Ponta Negra ganha Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira
Em um momento em que o acesso ao livro e à informação ainda é marcado por desigualdades, um novo espaço cultural nasce em Ponta Negra com a proposta de aproximar conhecimento, comunidade e participação popular. A Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira será inaugurada neste sábado(25), às 17h, na Casa Socialista, resultado de uma construção coletiva entre militantes, educadores, bibliotecários e voluntários que acreditam na leitura como ferramenta de emancipação.
Mais do que um local para guardar livros, a biblioteca surge com a missão de se tornar um ponto de encontro para formação cultural, política e social no bairro. O projeto é fruto da parceria entre a Casa Socialista e o Comitê Norte-Rio-Grandense de Bibliotecários (CNRB), que participou da concepção e estruturação do espaço.
Segundo a coordenadora da biblioteca, Ticianne Perdigão, em entrevista à Agência Saiba Mais a ideia nasceu de forma natural dentro das atividades desenvolvidas pela Casa Socialista. “A Casa já surgiu com a proposta de ser um espaço de formação cultural, política e social. A biblioteca foi uma construção muito orgânica entre as pessoas que participam do projeto e ganhou força a partir do diálogo com o Comitê Norte-Rio-Grandense de Bibliotecários sobre a importância das bibliotecas como dispositivos socioculturais”, explica.
Ela destaca que o trabalho realizado para colocar a iniciativa em prática é inteiramente voluntário. “O Comitê é um parceiro essencial. Sem essa parceria, esse projeto não seria possível”, afirma.
Homenagem à educadora e militante popular
O espaço leva o nome da professora, escritora e militante popular Brasília Carlos Ferreira. A escolha busca reconhecer sua trajetória de atuação em movimentos sociais, organizações sindicais e na defesa da educação pública.
De acordo com Poliana Soares, integrante do CNRB, a homenagem dialoga com o próprio sentido da biblioteca: “Brasília Carlos Ferreira representa a luta popular da classe trabalhadora por melhores condições de vida, inclusive no campo da educação. Ela também desenvolveu estudos sobre períodos importantes da história brasileira marcados por intensa efervescência cultural e organização popular”, destaca.
A bibliotecária lembra que a tradição das bibliotecas populares remonta às primeiras décadas do século XX, quando iniciativas comunitárias buscavam ampliar o acesso ao conhecimento para trabalhadores e setores historicamente excluídos dos espaços formais de educação.
“A ideia não é simplesmente retomar aquele período histórico, mas dar continuidade a esse projeto de emancipação por meio das bibliotecas, fortalecendo a consciência crítica e a participação social”, afirma.
Nascida com forte ligação à academia e às causas sociais, Brasília graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1975 e concluiu seu mestrado na PUC-SP. Em 1978, retornou à UFRN como docente do Departamento de Ciências Sociais, onde lecionou por 35 anos até a sua aposentadoria, em 2013, tornando-se referência na formação de novos cientistas políticos e sociólogos no estado.
Como pesquisadora, dedicou sua carreira à análise crítica do mundo do trabalho, da legislação sindical e dos movimentos operários no Nordeste. Sua obra mais célebre, “O Sindicato do Garrancho” (fruto de sua dissertação de mestrado de 1986 e publicada em livro no ano 2000), reconta a histórica e dura organização dos operários das salinas no município de Mossoró. Ela também é autora do livro “Trabalhadores, Sindicatos, Cidadania”, publicado em 1997.
O acervo inicial reúne obras de literatura potiguar e brasileira, além de títulos nas áreas de filosofia, psicologia, ciências sociais, ciência política e artes. Também haverá uma seção dedicada a livros didáticos do Ensino Médio, voltada ao apoio dos estudantes do Cursinho Popular Djalma Maranhão, que funciona na própria Casa Socialista. Outro destaque é a coleção de literatura de cordel, construída em parceria com a Casa do Cordel. O espaço contará ainda com livros infantis e uma gibiteca.
Além do acervo físico, está prevista a criação da Biblioteca Digital Brasília Carlos Ferreira, que reunirá materiais gratuitos disponíveis em plataformas de acesso aberto.
“A proposta é ampliar o acesso ao conhecimento por meio de uma curadoria de acervos digitais que contribuam para a formação cultural, educacional e política da comunidade”, explica Poliana.
A biblioteca estará aberta durante as atividades promovidas pela Casa Socialista. Visitas em outros horários poderão ser agendadas por meio das redes sociais da instituição.
Os idealizadores do projeto afirmam que a atuação da biblioteca não ficará restrita ao empréstimo de obras. A proposta inclui uma programação permanente de atividades voltadas à formação de leitores e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. Entre as ações previstas estão clubes de leitura, palestras, rodas de conversa, oficinas, minicursos e encontros temáticos. “Queremos fomentar a cultura, o conhecimento plural e a formação cidadã. A biblioteca precisa ser um espaço vivo, de convivência e troca de experiências”, afirma Poliana.
Para os organizadores, o papel de uma biblioteca popular vai além da democratização do acesso à leitura. O espaço também pode fortalecer identidades locais e estimular o protagonismo comunitário.
“A biblioteca contribui para uma integração horizontal entre instituição e comunidade. Ela corporifica o território, valoriza os saberes locais e fortalece as vozes das pessoas que vivem naquele espaço”, avalia Poliana.
Segundo ela, iniciativas desse tipo ajudam a enfrentar desigualdades informacionais, mas também têm potencial para construir novos horizontes coletivos. “Acreditamos que a biblioteca é mais do que um instrumento de combate à desigualdade. Ela é uma possibilidade de sonhar com um mundo mais afetivo, criativo e esperançoso”, conclui.
A inauguração da Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira acontece na Rua Poeta Jorge Fernandes, nº 112, em Ponta Negra, e é aberta ao público. O novo espaço chega com a ambição de transformar livros em pontes entre conhecimento, memória, comunidade e participação social.
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