Morro do Careca atrai turistas, mas infraestrutura de Ponta Negra decepciona
Alzenir Alves é professora na Paraíba e, nesse final de semana, esteve em seu primeiro passeio por Natal. Empolgada com a estadia – tinha chegado apenas um dia antes – ela me observava de longe enquanto caminhava pela praia de Ponta Negra até que me aproximei e ouvi um pedido:
“Estava acompanhando você de longe e esperando chegar aqui. Pode tirar uma foto minha no Morro do Careca?”, pediu.

Puxo conversa e ela conta que saiu na frente do grupo que a acompanha, formada por amigos e familiares:
“Estou achando ótimo, só senti falta de movimento. Meu sonho era conhecer o Morro do Careca”, confidencia.
Ione também aportou por Natal com o marido e amigos pela primeira vez. Ficou pensativa quando perguntei o que estava achando da praia:
“Achei que fosse diferente, mas é bonito”, comentou ao pé do Morro do Careca.

Quem frequenta o local, se incomoda com a água empossada em diferentes pontos, inclusive, ao pé das escadas que dão acesso à praia.
“Quando o sol abre até que dá gente porque é um mês de férias, mas um ponto negativo é essa drenagem da praia… qualquer meia hora de chuva a água empossa”, reclama Altarir Edson, que trabalha em um quiosque da praia.

Pertinho dali, Elaine Corrêa saía com dificuldade da areia para o calçadão:
“O lugar é lindo, mas fiquei decepcionada com a areia, está cheia de pedras. Ontem fui para Pipa e logo mais vou para Cotovelo”, comentou a curitibana, confirmando o que muitos comerciantes e donos de pontos na praia afirmam sobre turistas que desistem de ficar em Ponta Negra e vão para outras praias.

“Mas em Camboriú também teve isso no início, o pessoal não gostou muito, mas depois as coisas foram se ajustando”, acrescenta.
Desanimado com o pouco movimento do final de semana com feriado imprensado, Kel Fernandes foi mais um a reclamar de queda em Ponta Negra.
“O turista reclama do banho. A frequência de pessoas caiu mais da metade, em pleno feriado não vendi nenhuma mesa”, lamenta.

Em Ponta Negra, a natureza segue irretocável, o problema são as intervenções humanas, como os banheiros pichados, sujos ou fechados que, junto com a água empossada, deixam uma impressão negativa desde o calçadão até a primeira pisada na areia da praia.
Nessa última semana, as chuvas mais recentes, mais uma vez, abriram uma voçoroca ao pé do Morro do Careca levando parte da areia da engorda. Nem as cercas que isolavam o cartão postal da cidade ficaram de pé.
Para uma cidade que deseja ser exemplo de destino verde como destino turístico, é preciso fazer mais do que empurrar grandes obras goela abaixo da população. Calçadas limpas, transitáveis, transparência, transporte público, boas escolas, saúde e regramento ambiental também são boas práticas que se espera de um destino verde.
Os alagamentos
A primeira chuva a alagar a engorda de Ponta Negra ocorreu em de janeiro deste ano, pouco depois da obra ter sido concluída. Na época, o secretário de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb), Thiago Mesquita, culpou uma conexão indevida entre dois pontos de drenagem e um extravasamento de esgoto. O problema voltou a se repetir em outras ocasiões e a direção da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) negou responsabilidade nos alagamentos.

Uma das justificativas para os alagamentos era a falta de drenagem cuja obra, contrariando as recomendações técnicas, foi concluída somente após a colocação da areia na praia, em janeiro deste ano. Em vistoria de outubro de 2024, a Defesa Civil alertou que a engorda só deveria ser iniciada após a conclusão dos dissipadores. Porém, a ordem foi invertida pela Prefeitura do Natal, que fez a engorda e só depois concluiu os dissipadores, já em fevereiro. Mesmo assim, os alagamentos continuaram a se repetir.
Num terceiro momento, após a conclusão da drenagem, em março deste ano, o discurso virou para naturalizar os alagamentos, que passaram a ser chamados de “espelhos d’água”. Em outra nota oficial, a Prefeitura do Natal afirmou:
“O projeto da drenagem de Ponta Negra prevê que chuvas acima de 40mm não impedirão a formação de espelhos d’água. Como tivemos chuvas de 100mm em 6h, essa previsão está se confirmando. Porém, sem formação de voçorocas”.
Em abril, em conversa com a jornalista Thaisa Galvão, o prefeito Paulinho Freire afirmou que iria contratar um estudo “isento” sobre a engorda da praia de Ponta Negra. À época a assessoria de imprensa da Prefeitura do Natal não confirmou a informação. Nós voltamos a procurar a assessoria nesta sexta (20), mas não obtivemos retorno.
A engorda
A engorda da praia de Ponta Negra foi realizada sem acompanhamento de órgãos de fiscalização. Por meio de força judicial, a Prefeitura do Natal conseguiu o Licenciamento de Instalação e Operação (LIO), necessário para início dos trabalhos. Porém, o licenciamento era válido para uma área diferente da que foi explorada na extração da areia da jazida.
Para não ter que pedir nova licença, o então prefeito de Natal, Álvaro Dias (Republicanos), emitiu um decreto de estado de emergência por erosão pelo avanço da maré em setembro de 2024. Com isso, a obra foi realizada sem licenciamento ambiental.
Já em outubro do mesmo ano, a Prefeitura do Natal conseguiu na justiça um mandado de segurança proibindo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema) de fiscalizar a obra da engorda.
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