Árbitro sofre homofobia em jogo de vôlei mirim em Natal
Natal, RN 12 de jun 2026

Árbitro sofre homofobia em jogo de vôlei mirim em Natal

17 de julho de 2024
8min
Árbitro sofre homofobia em jogo de vôlei mirim em Natal
Luan Gomez em partida que aconteceu em outro momento | Foto: Vicktor Milhomem (Prisma Clickss)

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O árbitro Luan Gomez, de 26 anos, foi vítima de um episódio de homofobia quando apitava na etapa seletiva dos Jogos da Juventude Escolar do Rio Grande do Norte (Juverns), com equipes de 12 a 14 anos, nesta terça-feira (16) em Natal.

A partida era entre duas escolas particulares: o Colégio Instituto Brasil e o Salesiano Dom Bosco, e aconteceu no bairro de Cidade da Esperança, Zona Oeste da capital. Os gritos vieram da parte de onde tinha a maioria da torcida do Instituto Brasil. O agressor não foi identificado. Mesmo tendo ficado abalado e chorado, Luan conseguiu se recompor e minutos depois já estava trabalhando em um outro jogo. Negro e gay, o jovem encontrou no esporte um meio de acolhimento e não pretende deixar o vôlei de lado.

Como foi

Nas partidas de voleibol, existem dois árbitros: um que fica na parte de cima, de costas para o público, em cima de um banco para ver as infrações, e outro que fica na parte de baixo — também de costas — ambos focados no jogo. Na hora dos ataques homofóbicos, Luan, que é estagiário do corpo de arbitragem da Federação Norte-Riograndense de Voleibol (FNV), estava atuando como primeiro árbitro.

Nos dois primeiros sets, houve uma vitória para cada lado, e o jogo então se encaminhou para um terceiro set de desempate, de 15 pontos. 

“E geralmente os nervos estão à flor da pele porque é um set mais pegado, é uma situação que a gente precisa analisar mais, e os pais ficam fervorosos porque estão torcendo para o filho”, explica Luan, que diz que nesses momentos já se costuma ouvir gritos com críticas à arbitragem, mas não criminosos.

A situação mudou já no final do terceiro set, quando ele apitou uma infração e, de costas para quem estava assistindo a partida, ouviu gritos como “apita essa porra direito, baitola”. Ele se virou para tentar identificar de onde vinha o insulto e não achou a pessoa, então voltou a se concentrar no ofício. Depois, novamente, ouviu um xingamento: “bota essa porra na boca direito, viado”. Mais uma vez, não identificou de quem partia os gritos homofóbicos. Foi então que começou a chorar e se viu numa situação de impotência.

“Eu não sabia quem é que estava me ofendendo. Quando eu virava de costas a pessoa começava a me ofender de novo, eu procurava quem era, ninguém falava nada”, relata.

Luan, então, comunicou o fato ao segundo árbitro, um profissional mais experiente que atuava também como seu instrutor, e recebeu apoio. A ação criminosa também foi comunicada aos técnicos das duas equipes, que se solidarizaram e se prontificaram a tentar achar o culpado, mas não foi possível. A súmula foi preenchida relatando a situação.

“A gente sofre muito na hora”

Com 26 anos, o jovem já tem relação com o vôlei desde os 13. Sendo negro e homossexual, o árbitro relatou que desce cedo já enfrenta este tipo de preconceito e precisou crescer forte.

“A gente sofre muito na hora. Foi um episódio que eu chorei na hora, estava apitando e chorando, mas a gente se recupera com facilidade porque sabe como a vida é. A gente precisa ter força pra enfrentar esses desafios principalmente na sociedade atual onde a gente tem que enfrentar, pra mostrar que as pessoas não tem o poder, muito menos o direito, de estar ofendendo as pessoas do nada. Existem leis, existem direitos e esses direitos precisam ser cumpridos, caso contrário isso é um crime”, diz Luan.

Foto: Vicktor Milhomem (Prisma Clickss)

Ainda que o agressor das ofensas verbais não tenha sido identificado, boa parte da torcida em jogos infantis é composta por pais e familiares dos atletas. Luan relata que o que o abala é imaginar como uma dessas crianças vai crescer, tendo que ouvir insultos homofóbicos.

“Ninguém nasce preconceituoso. O ser humano aprende a ser preconceituoso, alguém ensina. Então na hora que você lida com uma situação de homofobia em uma competição de 12 a 14 anos, o meu medo é que aqueles atletas escutem isso e reproduzam”, lamenta o profissional. 

“Violência verbal também é violência”, atesta.

Vôlei como lugar de acolhimento

Luan Gomez diz que toda sua vida foi baseada no esporte. Vindo de uma comunidade carente, ele ganhou bolsas de estudos e se mudou para Natal para jogar. Já trabalhou como boleiro e nos últimos anos atua como árbitro. 

“O vôlei faz parte da minha vida. E nós, que somos da comunidade, sempre temos o vôlei como um ambiente de acolhimento. Tudo que a gente não encontra na rua, encontra dentro do esporte. Então é por isso que a nossa luta tem que ser essa: fazer por onde esse esporte continue sendo acolhedor. Porque o voleibol, sem sombra de dúvidas, é um dos esportes mais acolhedores para pessoas da comunidade LGBT que existem”, relata.

Logo após ser vítima dos ataques, Luan buscou enxugar as lágrimas e continuar exercendo o que gosta de fazer.

“O que esses criminosos querem é nos abalar, nos abater, nos tirar desses lugares. Porque pra eles, pessoas como eu têm que estar na marginalidade, jamais como um primeiro ou segundo árbitro, jamais como uma pessoa que está ali comandando o jogo, jamais como uma pessoa que está liderando aquela competição, para que nada saia fora dos conformes. Então na hora que eu saísse dali, era o que essa pessoa queria. Na hora que essa pessoa me ofendeu com ofensas homofóbicas, ela queria que eu parasse de arbitrar, e eu não vou parar. Pelo contrário, agora eu tenho mais força de continuar, primeiro por uma equipe maravilhosa que eu tenho que me dá suporte, árbitros extremamente educados, que me instruem, que me ensinam. Eu amo aprender com eles. E segundo, porque eu sou acolhido. Porque a gente só combate homofobia enfrentando ela. Então, quem estiver achando que eu vou parar de arbitrar por causa disso, jamais. Me dá mais força para as próximas competições”, diz, firme.

Apoio da Federação

Minutos após o episódio criminoso, a Federação Norte-Riograndense de Voleibol divulgou uma nota de repúdio em que lembrou que homofobia é crime e uma grave violação dos direitos humanos, que compromete a dignidade e a integridade de indivíduos por sua orientação sexual. 

“Esses atos são inaceitáveis em qualquer contexto, especialmente em eventos esportivos que devem promover valores como respeito, inclusão e igualdade. Reconhecemos que há diferentes formas de torcer, mas nenhuma dessas formas deve ser mediante preconceito”, aponta a nota da entidade.

A federação informou ainda que está acompanhando o caso e exigiu que as autoridades competentes tomem todas as medidas necessárias para identificar e punir os responsáveis por essas agressões.

Secretário da FNV, Tiago Lincka informou que a federação já entrou em contato com as escolas para tentar identificar a pessoa responsável pelos gritos homofóbicos e, se possível, tomar as providências cabíveis. 

“Se não puder identificar, fica esse papel de educação, principalmente porque era um campeonato de crianças de 12 a 14 anos. O que fica para essas crianças? Qual a aprendizagem de crianças que estão entrando no voleibol já com um exemplo desse?”, questiona o secretário da entidade.

Lincka alertou que a federação acredita que não há espaço para homofobia em lugar nenhum da sociedade.

“Ainda mais em um esporte como o voleibol, que é ainda mais inclusivo nessa questão da comunidade LGBT”.

A Subsecretaria do Esporte e do Lazer do Governo do Estado também se pronunciou. Em uma nota de solidariedade, disse que está comprometida em promover um ambiente de respeito e igualdade para todos, sem exceção.

“Essas atitudes não têm lugar no esporte ou em qualquer outro lugar. Continuaremos lutando e prezando por competições mais justas e inclusivas”, divulgou a pasta.

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