Criada em 2019 como projeto de extensão, a Mostra Monstra tem se consolidado como uma das principais plataformas de difusão do audiovisual potiguar, conectando obras universitárias a festivais e mostras nacionais e internacionais. A iniciativa é coordenada pelo professor Rodrigo Almeida e conta com estudantes bolsistas e voluntários que atuam na curadoria, distribuição e divulgação dos filmes.
Ao longo de seus três anos de atuação, a Mostra Monstra não apenas exibe curtas-metragens universitários, mas atua de forma estratégica para inseri-los em circuitos mais amplos. Rodrigo Almeida explica que, para a distribuição dos filmes, é formada uma equipe responsável por preencher uma tabela de inscrições e dividir entre si a responsabilidade de submeter as obras para diferentes festivais. Além disso, são produzidas legendas em inglês e legendas LSE (acessibilidade para pessoas surdas e ensurdecidas). “A gente também pede aos realizadores que montem uma pastinha com materiais de divulgação que ajudem a promover os filmes”, conta.
Após um ano de circulação, os curtas recebem apoio para um lançamento aberto na internet. Cada filme selecionado conta com R$ 200 para investimento em inscrições, e há também a possibilidade de apoio estudantil para cobrir custos de deslocamento. No ano passado, por exemplo, estudantes participantes da Mostra foram ao festival Curta Caicó com auxílio da UFRN.
As ações de divulgação também ganham destaque: sempre que um filme da Mostra é selecionado, a equipe republica a notícia no Instagram, fortalecendo a visibilidade das obras e de seus realizadores. Essa rede de apoio é vista como essencial por Rodrigo: “A gente faz essa ponte entre os realizadores e o circuito audiovisual. Às vezes, os realizadores terminam indo aos eventos, o que é um momento importante de conexão, de conhecer outros cinemas e contextos”.
Após a abertura da convocatória geral, outros filmes foram incorporados à seleção, como Memória Trêsporquatro, Sofisticados Urbanos, À Sua Espera e RPGays, este último com uma estética queer-fantástica que se encaixa em festivais de recorte híbrido.
Formação, diversidade e inclusão audiovisual
A curadoria se orienta pela diversidade estética, temática e territorial. Rodrigo ressalta que a escolha dos filmes considera diferentes perfis, para não haver sobreposição durante a distribuição. “Alguns festivais são gerais, outros têm recortes específicos: cinema negro, queer, universitário, filmes feitos no Nordeste ou apenas no interior. A ideia é dar um panorama do que tem sido produzido na universidade naquele ano”, destaca.
Além da difusão das produções, a Mostra também atua no campo da formação audiovisual. Entre os cursos e atividades já promovidos estão: cinema africano e descolonização das telas, estéticas sonoras e a construção do som no audiovisual, imaginação queer no cinema brasileiro, afrofuturismo e fabulações críticas e inteligência artificial no audiovisual.

“Desde o início, buscamos olhar para as lacunas da formação audiovisual em Natal e no RN. Pensamos cursos e oficinas que tragam referências que não estão contempladas nem dentro do próprio curso, atuando onde há ausência — seja na técnica, na estética, na representatividade ou na construção de redes com cinemas periféricos e não hegemônicos”, explica o professor.
Espaço de resistência e projeção cultural
Essa atuação alternativa também responde à precariedade da infraestrutura de exibição em Natal. A capital potiguar tem todas as suas salas de cinema localizadas em shoppings, com programação predominantemente comercial. Nesse cenário, a Mostra Monstra se alia aos cineclubes e a outras mostras independentes como espaços de resistência cultural.
“A gente está perdendo tempo quando não inscreve nossos filmes em outros lugares. Onde o filme potiguar chega, a cultura potiguar também se expande. A gente se coloca no mapa, quebra estereótipos e convida outras pessoas a participarem de nossas vivências e imaginários”, afirma Rodrigo.
Ao apostar na pluralidade de vozes, linguagens e corpos, a Mostra Monstra não apenas projeta os filmes universitários potiguares para além dos muros da UFRN, mas também aponta caminhos para um cinema que sonha, provoca e transforma.