Entre a catástrofe e a estrofe: o país de Geraldo Carneiro
Natal, RN 14 de jun 2026

Entre a catástrofe e a estrofe: o país de Geraldo Carneiro

2 de novembro de 2025
4min
Entre a catástrofe e a estrofe: o país de Geraldo Carneiro

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Pipa (RN) — Há algo de profundamente político na delicadeza. Talvez por isso, quando o poeta, letrista e tradutor Geraldo Eduardo Carneiro subiu ao palco da Tenda dos Autores, na Flipipa, o silêncio que se fez não foi de cerimônia, mas de escuta. Aos 73 anos, o acadêmico da ABL parecia trazer nas mãos um país inteiro, o mesmo que um dia o chamou de “marginal”, e que hoje volta a flertar com a intolerância e o ódio.

“Naquele tempo, ganhamos o rótulo de poetas marginais”, recordou. “Eu sempre me rebelei com esse rótulo. Éramos meninos de classe média, frequentando boas escolas. A palavra ‘marginal’ me parecia descabida. Mas depois percebi que, sim, éramos marginais — em relação à ditadura e ao sistema que nos constrangia. Então, minha madrinha Heloisa Buarque tinha razão.”

O poeta, que ajudou a traduzir Shakespeare e a reinventar a canção brasileira ao lado de Francis Hime, Egberto Gismonti e Wagner Tiso, refaz na fala o mesmo gesto que marca sua obra: a recusa à ordem. Cada verso seu é uma espécie de contragolpe ao autoritarismo, um ato de resistência silenciosa — não por negar o mundo, mas por reinventá-lo.

“A escrita é absolutamente irresponsável”, disse. “Se você ficar mentindo, achando que vai impor às palavras alguma coisa, fica liquidado. As palavras é que te suscitam coisas que você desconhece.”

A afirmação atravessa a noite como um relâmpago — não há quem escreva sem se arriscar, nem quem crie sem se despir. E é talvez esse o fio mais subversivo de sua fala: a poesia como o espaço da verdade em um tempo que faz da mentira uma política de Estado.

Em tempos de desinformação, o poeta fala de um país que aboliu, “por decreto, a realidade”, e inaugurou “uma nova ordem natural”. O poema que escreveu aos 24 anos parece um presságio dos dias de hoje:

“Sou como o rei de um país ensolarado,
e todos os vadios me devem vassalagem…
Aboli por decreto a realidade
e inaugurei uma nova ordem natural.”

Há ironia, mas há também dor. A distopia de Geraldo Carneiro não é ficção — é memória. Ele reflete sobre a obscenidade dos tempos: “A poesia tem uma certa indecência inerente a ela. Essa palavra, obsceno, é mal compreendida. Etimologicamente, significa algo que está distante do olhar. Não é vulgaridade. É aquilo que comunica o que está além da nossa capacidade de enxergar.”

E talvez seja isso o que mais nos falta: enxergar o que foi afastado do olhar. Em um Brasil ainda marcado pela negação da ditadura, pelo avanço do fascismo cotidiano e pela naturalização da violência, a fala de Geraldo Carneiro ressoa como manifesto: é preciso reconectar palavra e país, verbo e verdade.

“Camões era meu ídolo”, contou, entre risos. “Os professores ensinavam de maneira catastrófica. Mas eu achava maravilhoso. A palavra ‘catastrófica’ vem de ‘estrófica’. Ou seja, dentro da catástrofe há sempre uma estrofe possível.”

A frase, dita de passagem, parece condensar toda a sua poética, a crença de que mesmo nas ruínas há ritmo, que mesmo no caos há canto.

Em um país que tantas vezes prefere o esquecimento à escuta, a presença de Geraldo Carneiro na Flipipa foi como um sopro de lucidez. “A criação tem razões que a própria razão desconhece”, citou, lembrando Pascal e o amigo Aldir Blanc. E completou, quase como um conselho a quem o ouvia: “Quando a gente gosta, dura dois dias a paixão. Quando desgosta, é uma pesquisa pra sempre.”

O público sorriu, talvez entendendo que o Brasil vive um pouco dessa pesquisa dolorosa, tentando decifrar o que perdeu, o que calou, o que ainda pode florescer.

No fim, o poeta pediu que tocassem uma canção escrita em parceria com Francis Hime, “sem promessas de paz para retirar”. E a melodia se espalhou pela noite, como um antídoto contra o desespero.

A cada palavra, a cada verso, Geraldo Carneiro reafirma que a poesia continua sendo um ato de insubordinação. Um modo de dizer “não” ao silêncio, de devolver à linguagem o que o poder tenta apagar: a ternura, o espanto, a liberdade.

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