“Ah, bem melhor seria poder viver em paz”
Natal, RN 21 de jun 2024

“Ah, bem melhor seria poder viver em paz”

1 de junho de 2024
4min
“Ah, bem melhor seria poder viver em paz”

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Esses dias eu estava ouvindo uma playlist aleatória enquanto preparava meu almoço e me deparei com essa canção, “Tempo de amor”, composta por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Se você não a conhece, escute, ela é uma delícia... além de ser uma grande provocação pros corações feridos que juram JAMAIS!!! se apaixonarem novamente.

Ela começa assim... “Ah, bem melhor seria poder viver em paz/ Sem ter que sofrer/ Sem ter que chorar/ Sem ter que querer/ Sem ter que se dar” E como eu estou numa fase meio incrédula quanto às relações amorosas, me senti tocada pela letra da canção.

E como esse trecho se repete, eu, muito ingênua, desconhecedora do restante da letra, mexia as panelas, ria e repetia a letra (facinha de aprender) meio que triunfante... É isso mesmo, melhor é viver em paz, sozinha, aqui, assim, tomando um vinho, com pouca roupa, ouvindo o que eu quero, sem satisfação pra dar a ninguém, preparando minha comidinha, arrodeada de meus filhos e filhas caninos e felinos...

Mas, vai que a música resolve dar um revestrés (amo essa palavra!) e me sapeca um “Mas tem que sofrer/ Mas tem que chorar/ Mas tem que querer/ Pra poder amar”. Na hora balancei a cabeça em uma negativa condenatória HAHAHAHAHA ... Tava tão boa a letra! E em vez de cantar, me peguei arengando com a música: Mas que historiazinha sem graça essa, e mais com esse “tem que”... “tem que” uma ova...

E como se estivesse argumentando comigo a música desembestou a reforçar essa ideia de que pra gente amar, a dor vem junto, a falta de paz também. (Ô, vantagem grande! – pensei) Pensava enquanto ouvia: “Ah, não existe coisa mais triste que ter paz/ E se arrepender/ E se conformar/ E se proteger/ De um amor a mais/ O tempo de amor/ É tempo de dor/ O tempo de paz/ Não faz nem desfaz”

Aí eu me transportei para outras épocas de minha vida nas quais o tempo que estava a reinar era esse: Tempo de amor, como é intitulada a letra dessa canção. E não é que me peguei com saudades. Olhando para a mesa posta com um único prato, o meu, desejei uma companhia para aquele momento. Lembrei de como eu amo cozinhar para outras pessoas. Me dei conta que estava tomando um vinho em uma taça elegante, mas não haveria com quem brindar. E pensei que tempos de solidão também são tempos de dor, são tempos de falta de paz em algumas circunstâncias.

A música havia acabado enquanto devaneava... resolvi ouvi-la novamente. Só a ouvir. Sem interrupções. Sem concordar ou bater boca com ela. Sem me conectar a qualquer outro pensamento fugidio ou quaisquer outras digressões possíveis. Ouvi-la como se a bebesse.

Resolvi deixar a música tocando em modo “repeat”... aprontei a mesa, me servi do alimento que havia preparado, me servi de mais vinho... almocei cantarolando a canção entre uma garfada e outra – sou o tipo de pessoa que canta e dança enquanto come, sobretudo se a comida estiver apetitosa (e a minha estava de lamber os beiços e comer os dedos ao final.)

Terminei o almoço com uma certeza: Que se dane essa história de solitude, de solidão, de amufinamento dentro de casa, de medo de sofrer por amor, de medo de não querer amar novamente... QUE SE DANE! Afinal, a música de Powell e Vinícius me deram foi uma lição naquele dia. Quer saber qual?! “Ah, que não seja meu/ O mundo onde o amor morreu” E não é que o argumento da música me venceu!

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