Cineclube estreia “Maratona Sapatão” e aposta em narrativas lésbicas
Criado por estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Cineclube Delírio surge como resposta à carência de janelas contínuas dedicadas ao cinema cuir e à diversidade de gênero e sexualidade. A segunda sessão aberta ao público será a Maratona Sapatão, que acontece nessa quinta-feira (25), às 15h, no Auditório 1 do Departamento de Comunicação Social (Decom/UFRN).
O Delírio não surgiu do nada, ele é fruto de percursos compartilhados por seus criadores: Amin, Carmim Paiva, Felipe Santelli e Sofia Carlos, em espaços que já tensionavam a forma como se olha para o cinema e para corpos dissidentes. A equipe se conheceu em iniciativas como a Mostra Monstra, projeto de extensão do Decom/UFRN que promove olhares decoloniais, cuir e feministas no audiovisual, e participou do Mulungu Lab, uma formação em curadoria para cineclubes e mostras organizada pelo Cineclube Mulungu, com Rosy Nascimento e Anthony Rodrigues.
“A ideia do Delírio nasceu de um processo coletivo. Já trocávamos indicações de filmes e leituras sobre cinema e teoria cuir, além de fazer exibições pontuais. A partir dessas vivências, percebemos a necessidade de formalizar o que já vínhamos construindo juntos”, explicam em entrevista ao Saiba Mais.
Cada integrante contribui para a identidade do projeto: Carmim, Santelli e Sofia dividem funções de curadoria, produção e programação, enquanto Amin é responsável pelo design e pela identidade visual. Em algumas sessões, o grupo ainda convida curadores externos, como Camille Silva, que colaborou na estreia ocorrida no mês de junho.

Nome que evoca
O batismo do cineclube não é casual. “Delírio” reflete um estado de intensidade e ruptura, que abraça a invenção e o prazer como formas de questionar a norma.
“Queremos propor um cinema cuir que desafia padrões e abre espaço para novas narrativas e formas de fazer. O nome traduz esse gesto de desvio e fabulação que queremos cultivar”, dizem os criadores.
Para o grupo, criar o Delírio é também um ato político. Em Natal e no Rio Grande do Norte, a circulação de produções independentes enfrenta barreiras: poucos cinemas públicos, dificuldade de distribuição e acesso restrito a obras fora dos grandes festivais. Isso compromete a formação de público e o estímulo a novos realizadores.
“Queríamos um espaço contínuo que exibisse cinema cuir/LGBTQIA+, algo que não existe aqui. Nosso objetivo é tanto formar público quanto apoiar o surgimento de novas produções e pesquisas nessa área”, explicam.
O cineclube pretende atuar como ponte entre produções independentes brasileiras e estudantes, contribuindo para a crítica, a criação e o surgimento de novos olhares no estado.
Repensar o que é ser lésbica na tela
A segunda sessão do do Delírio acontece com a Maratona Sapatão, sessão que busca recuperar e reinventar as representações lésbicas no cinema brasileiro. A curadoria parte do pioneirismo de cineastas como Barbara Hammer e Cheryl Dunye, mas volta o olhar para autoras e autores nacionais contemporâneos, com produções de animação, ficção e documentário.
“Muitas vezes, no cinema tradicional, narrativas lésbicas passam por processos de higienização, apagando desejos, infâncias sapatonas, coletivos e corpos dissidentes. Queremos fugir disso e dar visibilidade a experiências múltiplas, não moldadas pelo olhar cisheteronormativo”, destacam.
A programação aposta em filmes dirigidos por mulheres e pessoas não binárias sapatonas, valorizando temas como trabalho, desejo, amizade, infâncias e performances de gênero. A ideia é criar um espaço de identificação e memória para a comunidade lésbica e sapatona, mas também ampliar o debate para quem deseja compreender representações dissidentes com mais profundidade. Confira:
Os organizadores reforçam que o cineclube vai além de exibir filmes: busca ser um lugar de convivência e troca.
“Queremos formar comunidade, criar diálogos e afetos, além de inspirar novos realizadores. O cinema cuir local precisa de apoio, e acreditamos que iniciativas como o Delírio podem fortalecer redes e práticas culturais em Natal”, afirmam.
Por enquanto, o projeto é independente e conta com apoio informal de professores e iniciativas como a Mostra Monstra para viabilizar as sessões dentro da universidade. Mas o grupo tem planos de expandir: ocupar outros espaços culturais, disputar editais de fomento e se conectar a movimentos similares no Brasil.
Serviço
Maratona Sapatão
Data: Quinta-feira, 25/09 — 15h
Local: Auditório 1 — Departamento de Comunicação Social (Decom/UFRN)
Entrada gratuita
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