de chão, pano de prato, limpa vidro, limpa alumínio, cera, aspirador (quem dera!), escova de privada. Arruma tudo, tira o pó, livro a livro, limpa, limpa. Varre, varre, varre. Levanta cama, afasta sofá, arrasta fogão e geladeira... varre, varre, varre. Guarda brinquedos, pendura cadeira, bate lençol, varre, varre, varre. Agora água, mais água sanitária e desinfetante... pano, pano, pano... mais pano seco... e agora o banheiro... e a escova de privada... encara! Que amanhã é dia de lavar roupa.

Quem não conhece essa rotina capaz de a ela ter sido apresentado agora na quarentena. Rotina de limpeza, traz seu prazer de auto cuidado e presenteia a quem co-habita com seu carinho em forma de trabalho. Sim, trabalho duro, pesado. Requer planejamento, conhecimento, alquimia e lógica. O que vem primeiro mantém toda a ordem da limpeza. Se você não conhece os produtos ou as rotinas, hum, talvez você deva agradecer a alguém que faz isso para você sempre. Ou alguéns, muito provavelmente. Agora seja honest@ consigo mesm@, quantas dessas pessoas que te presentearam com a limpeza dos teus ambientes são mulheres?

O planeta adoece junto e nós encaramos o desafio do cuidado, consigo e com os outros. Esse carinho começa em núcleos menores, e muitas vezes é culturalmente ensinado de geração a geração. Quando puxamos nosso fio de descendência, percebemos que também esse cuidado de transmissão cultural do manual de sobrevivência necessário para dividir esse planeta com vírus e bactérias normalmente nos é transmitido por mulheres, e mais intensamente para mulheres. E isso está na base da nossa sociedade, que hoje convalescente chora os que se vão. E se o cuidado é feminino, a luta é masculina? A caça é masculina? E a cura, é cuidado ou providência?

Setenta porcento dos profissionais de saúde são mulheres, mas quantas chegam nas lideranças de equipes multiprofissionais? E menos de dez porcento dos líderes mundiais são mulheres (opa, espera, ser um líder mundial não requer cuidar das pessoas? É cuidado, ou é caça?). Hum. Esbarramos nos poderes, e quem toma decisões. E talvez seja esse o nó que hoje esbarram nações inteiras como Brasil: quem toma as decisões sequer sabe o que é cuidar de uma casa. Assim como o presidente Trump, sequer conhece os perigos da água sanitária ingerida para saúde a ponto de recomendá-la como tratamento. Enquanto nações lideradas por cuidadoras, líderes femininas, apontam as melhores estatísticas no combate a COVID19. Por que será?

Mas como chegar aos cargos de liderança cuidando de casa, das crianças, dos idosos, e dos homens que ainda não entenderam a lógica da água com sabão? Como gerar conhecimentos novos e transmitir ao mundo suas ideias de cuidado se sua própria casa já precisa agora de mais cuidados? Daí começam as jornadas duplas, triplas, agora simultâneas e exaustivas, ainda mais cegas e sem qualquer reconhecimento. Editores de jornais científicos percebem o trabalho hercúleo das colegas mulheres que a duras penas cuidam e produzem ciência. Anedoticamente reportam mesmo número de submissões de trabalhos finalizados por elas (conclusões muitas vezes de anos e anos de pesquisas feitas no dia a dia, em laboratórios). No entanto nossos colegas homens parecem estar lidando melhor com a pandemia, será? Aumentaram taxa de submissão de artigos, alguns dizem em até cinquenta porcento. Como será que está a casa desse autor? Quem será que está cuidando dele e dos seus filhos (pois claro, filhos aqui são credenciais de seriedade).

E quanto às profissionais de saúde, como estão as suas casas? Como estão seus filhos? Enquanto cuidam do planeta, como está sua saúde, seu corpo, sua mente? Aquelas que sabem a rotina, não só de dentro do próprio lar, mas do cuidado de fora, das pequenas ações hoje tão definidoras de vida ou morte. Aquelas que estendem seu lar aos hospitais, e em seus “serviços gerais” fazem os serviços essenciais para vida.

Para concluir, peço a todos que reflitam e lembrem com todo seu carinho de todas as mulheres que com seu trabalho e imensa sabedoria cuidaram de você, da sua saúde, do seu lar. A mudança de atitude pode iniciar ao reconhecer esse carinho, aprender humildemente a fazer o próprio auto-cuidado, limpar sua própria privada enquanto lembra com gratidão todas as suas próprias privadas sujas que você nunca limpou. Honrar a sabedoria do cuidado e do zelo, com todo respeito devido, um dia pode nos fazer entender que também nossos líderes precisam conhecer a rotina dos cuidados. Quem sabe a complexidade de higienizar bem uma casa talvez esteja em melhores condições de sanitizar um hospital, uma cidade, uma nação.

A tod@s que estão nos cuidados, de seu lar, do lar dos outros, do lar planeta Terra, minha mais profunda gratidão! A tod@s que limpam banheiros de hospitais, correm ao resgate nas ambulâncias, arriscam a própria integridade para trocar drenos e curativos, e limpar lençóis que cobrem vidas, minha mais profunda gratidão! A tod@s que na linha de frente de hospitais e centros de pesquisa lideram suas equipes com sabedoria de uma mãe, e entendem o peso da responsabilidade de cuidar de um planeta inteiro, minha mais profunda gratidão! E minhas queridas colegas, nunca esqueçam o verso que diz: “Eu sou o meu próprio lar”.

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