No mesmo lugar onde, há quase seis décadas, registrou rostos, histórias e modos de vida de uma comunidade quilombola à beira-mar, o fotógrafo e cineasta Jorge Bodanzky retorna ao Rio Grande do Norte para um reencontro marcado pela memória. A passagem do artista pelo estado será celebrada com uma programação especial que inclui uma mostra sobre sua trajetória cinematográfica e a abertura da exposição Herdeiros de Zumbi – Um Álbum de Família de Sibaúma, reunindo imagens produzidas em 1969 e que hoje ajudam a contar a história da comunidade.
A programação começa nesta quinta-feira (23), às 19h, em Pipa, com a exibição de Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky, no A Fonte Bar. O encontro propõe uma imersão na obra de um dos principais documentaristas brasileiros, conhecido por transformar a observação do cotidiano em narrativas que atravessam temas sociais, políticos e culturais do país.

Já no dia seguinte, 25 de julho, às 16h, Bodanzky estará em Sibaúma para a abertura da exposição Herdeiros de Zumbi – Um Álbum de Família de Sibaúma. A mostra reúne mais de 200 fotografias feitas durante a passagem da equipe da revista Realidade pela comunidade, quando o fotógrafo acompanhou uma reportagem do jornalista potiguar Talvani Guedes. As imagens revelam cenas do cotidiano, relações familiares, formas de trabalho e a ocupação do território quilombola em um período em que pouco se falava sobre essas comunidades no Brasil.
Para Bodanzky, o impulso de fotografar sempre esteve ligado à necessidade de registrar experiências e preservar histórias. “Tenho uma influência humboldtiana, essa curiosidade do viajante, a preocupação pelo registro. Gosto de documentar as experiências vividas e os fatos observados, transformando as imagens em uma espécie de caderno de notas”, afirma.
Embora a reportagem publicada pela revista Realidade não tenha provocado grande repercussão na época, as fotografias ganharam novos significados ao longo dos anos. Hoje, elas são reconhecidas como um importante testemunho visual da presença histórica da comunidade em seu território e contribuíram inclusive para processos de reconhecimento e valorização da memória quilombola.
O retorno das imagens à comunidade tem um significado especial. Parte dos retratos mostra pessoas que ajudaram a construir a história local e cujos descendentes ainda vivem em Sibaúma. Nos últimos meses, pesquisadores, estudantes e moradores participaram de um trabalho coletivo para identificar personagens retratados nas fotografias, reconstruindo laços familiares e histórias atravessadas pelo tempo.
O reencontro também desperta a curiosidade do próprio fotógrafo. “Estou curioso para ver, principalmente, o que eles vão dizer referente ao período das fotos. O que eles vão contar. É sempre muito bom quando a gente faz um trabalho desse retornar à sua origem”, diz.
Além de expor o acervo, Bodanzky pretende registrar em vídeo as memórias despertadas pelas imagens, ouvindo moradores e familiares das pessoas fotografadas. A ideia é reunir novos relatos que possam ampliar a narrativa iniciada há quase 60 anos.
A exposição é resultado de uma parceria entre a Associação de Remanescentes Quilombolas da Praia de Sibaúma, o Grupo de Pesquisa Cultura, Identidade e Representações Simbólicas (CIRS/UFRN) e o Instituto Moreira Salles (IMS), responsável pela preservação do acervo fotográfico. Após a mostra, as imagens deverão integrar o futuro Centro de Memória de Sibaúma, fortalecendo a preservação do patrimônio cultural quilombola da comunidade.
Serviço
24 de julho
Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky
A Fonte Bar – Praia de Pipa
9h
25 de julho
Abertura da exposição Herdeiros de Zumbi – Um Álbum de Família de Sibaúma por Jorge Bodanzky, 1969
Centro Cultural Herdeiros de Zumbi – Sibaúma, Tibau do Sul
16h
SAIBA MAIS:
Exposição resgata memória quilombola de Sibaúma com fotos de 1968