Ponta Negra ganha Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira
Natal, RN 23 de jul 2026

Ponta Negra ganha Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira

23 de julho de 2026
5min
Ponta Negra ganha Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira
Foto: Morgana Souza

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Em um momento em que o acesso ao livro e à informação ainda é marcado por desigualdades, um novo espaço cultural nasce em Ponta Negra com a proposta de aproximar conhecimento, comunidade e participação popular. A Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira será inaugurada neste sábado(25), às 17h, na Casa Socialista, resultado de uma construção coletiva entre militantes, educadores, bibliotecários e voluntários que acreditam na leitura como ferramenta de emancipação.

Mais do que um local para guardar livros, a biblioteca surge com a missão de se tornar um ponto de encontro para formação cultural, política e social no bairro. O projeto é fruto da parceria entre a Casa Socialista e o Comitê Norte-Rio-Grandense de Bibliotecários (CNRB), que participou da concepção e estruturação do espaço.

Segundo a coordenadora da biblioteca, Ticianne Perdigão, em entrevista à Agência Saiba Mais a ideia nasceu de forma natural dentro das atividades desenvolvidas pela Casa Socialista. “A Casa já surgiu com a proposta de ser um espaço de formação cultural, política e social. A biblioteca foi uma construção muito orgânica entre as pessoas que participam do projeto e ganhou força a partir do diálogo com o Comitê Norte-Rio-Grandense de Bibliotecários sobre a importância das bibliotecas como dispositivos socioculturais”, explica.

Ela destaca que o trabalho realizado para colocar a iniciativa em prática é inteiramente voluntário. “O Comitê é um parceiro essencial. Sem essa parceria, esse projeto não seria possível”, afirma.

O espaço leva o nome da professora, escritora e militante popular Brasília Carlos Ferreira. A escolha busca reconhecer sua trajetória de atuação em movimentos sociais, organizações sindicais e na defesa da educação pública.

De acordo com Poliana Soares, integrante do CNRB, a homenagem dialoga com o próprio sentido da biblioteca: “Brasília Carlos Ferreira representa a luta popular da classe trabalhadora por melhores condições de vida, inclusive no campo da educação. Ela também desenvolveu estudos sobre períodos importantes da história brasileira marcados por intensa efervescência cultural e organização popular”, destaca.

A bibliotecária lembra que a tradição das bibliotecas populares remonta às primeiras décadas do século XX, quando iniciativas comunitárias buscavam ampliar o acesso ao conhecimento para trabalhadores e setores historicamente excluídos dos espaços formais de educação.

“A ideia não é simplesmente retomar aquele período histórico, mas dar continuidade a esse projeto de emancipação por meio das bibliotecas, fortalecendo a consciência crítica e a participação social”, afirma.

Nascida com forte ligação à academia e às causas sociais, Brasília graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 1975 e concluiu seu mestrado na PUC-SP. Em 1978, retornou à UFRN como docente do Departamento de Ciências Sociais, onde lecionou por 35 anos até a sua aposentadoria, em 2013, tornando-se referência na formação de novos cientistas políticos e sociólogos no estado.

Como pesquisadora, dedicou sua carreira à análise crítica do mundo do trabalho, da legislação sindical e dos movimentos operários no Nordeste. Sua obra mais célebre, “O Sindicato do Garrancho” (fruto de sua dissertação de mestrado de 1986 e publicada em livro no ano 2000), reconta a histórica e dura organização dos operários das salinas no município de Mossoró. Ela também é autora do livro “Trabalhadores, Sindicatos, Cidadania”, publicado em 1997.

O acervo inicial reúne obras de literatura potiguar e brasileira, além de títulos nas áreas de filosofia, psicologia, ciências sociais, ciência política e artes. Também haverá uma seção dedicada a livros didáticos do Ensino Médio, voltada ao apoio dos estudantes do Cursinho Popular Djalma Maranhão, que funciona na própria Casa Socialista. Outro destaque é a coleção de literatura de cordel, construída em parceria com a Casa do Cordel. O espaço contará ainda com livros infantis e uma gibiteca.

Além do acervo físico, está prevista a criação da Biblioteca Digital Brasília Carlos Ferreira, que reunirá materiais gratuitos disponíveis em plataformas de acesso aberto.

“A proposta é ampliar o acesso ao conhecimento por meio de uma curadoria de acervos digitais que contribuam para a formação cultural, educacional e política da comunidade”, explica Poliana.

A biblioteca estará aberta durante as atividades promovidas pela Casa Socialista. Visitas em outros horários poderão ser agendadas por meio das redes sociais da instituição.

Os idealizadores do projeto afirmam que a atuação da biblioteca não ficará restrita ao empréstimo de obras. A proposta inclui uma programação permanente de atividades voltadas à formação de leitores e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. Entre as ações previstas estão clubes de leitura, palestras, rodas de conversa, oficinas, minicursos e encontros temáticos. “Queremos fomentar a cultura, o conhecimento plural e a formação cidadã. A biblioteca precisa ser um espaço vivo, de convivência e troca de experiências”, afirma Poliana.

Para os organizadores, o papel de uma biblioteca popular vai além da democratização do acesso à leitura. O espaço também pode fortalecer identidades locais e estimular o protagonismo comunitário.

“A biblioteca contribui para uma integração horizontal entre instituição e comunidade. Ela corporifica o território, valoriza os saberes locais e fortalece as vozes das pessoas que vivem naquele espaço”, avalia Poliana.

Segundo ela, iniciativas desse tipo ajudam a enfrentar desigualdades informacionais, mas também têm potencial para construir novos horizontes coletivos. “Acreditamos que a biblioteca é mais do que um instrumento de combate à desigualdade. Ela é uma possibilidade de sonhar com um mundo mais afetivo, criativo e esperançoso”, conclui.

A inauguração da Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira acontece na Rua Poeta Jorge Fernandes, nº 112, em Ponta Negra, e é aberta ao público. O novo espaço chega com a ambição de transformar livros em pontes entre conhecimento, memória, comunidade e participação social.

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