Torneio de Física para Meninas busca ampliar diversidade na ciência
Natal, RN 18 de jul 2024

Torneio de Física para Meninas busca ampliar diversidade na ciência

23 de junho de 2024
9min
Torneio de Física para Meninas busca ampliar diversidade na ciência
Iniciativa é promovida pelo Instituto Internacional de Física da UFRN, em parceria com outras instituições de ensino. Foto: Jana Sá

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Tornar a ciência mais inclusiva e diversificada em um cenário onde grandes talentos muitas vezes não recebem apoio para desenvolver suas habilidades. Foi com esse objetivo que o Instituto Internacional de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IIF/UFRN), em parceria com outras instituições de ensino, criou o Torneio de Física para Meninas (TFM). A primeira edição ocorreu no ano passado, e contou com mais de 1700 participantes. As inscrições para a nova edição, de 2024, estão abertas – a primeira fase é online e será em 28 de agosto; a segunda fase, presencial, acontece em 02 de outubro.

O professor Klaus Capelle, responsável por desenvolver atividades educacionais do IIF, conta que a ideia do TFM surgiu a partir de uma perspectiva de identificar estudantes com altas habilidades, em um contexto de, muitas vezes, desvalorização desses talentos:

“Que muitas vezes passam despercebidos nas escolas, nas graduações… de forma que o Brasil acaba desperdiçando muitos talentos por não reconhecer e nem dar o apoio adequado a essas pessoas de altas habilidades – que não é, necessariamente, o estudante que tira nota 10 na prova. Às vezes, é o contrário”, afirma.

O professor explica que, tanto em olimpíadas científicas nacionais, quanto nas internacionais, percebe-se uma baixa participação de meninas nessas competições que ocorrem em várias áreas do conhecimento. Esse cenário de desigualdade é agravado especialmente na física, explica Klaus, que também ressalta não ser uma questão só do Brasil, mas de vários outros países do mundo.

Buscando entender as motivações desse cenário, entendeu-se que a disparidade nas realizações acadêmicas e emocionais entre meninas e meninos na adolescência é uma das causas que contribui para essa desigualdade.

“As meninas não se sentiam tão incentivadas nessas olimpíadas, por já entenderem que é um ambiente dominado pelos meninos”, avalia o professor.

Compreendendo a necessidade de criar um ambiente de competição mais inclusivo para meninas, o Torneio de Física exclusivo para elas foi desenvolvido pelo IIF. “Não com o objetivo de segregar as meninas, mas de construir mais uma porta de entrada nos sistemas das olimpíadas, para convidar mais meninas a participarem e criar um ambiente onde elas se sintam mais acolhidas”, afirma Klaus Capelle.

Na sua primeira edição, o torneio, que atraiu quase 2 mil participantes de todas as regiões do Brasil, foi reconhecido pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como olimpíada científica nacional – esse último também irá financiar a segunda edição do TFM.

Meninas Olímpicas

O Torneio de Física para Meninas surgiu a partir do Movimento Meninas Olímpicas do Brasil, que tem como coordenadora a cientista da computação, filósofa e professora Nara Bigolin. É o que explica a professora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) e coordenadora do TFM, Maria Luiza Miguez. Ela conta que o torneio de física específico para meninas vem após o surgimento do Torneio Meninas na Matemática (TM²) e do Torneio Feminino de Computação.

“Eu acredito que é simbólico o da física ter surgido por último, para mostrar como é um ambiente bem masculino”, afirma Maria Luiza.

Ela ainda ressalta o Movimento Meninas Olímpicas enquanto um espaço que integra essas diversas competições de meninas, um “centralizador das atividades”.

“A gente percebe que alunos olímpicos são sempre os mesmos, que fazem várias coisas. Então, se você tiver uma coordenação entre as atividades, pessoas que estão pensando em várias áreas ao mesmo tempo, como é a ideia do projeto Meninas Olímpicas, acaba que você consegue alcançar um número maior de meninas e projetos paralelos.”

A professora explica que a quantidade de meninas premiadas em olimpíadas científicas é sempre muito baixa, especialmente na computação e na física.

“Recentemente, a gente estava mapeando as meninas que representaram o Brasil em competições internacionais. O Brasil participa de competições internacionais desde 2000. Nisso, já devem ter participado pelo menos umas 200 pessoas, ou mais, e só tiveram em torno de umas 10 meninas participando”, ressalta.

Diante de um cenário ainda tão masculino, Maria Luiza acredita que o apoio dos professores homens, que são maioria na física, é essencial para que mais meninas se sintam interessadas pela ciência e incentivadas a participar das competições científicas.

Novidades da edição 2024

Diante das parcerias estabelecidas para a segunda edição, o professor Fernando Wellysson, coordenador acadêmico do Torneio de Física para Meninas, destaca a oportunidade que as participantes premiadas concorram às seletivas das Olimpíadas Internacionais de Física (OIF) – uma conquista já alcançada na primeira edição, mas que agora faz parte oficial do torneio. Com a ação, é mais uma oportunidade para as meninas na física representarem o país em competições internacionais.

Outra novidade desta segunda edição é a inclusão de meninas estudantes do oitavo e nono ano do ensino fundamental, aumentando as expectativas da participação de mais meninas.

Além disso, o Torneio de Física para Meninas está sendo utilizado por instituições de ensino superior como método de ingresso, sendo mais uma opção, além dos vestibulares, de entrar na graduação. Fernando Wellysson explica que, a partir da primeira edição do torneio, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) já havia utilizado o TFM como método de ingresso e, agora, outras universidades do país já sinalizaram o mesmo interesse.

As estudantes selecionadas no torneio também terão a chance de participar de uma semana de imersão científica no IIF, uma iniciativa que faz parte da programação de eventos do instituto e que agora se firma como parte integrante do programa.

Um dos pontos positivos que o coordenador acadêmico do TFM destaca da primeira edição do torneio trata-se da grande participação de meninas do interior do país. “A gente teve muita participação de estudantes de cidades do interior, cidades que, normalmente, não têm muitas estudantes premiadas, onde a gente não vê as estudantes participando de olimpíadas científicas. Isso a gente encarou como um resultado muito positivo, porque mostra que, de certa forma, a olimpíada tem motivos de existir”, ressalta Fernando Wellysson.

A professora Maria Luiza Miguez explica que esse resultado de interiorização da primeira edição é um reflexo do formato do Torneio de Física para Meninas, uma vez que, na segunda fase da competição, presencial, a prova é aplicada nas escolas das alunas participantes. Ela também destaca a conquista.

“Isso favoreceu interiorizar a olimpíada. Então essa, provavelmente, é a principal vitória”, afirma Maria Luiza. “Era o nosso principal objetivo e eu acredito que a gente conseguiu alcançar com sucesso – interiorizar a olimpíada.”

Inscrições no Torneio de Física para Meninas

As inscrições das alunas no TFM podem ser realizadas até 16 de agosto. A aplicação da prova da 1ª fase. que é online, será em 28 de agosto. Já a segunda fase, presencial, ocorre em 02 de outubro.

Podem participar estudantes matriculadas no 8º e 9º ano do Ensino Fundamental no Nível A e estudantes matriculadas no Ensino Médio no Nível B.

Mais informações sobre as inscrições da edição 2024 do Torneio de Física para Meninas podem ser encontradas no site da competição.

Instituto Internacional de Física

O IFF é vinculado à UFRN, mas com uma atuação internacional. Fundado com duas missões principais e uma terceira mais recente, o IIF é um farol da pesquisa, educação e inclusividade no mundo da física. O Torneio de Física para Meninas é apenas uma parte de todo o conjunto de atividades educacionais do Instituto.

A primeira missão central do IIF é avançar nas fronteiras da pesquisa em física teórica e computacional. Abordando tópicos inovadores e inclusivos, esse instituto está comprometido em compartilhar suas descobertas com o mundo, indo além dos limites acadêmicos. Com pesquisadores de várias partes do Brasil e do mundo, as portas estão abertas para estudiosos que desejam contribuir para esse ambiente colaborativo.

Sua segunda missão envolve a realização de diversos eventos nas áreas de física e ciências correlatas. Esses eventos variam desde conferências internacionais em física até escolas de alto nível, proporcionando oportunidades para o compartilhamento e aprimoramento do conhecimento científico. A contribuição do IIF a esses eventos destaca a pesquisa brasileira e sua capacidade de competir globalmente.

Recentemente, o IIF apresentou sua terceira missão - a educação. Entendendo que a criação de mais cursos de graduação ou pós-graduação em física teria um impacto limitado, o instituto optou por focar em públicos específicos. Seu objetivo é identificar jovens talentos em todo o Brasil e fornecer a eles oportunidades e apoio educacional que despertem seu interesse pela ciência.

Além disso, o IIF está trabalhando em parceria com instituições educacionais em todo o país para identificar e apoiar alunos com habilidades especiais e uma abordagem diferenciada para a resolução de problemas.

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