Praia de Ponta Negra volta a alagar em dia de maré alta
Natal, RN 11 de jun 2026

Praia de Ponta Negra volta a alagar em dia de maré alta

7 de outubro de 2025
7min
Praia de Ponta Negra volta a alagar em dia de maré alta
Praia de Ponta Negra alagada nesta terça (07) I Imagens: reprodução redes sociais

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A praia de Ponta Negra, na Zona Sul de Natal, voltou a ficar alagada nesta terça (07). A água chegou a cobrir a faixa de areia, deixando a área empossada. Dessa vez não houve ocorrência de chuvas, mas de uma maré mais alta.

“O problema não é a maré foi a obra realizada pela gestão Álvaro Dias. Desta vez, apenas uma maré alta foi capaz de mostrar a inconsistência da obra, realizada a toque e caixa e sem atender aos estudos básicos de impacto ambiental e social”, criticou o vereador Daniel Valença (PT).

O parlamentar por Natal ainda aponta a influência do calendário eleitoral na pressa para execução da obra, que não teve o trâmite do licenciamento ambiental respeitado.

Era possível prever isso? Sim, era possível. Modelos de engenharia costeira atualizados com dados recentes de elevação média do mar em estudos de perfis praiais eram fundamentais para desenhar a faixa de areia para enfrentar à sobrecarga de marés e chuvas. Mas a história real foi:
• Planejamento ambiental incompleto: ausência de perfis praiais e de atualização frente às variações climáticas;
• Supressão do licenciamento regular: decisão judicial impediu o IDEMA de exercer plenamente o controle ambiental;
• Desconsideração de alertas técnicos emitidos durante a obra.
Logo, Ponta Negra precisava de ciência, não de se tornar objeto de calendário eleitoral
”, elencou Valença.

O prefeito da cidade, Paulinho Freire (União), não se manifestou sobre o assunto.  Mas, essa não é a primeira vez que a faixa de areia alaga sem a ocorrência de chuvas. Segundo a Prefeitura do Natal, o fenômeno causado por marés mais altas deve ocorrer cerca de oito vezes ao longo do ano.

Pela apresentação divulgada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) antes do início da obra, a promessa era alargar a faixa de areia da praia em até 100 metros, na maré baixa, e 50 metros, na maré alta, ou seja, haveria uma faixa de areia que sempre permaneceria seca, o que não aconteceu na prática.

Além disso, desde que a engorda foi concluída, comerciantes da praia reclamam da queda generalizada do movimento no local e da perda de clientela. Eles denunciam que os alagamentos têm deixado a praia com aspecto de suja e abandonada.

A explicação técnica

Em entrevista anterior à Agência SAIBA MAIS, o professor aposentado e fundador do curso de pós-graduação de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), João Abner, explicou que a água empoçada na praia de Ponta Negra é resultado de decisões equivocadas na execução da obra de engorda, principalmente, devido à falta de profissionais de drenagem envolvidos no projeto.

É uma gambiarra sem dimensionamento, sem relatório, é criminoso. Essas lagoas que se formaram estão com água poluída que, quando levada para o mar, a salinidade mata, mas ficando na areia, resulta em várias as doenças. Não houve projeto de drenagem, as caixas não foram dimensionadas. A formação de lagoas é algo que nunca foi previsto, não tem projeto disso. As lagoas têm impacto sanitário muito grande, se tivessem sido analisadas, teriam sido condenadas. Os impactos na saúde pública são muito grandes, além de econômicos”, criticou o engenheiro.

 Segundo Abner, a água que hoje fica empoçada na areia deveria correr para o mar, mas de maneira controlada, para evitar a erosão. Sem um projeto de que dê conta de resolver o problema, a água empoçada acaba sendo um risco para a população.

Além do aspecto de obra inacabada deixada na praia, as caixas dissipadoras, segundo o especialista e professor aposentado da UFRN, não foram bem executadas e, ao invés de dissipar a energia da água, estão servindo como concentradoras, o que pode provocar crateras em locais por onde passam as galerias.

Outra crítica feita à obra é que a engorda foi realizada antes mesmo que a drenagem tivesse sido concluída. A drenagem das águas da chuva foi justamente um dos questionamento feitos pelo Idema (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente) à Prefeitura de Natal para emitir a licença da obra. O órgão ambiental do Governo do Estado foi impedido de fiscalizar a construção do aterro hidráulico em razão de uma decisão judicial obtida pelo ex-prefeito Álvaro Dias (Republicanos).

A obra

A engorda da praia de Ponta Negra, que custou cerca de R$ 100 milhões, foi realizada sem acompanhamento de órgãos de fiscalização. Por meio de força judicial, a Prefeitura do Natal conseguiu o Licenciamento de Instalação e Operação (LIO), necessário para início dos trabalhos. Porém, o licenciamento era válido para uma área diferente da que foi explorada na extração da areia da jazida.

Para não ter que pedir nova licença, o então prefeito de Natal, Álvaro Dias (Republicanos), emitiu um decreto de estado de emergência por erosão pelo avanço da maré em setembro de 2024. Com isso, a obra foi realizada sem licenciamento ambiental.

Já em outubro do mesmo ano, a Prefeitura do Natal conseguiu na justiça um mandado de segurança proibindo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema) de fiscalizar a obra da engorda.

A obra foi concluída em 25 de janeiro de 2025, mas sem a parte da drenagem finalizada, o que só ocorreu no início de março com o funcionamento dos 16 dissipadores, estruturas utilizadas para reduzir a velocidade da água durante o escoamento.

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