Moradores de Capim Macio questionam projeto do Parque Linear de Natal
Natal, RN 26 de jul 2026

Moradores de Capim Macio questionam projeto do Parque Linear de Natal

6 de outubro de 2025
8min
Moradores de Capim Macio questionam projeto do Parque Linear de Natal
Calçadão da Engenheiro Roberto Freire ao lado de vegetação do Parque das Dunas I Foto: Joana Lima/Secom

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Assim como o Conselho Gestor do Parque das Dunas, os moradores de Capim Macio, na Zona Sul de Natal, também foram informados pela imprensa sobre o projeto do Parque Linear de Natal que a Prefeitura planeja instalar no bairro. A proposta inicial apresentada pela Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) prevê a instalação, às margens da Avenida Engenheiro Roberto Freire, de dois bolsões de estacionamento, área de caminhada, ciclovia, área para equipamentos esportivos e uma área para conservação em apenas um trecho final do parque. O projeto foi visto com desconfiança pelos moradores.

Achamos bom ter uma área de lazer no bairro, mas estranhamos que essa proposta seja feita num espaço onde será preciso fazer desmatamento! Sabemos que aquela é área de proteção ambiental. Hoje é o contrário, cidades estão reflorestando, recompondo sua vegetação e não o contrário. Estranhamos mais ainda porque dentro de Capim Macio há uma área verde que cruza o bairro inteiro, de ponta a ponta”, pondera José Guerra, advogado e morador de Capim Macio há 28 anos.

A área à qual o morador se refere tem cerca de nove quadras e forma um corredor de área verde que atravessa duas Zonas de Proteção Ambiental (ZPAs), indo do Parque das Dunas à ZPA da Lagoinha.

Localização da Área Verde Pública de Capim Macio I Imagem: reprodução

É uma área que serve para os animais cruzarem de uma área à outra. Já que há recursos para o parque, por que não pegar e investir em uma área verde dentro do bairro? Teria mais qualidade de vida e continuaria sendo aberto a todos. É um espaço abandonado há algum tempo, cerca de três quadras estão sem plantas, não tem iluminação, não tem segurança. Entendemos que prefeitura poderia gastar menos e investir em área de lazer, com praça, calçada, passeios, iluminação melhor, com certeza gastaria menos recursos do que nesse Parque Linear e assim estaria oferecendo um parque com mais opções de lazer e levando segurança para todo esse perímetro, que hoje está abandonado”, defende José Guerra.

A Associação de Moradores Amigos de Capim Macio mandou ofício à Semurb dando essa sugestão. No relatório, mostra que uma das quadras chegou até a ser invadida e cercada por particulares que tinham a intenção de construir um prédio no local, o que foi inviabilizado após denúncia e fiscalização da Semurb.

Área já chegou a ser cercada e invadida I Foto: reprodução

Há um descontentamento geral, um questionamento sobre como podem fazer uma intervenção dessa monta numa área de conservação. Os moradores rechaçam qualquer tipo de desmatamento, é uma área de proteção integral, não vemos com bons olhos a retirada de árvores. Há preocupação com a formação de ilhas de calor. Outras cidades têm plantado árvores, não é coisa boa retirá-las”, argumenta Renata Panosso, membro do grupo de trabalho ambiental da Associação.

Os moradores de Capim Macio já se reuniram entre si e acompanharam uma audiência pública convocada de última hora sobre o tema. Na semana passada, o grupo também oficiou a Semurb e o prefeito Paulinho Freire (União) contra a proposta.

Os moradores acham que seria mais interessante recompor a área degradada que já existe, quando era pista de aeromodelismo, ela é visível de alguns prédios próximos. A preocupação é com a pavimentação de mais áreas. Uma sugestão é investir numa área verde pública de Capim Macio que fica por trás do Praia Shopping. É uma região bastante abandonada, pública e sujeita a invasão, o que já ocorreu em algumas situações. Investir ali pode até fortalecer pequenos comércios da área e também ser uma área para moradores e turistas por estar perto do shopping”, sugere Renata Panosso.

O grupo de moradores oficiou tanto o Ministério Público Estadual, quanto o Federal e a Procuradoria do Estado sobre o posicionamento dos moradores e a sugestão de recuperação da área verde do bairro para a implantação de um parque.

A propaganda que preocupa

O que os integrantes da Associação de Moradores Amigos de Capim Macio também têm observado com preocupação é a propaganda da Prefeitura do Natal e de imobiliárias como se o Parque Linear na Avenida Engenheiro Roberto Freire fosse algo já definido.

O que vemos com preocupação é a propaganda até para o mercado imobiliário como se fosse certa a implantação do parque, apesar da Prefeitura ter que seguir todo um trâmite burocrático. As imobiliárias já estão fazendo marketing, passando a ideia de que é algo concretizado, quando não deve ser assim porque a população não foi consultada, além de ser uma área de preservação ambiental, que exige estudo. Isso cria um conflito porque os empresários dão isso como algo certo e quando uma associação coloca um questionamento, é posta como se não quisesse desenvolvimento, o que não é verdade. O desenvolvimento atual é a naturalização, a ideia inovadora e de vanguarda é preservar a natureza e aumentar os espaços da vegetação de forma capilarizada pela cidade inteira e não derrubar árvores para construir algo. Natal vai na contramão do que cidades na vanguarda têm feito”, lamenta Renata Panosso.

Conselho afirma que o Parque Linear fere critérios técnicos, legais e ambientais

O Conselho Gestor do Parque Estadual das Dunas de Natal “Jornalista Luiz Maria Alves” formalizou posição contrária à implantação do Projeto Parque Linear proposto pela Prefeitura de Natal. O entendimento consta do Ofício nº 008/2025 – CGPEDN, datado de 3 de setembro de 2025, endereçado ao secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), Thiago de Paula Nunes Mesquita, em resposta ao Ofício nº 1962/2025 – GS/SEMURB que solicitou manifestação do colegiado. A decisão decorre da 7ª Reunião Extraordinária do Conselho, realizada em 29 de agosto, convocada especificamente para analisar a proposta.

No documento, o Conselho afirma que a proposta da Prefeitura é “tecnicamente, legalmente e ambientalmente incompatível com os objetivos e normas vigentes, pois as características inerentes a um Parque Linear — fluxo contínuo e irrestrito de visitantes, instalação de estruturas urbanas lineares e incentivo a múltiplas atividades recreativas — não se harmonizam com a categoria de Proteção Integral da Unidade”.

O Conselho afirma que a concepção apresentada pela Prefeitura se sobrepõe a áreas do Parque definidas no Plano de Manejo vigente (aprovado pela Portaria IDEMA nº 384, de 26 de julho de 2025) identificadas como Zona de Uso Intensivo 2 (ZUI-2) e, de forma mais sensível, Zona Primitiva 3 (ZP-3).

Críticas

O anúncio do Parque Linear pegou muitas instituições, inclusive aquelas responsáveis pela área ambiental da cidade, de surpresa. Em agosto, a Procuradoria do Estado quis saber se o Idema e o Conselho Gestor do Parque das Dunas haviam sido comunicados pela Prefeitura do Natal da intenção de construir um parque dentro da área do Parque das Dunas, que é de gestão do Governo do Estado.

Depois de ser criticado pela falta de comunicação da Prefeitura do Natal junto ao Conselho Gestor do Parque das Dunas e ao Idema, Thiago Mesquita informou à agência SAIBA MAIS que fez um contato prévio com a presidente do Conselho Gestor e se comprometeu a procurar a instituição oficialmente.

Aeromodelismo

Nas proximidades do calçadão existente atualmente na avenida Engenheiro Roberto Freire, na área dentro da mata, já foi uma pista para pouso de aviões de aeromodelismo.

Mas, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi assinado em 2013 entre Ministério Público Federal, Idema e representantes de grupos do aeromodelismo para que a atividade fosse desmobilizada e houvesse uma recuperação natural da área, o que já teria ocorrido em parte do espaço. Assim, qualquer intervenção no local também precisaria ser conversada com o Ministério Público Federal.

Outro problema apontado ao projeto de construção parque, a exemplo do que ocorreu com a engorda da praia de Ponta Negra e a criação do Complexo Turístico da Redinha, é a falta de participação popular.

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