Facas e Trompetes
Natal, RN 1 de mar 2024

Facas e Trompetes

4 de março de 2023
5min
Facas e Trompetes

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Geralmente escrevo essa crônica nas sexta-feiras para ser publicada aos sábado, às vezes aos domingos. Essa é a primeira vez que a escrevo em uma segunda à noite, mas não posso mais adiá-la. Pensei muito se deveria escrevê-la ou não. Pensei em “gestá-la” e esconder naquele quarto de coisas que nunca vou olhar. Pensei em gerá-la na sexta de carnaval, mas o Brasil estava em festa, como você tanto gostava de estar naquela data. Preferi “deixar para depois”, de novo, na fé de que esse depois não aparecesse.

Escrevo essa crônica de sábado matinal, na segunda noturna. Culpa de sua nora, que insiste em me fazer assistir a filmes de dramas. Semana passada me pegou de surpresa e colocou "Aftersun" de Charlotte Wells, estava no sofá apreensivo pelo enredo de drama paterno, eu sabia que iria me tocar. Feito, me tocou e choramos juntos, abraçados, eu e ela. Ela, talvez por me ver tão emocionado, e eu por você.

Escrevo essa crônica de sábado matinal em uma segunda noturna porque acabamos de chegar do cinema, fomos assistir “A Baleia” de Aronofsky. Escrevo a essa hora, porque jurei a mim que quando fosse escrever para você novamente, seria carregado da emoção que você merece. Lá pela metade do filme foi impossível não lembrar de você, quis sair correndo da sala de cinema e o fiz no final. Saí, deixei celular, pipoca e um pedaço do meu coração na sala. Talvez por isso, prefira os filmes de terror ou policiais dos anos 90, eles não me doem como quando me lembro de você.

Lembrei de você no carnaval, talvez tenha chorado quando meu cérebro e veias estavam entorpecidos de álcool e Deus sabe o quê mais. Certamente chorei. Sua nora pega nas minhas mãos e diz “ei, eu to aqui”. Eu agradeço ao universo por ela estar aqui. Eu praguejo o universo por você não está. Lembrei de você toda vez que tocou "Eva", ou alguma música de Timbalada, ou aquela versão de “Tieta” que você tanto gostava. Sim, certamente chorei.

Escrevo essa crônica para você, porque eu já adiei demais. Na realidade, tenho medo de escrevê-la, também pelo fato de seu ajudante ter me dito no dia que te vi pela última vez que você as lia, com orgulho e com brilho nos olhos. Nós dois sabemos que quando eu soube disso, algo se acoplou ao meu jeito de ser e de escrever. Certamente chorei.

Como na semana passada, cheguei a uma conclusão que envolvia você no meu divã semanal: de como só queria ter tido a chance de dizer “Ei, obrigado. Está tudo bem, eu te amo”. Mas daqui, desse texto que queria não precisar escrever, eu te digo agora: “Ei, tá tudo bem, obrigado, eu te amo”.

Você precisava ter visto como foi a vitória imensamente emocionante de Luís Inácio, lembro de sua euforia quando chegava os momentos eletivos e de sua complexidade lulista/ aluisista. Você precisava ter visto que, por enquanto, vencemos a pandemia também, essa mesma que não teve o cuidado com você e a mesma que não me deu o tempo de cuidar de você. Mas aqui tá tudo bem.

Sabe que eu não sonho com você? No meu mundo onírico, na minha cosmologia individual, você sempre aparece como um rastro ectoplasmático, que eu sei que passou, mas nunca vejo sua imagem. Sinto falta de sua imagem, de sua voz rouca e seu cesto de enrijecer as costas. Sabe uma coisa que eu consegui guardar no meu âmago? O seu cheiro, de cigarro, suor e malandragem.

Escrevo essa crônica de sábado matinal em uma segunda noturna, por que já não sei se as lembranças e imagens que tenho na minha cabeça são reais ou são apenas lapsos de um mundo que eu acho confortável ter vivido, e se for isso, tudo bem. Como nos 7 de setembro. Você, seu trompete venenoso e sua fanfarra, desfilando elegantes, belos e potentes. Ou como nos parques das festinhas de Santa Luzia. Ou de como você se emocionava dolorosamente com o sofrimento alheio. Ou como suas facas eram sempre extremamente amoladas. Lembro. Certamente, chorei.

Te escrevo uma crônica de sábado matinal em uma segunda noturna, porque é a forma que tenho de te abraçar e de tatuar com essas palavras, para que eu releia esse texto por quantas vezes eu quiser, e que sempre lembre o tamanho que você foi para mim e que maior que isso só a ausência que jamais imaginei que tanto sentiria. Escrevo essa crônica de sábado matinal em uma segunda noturna, por que eu te amo. Um abraço bem apertado, maestro. Nos vemos na cauda de algum cometa qualquer.

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