Mar avança sobre engorda de Ponta Negra e derruba cerca do Morro do Careca
Natal, RN 16 de jun 2026

Mar avança sobre engorda de Ponta Negra e derruba cerca do Morro do Careca

8 de outubro de 2025
1min
Mar avança sobre engorda de Ponta Negra e derruba cerca do Morro do Careca
Imagem: reprodução redes sociais

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Pelo segundo dia consecutivo, o mar avançou sobre a área da engorda da praia de Ponta Negra e derrubou até a cerca que isolava o Morro do Careca. Por volta das 4h30 da madrugada desta quarta (8), a maré mais alta passou dos 2 metros de altura, segundo a Tábua da Maré. Mais uma vez, a água ficou empossada na faixa de areia.

Uma das explicações, revela João Abner, professor aposentado e fundador do curso de mestrado em Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é a inclinação negativa deixada pela obra da engorda.

A engorda gerou inclinação negativa da praia para o calçadão, isso gera acúmulo de água. Naturalmente a inclinação é no sentido do mar, a natureza forma isso, esse acúmulo é resultado de um processo artificial. Tem que fazer terraplenagem para corrigir”.

O professor sugere que, para evitar a erosão, sejam feitas áreas de escoamento ao longo da praia.

“Para não fazer nos quatro quilômetros, poderia fazer a cada 400 metros, preparar uma espécie de canal com 50 metros de largura. A água tem que escorrer e não pode ser concentrada, o segredo é que a velocidade seja compatível para que não provoque erosão. Seriam dez canais desses desde o Morro do Careca. Já ao pé do Morro tem que fazer um mini emissário submarino porque ali tem escadaria que joga água na praia”, detalha.

Segundo o engenheiro, a água acumulada pela maré alta ocorre pelo mesmo princípio do que ocorre em dias de chuva.

A água bateu no muro, criou uma lagoa e quando baixou, não retornou ao mar, a não ser pelo caminho natural que foi pelo pé do Morro formando uma voçoroca. Se tivesse uma declividade normal, a água iria secando, descendo para a praia”, avalia João Abner.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) informou que:

O que aconteceu foi o espraiamento devido ao período de lua cheia, onde a amplitude do mar está chegando a cerca de 2,9 metros, além de ventos muito fortes. É importante destacar que o espraiamento é um movimento natural do mar que também contribui para a conformação da praia, nivelando a areia e a tornando cada vez mais natural”.

Em vídeo, a secretária da Seinfra, Shirley Cavalcanti, afirmou que esse é um fenômeno natural e que irá se repetir. A titular da pasta não falou sobre o que seria feito para corrigir a situação.

Shirley Cavalcanti I Imagem: reprodução

Política + amadorismo = problema previsível

Sem um especialista em drenagem acompanhando a obra, até mesmo no início do processo, durante o licenciamento ambiental, os problemas que vêm surpreendendo a gestão pública poderiam ter sido previstos, explica o professor da UFRN.

Isso deveria ser previsto, é absurdo! Essa obra tem vício de origem, desde licenciamento ambiental, quando não tinha um item obrigando a análise de impacto ambiental no termo de referência. Como tem drenagem de três metros de altura e se mantém a drenagem antiga na mesma altura? Ela não pode ser pressurizada, tem que ser escoamento livre. O que vai acontecer no próximo período chuvoso é que vão aparecer crateras e afundar piso da rua porque a tubulação não pode ser pressurizada. Vai piorar o que temos, as construções na Erivan França, inclusive, correm sério risco”, alerta João Abner.

A drenagem é a parte mais séria que tem, todo acidente de drenagem é provocado por isso. Em período de chuva forte, quando ultrapassa a capacidade de escoamento, arrebenta.  Até agora isso tem sido conduzido com amadorismo. Não vi até agora um especialista de drenagem envolvido, desde o licenciamento ambiental. A empresa que fez o estudo de impacto ambiental também não tinha, a prefeitura que fiscalizou também não tinha, é uma morte anunciada. Não poderia ser diferente porque do jeito que foi feita essa obra contraria todos os princípios físicos da natureza e é tudo corrompido por política, mas acabou a eleição!”, ironiza o engenheiro.

“Isso mostra a fragilidade de Natal, isso é o bê a bá, ´elementar, coisas que se ensina nos primeiros anos do curso de engenharia. Estamos lidando com analfabetos, com pessoas que não são do ramo, que não poderiam assumir cargos e decidir questões importantes. Formei várias gerações de engenheiros. Como se gerou um ambiente que permitiu um absurdo desses em Natal?”, questiona.

Sobre a cerca

 De acordo com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema), como o órgão não recebeu a obra de engorda da Prefeitura do Natal oficialmente, a reposição da cerca derrubada é de responsabilidade da Prefeitura, que mudou a cerca que havia sido colocada pelo Idema antes da obra.

O material utilizado pela Prefeitura é distinto daquele originalmente instalado pelo Idema, que havia executado cercamento em madeira maciça com base de concreto, conforme previsto em contrato firmado para manutenção e sinalização da área. O Idema não recebeu oficialmente a obra e, diante das modificações observadas no local, solicitou esclarecimentos formais ao Município de Natal, por meio de processo administrativo, sobre as especificações técnicas do novo cercamento. O órgão estadual reitera seu compromisso com a proteção do Morro do Careca, área de relevante interesse ambiental e turístico, e segue acompanhando o caso para garantir o cumprimento da preservação do patrimônio natural potiguar”.

A obra

A engorda da praia de Ponta Negra, que custou cerca de R$ 100 milhões, foi realizada sem acompanhamento de órgãos de fiscalização. Por meio de força judicial, a Prefeitura do Natal conseguiu o Licenciamento de Instalação e Operação (LIO), necessário para início dos trabalhos. Porém, o licenciamento era válido para uma área diferente da que foi explorada na extração da areia da jazida.

Para não ter que pedir nova licença, o então prefeito de Natal, Álvaro Dias (Republicanos), emitiu um decreto de estado de emergência por erosão pelo avanço da maré em setembro de 2024. Com isso, a obra foi realizada sem licenciamento ambiental.

Já em outubro do mesmo ano, a Prefeitura do Natal conseguiu na justiça um mandado de segurança proibindo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema) de fiscalizar a obra da engorda.

A obra foi concluída em 25 de janeiro de 2025, mas sem a parte da drenagem finalizada, o que só ocorreu no início de março com o funcionamento dos 16 dissipadores, estruturas utilizadas para reduzir a velocidade da água durante o escoamento.

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