Projeto da UFRN vai monitorar recifes do RN após perda de 70% dos corais
Natal, RN 12 de jul 2026

Projeto da UFRN vai monitorar recifes do RN após perda de 70% dos corais

9 de outubro de 2025
6min
Projeto da UFRN vai monitorar recifes do RN após perda de 70% dos corais

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Ondas de calor marinhas cada vez mais intensas vêm transformando o cenário dos recifes de corais no Rio Grande do Norte. Entre os municípios de Rio do Fogo, Touros e Maxaranguape, o aumento de até 4 °C na temperatura do oceano provocou a morte de 70% dos corais de fogo nos últimos cinco anos. A constatação é do professor e biólogo Guilherme Longo, do Departamento de Oceanografia da UFRN, que há uma década realiza mergulhos trimestrais na região para acompanhar a saúde dos recifes.

“Os corais têm uma associação com microalgas e o aquecimento interrompe esse processo, de forma que o coral fica branco e perde uma fonte importante de nutrição”, explica o pesquisador. “Durante a onda de calor, a gente monitorou o evento mês a mês, com fotografias e avaliações de saúde. Isso nos permite dizer a porcentagem de branqueamento e de mortalidade.”

Essas transformações ambientais estão no centro das ações do #DeOlhoNosCorais, projeto coordenado por Longo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e vinculado ao Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC). A iniciativa se tornou referência em ciência colaborativa no Brasil, envolvendo mergulhadores, turistas e comunidades costeiras no monitoramento de corais em toda a costa do país.

Criado em 2016, o projeto surgiu como resposta às sucessivas ondas de calor marinhas e aos impactos da crise climática sobre os ecossistemas costeiros. A proposta era dupla: comunicar a ciência de forma acessível, mostrando seus processos e incertezas, e estimular a participação popular.

Com o tempo, a ideia ganhou força. Pessoas de diferentes regiões começaram a enviar fotos e vídeos de corais utilizando a hashtag #DeOlhoNosCorais, junto à localização do registro. O resultado foi um amplo banco de dados que auxiliou pesquisadores em episódios críticos, como o branqueamento em larga escala e o derramamento de óleo de 2019, que atingiu mais de 2 mil quilômetros do litoral nordestino.

“Nós ficamos surpresos com o engajamento e impacto da iniciativa. Rapidamente tivemos contribuições ao longo de toda a costa brasileira, durante eventos de branqueamento e até durante a crise do óleo”, recorda Longo. “Acho que um dos resultados mais significativos foi a detecção de uma espécie invasora nos litorais potiguar e pernambucano, ambas feitas por diferentes cientistas cidadãos, e que desencadearam ações de controle dessa invasão na escala estadual e na federal.

Hoje, o projeto atua em várias frentes. Nas redes sociais, dialoga com jovens, mergulhadores e entusiastas do mar. Em terra firme, o Museu dos Corais, localizado em Maracajaú (RN), recebe turistas e estudantes para vivências educativas. Além disso, há ações de capacitação com mergulhadores recreativos e técnicos ambientais.

“Eu vejo o engajamento como uma relação humana. Não tem receita de bolo. A gente precisa ouvir e conectar para dar certo”, resume o professor.

Foi por meio dessa rede que a bióloga e fotógrafa subaquática Erika Beux descobriu o coral-sol, uma espécie invasora, durante um mergulho em um naufrágio no litoral potiguar. A observação levou a uma parceria com a equipe do projeto. “Um tempo depois, o professor Guilherme entrou em contato comigo e me convidou para participar das expedições de pesquisa. Foi uma experiência maravilhosa e aprendi muito com a equipe do #DeOlhoNosCorais.”

Erika passou a incentivar outros mergulhadores a se tornarem cientistas cidadãos: “Saber que minhas fotografias contribuem para a ciência e para a preservação da natureza é um sentimento de imensa realização. É como se cada foto tivesse um propósito maior: transformar a beleza que vejo em informação, em conscientização e, principalmente, em ação.”

Com milhares de imagens enviadas desde a criação da rede, o grupo desenvolveu um banco de dados inédito. Em 2023, publicou um estudo na revista PeerJ descrevendo como essas fotos foram usadas para treinar modelos de inteligência artificial voltados à identificação de padrões em corais.

A tecnologia alcançou 86% de precisão e reduziu o tempo de análise em quase 200 vezes, custando apenas 1% do valor do processamento manual. “A automação não substitui o trabalho humano, mas amplia sua escala”, explica Longo. “Os cidadãos continuam enviando registros, os cientistas seguem validando os resultados e, nesse processo, a inteligência artificial ajuda a organizar e processar o grande volume de dados.”

Além disso, o projeto utiliza modelos 3D para pesquisas e exposições, e métodos moleculares e genéticos para identificar algas mais resistentes ao aquecimento global.

A perda de corais significa mais do que o desaparecimento de paisagens marinhas exuberantes. Ela implica também a redução de peixes, a queda na renda de comunidades pesqueiras e o enfraquecimento da barreira natural contra a erosão costeira.

“Agora sabemos que perder corais significa também perder peixes associados e outros benefícios importantes como o turismo”, alerta Longo.

Apesar do cenário preocupante, o pesquisador mantém a esperança: “Os recifes não vão desaparecer, eles vão mudar. Isso é certo. Já sabemos quais caminhos eles podem tomar caso a gente não aja. Agora é nossa vez de decidir se vamos lidar com essas mudanças ou não.”

Como participar

Qualquer pessoa pode contribuir com o monitoramento dos recifes brasileiros. Basta fotografar ou filmar os corais e compartilhar nas redes com a hashtag #DeOlhoNosCorais. Cada imagem enviada ajuda a ampliar o conhecimento científico e a fortalecer as ações de conservação.

O Instituto Nacional de Ciência Cidadã (INCC) promove a integração entre pesquisa científica e participação social, estimulando o uso de metodologias colaborativas em projetos de todo o país. A iniciativa é sediada no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e conta com instituições parceiras no Brasil e no exterior.

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