O que pensam os jovens potiguares que vão para a COP30
Natal, RN 12 de jul 2026

O que pensam os jovens potiguares que vão para a COP30

2 de novembro de 2025
10min
O que pensam os jovens potiguares que vão para a COP30
Wilen Ivinen, Heloíse Almeida e Maria Clara Oliveira estarão em evento que vai discutir ações para combater as mudanças do clima - Fotos: cedidas

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Prestes a ser realizada em Belém (PA), a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) vai reunir uma série de líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para discutir ações para combater as mudanças do clima. O Rio Grande do Norte também terá voz por meio da atuação de jovens ativistas climáticos do estado, ansiosos para debater na capital paraense temas como adaptação e justiça climática, financiamento, transição energética, proteção das comunidades tradicionais e mais.

A Agência SAIBA MAIS conversou com três desses jovens ativistas que vão para o evento, a ser realizado de 10 a 21 de novembro. Heloíse Almeida, 21, é aluna de Direito da Ufersa, co-fundadora do Fridays For Future Mossoró e do Nordeste pelo Clima; Wilen Ivinen, 22, é Conselheiro Estadual de Juventude, estudante de Ciências Sociais da UFRN e fundador da Comunidade Ambiental da universidade; e Maria Clara Oliveira, 23, atua como ativista socioambiental, bióloga e educadora.

“A crise climática é o maior desafio do século XXI”, diz mossoroense Heloíse Almeida

A mais jovem entre os três é Heloíse Almeida, de Mossoró. Aos 21 anos, ela é reconhecida como Fellow do Fundo Malala — organização criada em 2013 pela ativista paquistanesa e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai — e Jovem Transformadora da Ashoka, uma das maiores redes de empreendedores e inovadores sociais do mundo. A estudante de Direito da Ufersa desenvolve na sua cidade um cursinho popular gratuito para o Enem.

“Meu ativismo é pautado na incidência política e mobilização de juventudes para tornar o meio ambiente uma pauta central nas políticas públicas. Em Mossoró, já realizamos protestos, abaixo-assinados, denúncias de crimes ambientais, discursos na Câmara de Vereadores, o 1º Debate Político-Ambiental do município, atividades em escolas, universidades e comunidades tradicionais para garantir a conscientização ambiental e um futuro em que a nossa geração possa viver com dignidade”, conta Almeida.

Desde o início de 2025, a estudante articula a parceria entre a Ashoka e o Centro de Análises de Crimes Climáticos (CCCA, na sigla em inglês) para realizar eventos no espaço do Climate Hub do CCCA. Sua ida à COP é resultado do trabalho de base realizado no ativismo climático ao longo de seis anos e está sendo financiada pela Ashoka em razão do seu papel nesses eventos. 

Heloíse Almeida, ao centro, em coleta de assinaturas para projeto Amazônia de Pé – Foto: cedida

Na Conferência, Heloíse já se prepara para uma agenda cheia. Dentre as atividades, está organizando um painel de Litigância Climática e Longevidade, e vai mediar o lançamento do livro Manual de Transformação Climática (versão em português do Climate Changemaker Playbook, desenvolvido pela Ashoka em parceria com o Skoll Centre for Social Entrepreneurship). No dia 14, também está na organização da Greve Global pelo Clima, que terá uma marcha liderada por jovens para cobrar das lideranças presentes na COP compromissos com mudanças sistêmicas para a transição ecológica.

“A crise climática é o maior desafio do século XXI e eu tenho o compromisso pessoal de direcionar todos os meus esforços para fazer tudo que estiver ao meu alcance para garantir a estabilidade climática, a adaptação e a mitigação aos efeitos dos eventos climáticos extremos, porque vivemos um momento de disputa do futuro em que cada movimento define quantas vidas serão afetadas”, defende.

Heloíse explica que a COP em Belém será a primeira realizada em um país democrático após anos e é o marco do terceiro ciclo de NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas). 

“Esses elementos vão fortalecer a pressão da sociedade civil e as mobilizações em torno do evento, que foram mitigadas nas últimas sedes por restrições autoritárias. Espera-se que essa seja a COP da implementação, dez anos após o Acordo de Paris. Precisamos tratar de estratégias para a transição de combustíveis fósseis, métricas e indicadores para o cumprimento do Objetivo Global de Adaptação, precisamos tratar de transição energética justa, fortalecer a cooperação internacional para o financiamento de adaptação climática e mobilizar diferentes setores para garantir um fundo de perdas e danos que corresponda à necessidade dos países em desenvolvimento”, comenta a jovem ativista.

Pré-COP

Nesta última semana, Wilen Ivinen e Maria Clara Oliveira já estavam no Pará, participando de atividades preparatórias à COP30. Eles viajaram por meio do apoio da Engajamundo, uma organização de jovens com frentes de atuação ligadas ao combate a problemas socioambientais. 

“Vou levar a minha cobrança por justiça climática, que conversa com os principais temas que a COP30 precisa lidar e dar respostas aos movimentos ambientais e à própria sociedade sobre a crise humanitária do século XXI, que são as mudanças climáticas”, afirma Wilen. 

Neste ano, Wilen se encontro com a ministra Marina Silva durante a 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente – Foto: cedida

Outro tema que ele considera que não pode ficar de fora dos debates da COP é o financiamento climático, especialmente para que os países do Sul Global tenham capacidade de fazer a transição energética e industrial. Wilen reivindica a necessidade de que os países ricos e aqueles que mais emitiram gases de efeito estufa financiem a adaptação nas cidades. Para ele, o assunto também está relacionado ao enfrentamento às desigualdades sociais. 

“As desigualdades sociais são um dos fatores que fazem com que muitas pessoas morram no mundo todo pela questão da crise climática, seja por enchente, calor extremo, seca, entre outros processos que vão se tornando mais extremos e impossibilitando que as pessoas tenham sua dinâmica social respeitada, que sua cultura seja mantida”, explica.

Pessoas precisam estar no centro das discussões, aponta Maria Clara

Maria Clara Oliveira, de Natal, começou seu ativismo ambiental desde pequena, motivada pela “indignação”, conta. No ensino médio, conheceu a Engajamundo e se envolveu de maneira mais firme com os debates ambientais a partir de 2019. Na COP30, assim como Wilen, ela vai compor o time de ativismo da Engajamundo, pensando novas formas de mobilizar juventudes dentro e fora das negociações.

Dentre os vários temas que vão estar presentes na Conferência da ONU, ela cita a adaptação climática, transição energética justa e financiamento direto para quem cuida das florestas, dos rios e da biodiversidade como alguns dos principais.

“É preciso encontrar soluções, mas sem produzir ainda mais assimetrias, por isso inclusive a relevância da temática de transição justa. O tema é latente no nosso estado, já que temos visto os impactos socioambientais que as eólicas têm gerado no Seridó e em outras regiões. Não existe energia limpa com o sofrimento das pessoas. Por isso espero que seja revista a forma como a instalação desses grandes parques eólicos tem acontecido”, defende.

Maria Clara participa do time de ativismo da organização Engajamundo – Foto: cedida

Segundo a bióloga, é preciso colocar as pessoas afetadas no centro de todas as discussões. 

“Acredito que essa seja uma dificuldade histórica dos negociadores e tomadores de decisão, inclusive. Ouvir e cuidar de quem cuida. A solução já temos. Precisamos fortalecê-la”, define.

A ativista também é crítica do que enxerga como um “descolamento dos nossos políticos e tomadores de decisão em relação à realidade das pessoas”.

“Não há como se falar sobre protagonismo do Brasil na agenda climática e ao mesmo tempo incentivar a exploração de Petróleo na Foz do Amazonas, por exemplo. É incoerente.  Como levar os compromissos das crianças, que querem um planeta vivo pra viver e ao mesmo tempo ajudar com seu colapso? Não existe exploração de Petróleo sustentável”, declara.

Papel dos governos

Os jovens ativistas ouvidos pela reportagem apontam o papel central dos governos no enfrentamento à crise climática. Heloíse argumenta que eles têm o poder de direcionar recursos e definir os indicadores que deverão ser adotados pelos entes subnacionais para garantir um enfrentamento à crise climática. Wilen fala da necessidade dos países terem instrumentos de escuta popular e também pensar em políticas de adaptação, resiliência e formas de frear as emissões de gases de efeito estufa.

“Hoje há certeza de que a crise climática é causada por ação humana, pela histórica emissão de gases de efeito estufa impulsionada desde a Revolução Industrial, que é fundamento do modelo de sociedade em que vivemos hoje, e temos mecanismos de compromisso internacional e de responsabilização dos países que historicamente contribuíram mais para esse cenário”, afirma Heloíse Almeida. 

De acordo com ela, o mundo em que vivemos já é marcado por eventos climáticos extremos que minam a qualidade de vida das pessoas.

“Precisamos da ação direcionada e coordenada dos governos para a implementação de políticas públicas que garantam a transição ecológica, a conservação e reflorestamento dos nossos biomas e as mudanças sistêmicas que vão garantir a nossa capacidade de readaptação a um planeta que foi radicalmente transformado desde a Revolução Industrial e não suporta mais a exploração predatória”, define.

Wilen, por sua vez, comenta que muitos rios do Brasil já passam por seca extrema, e o mar avança em cima de muitos territórios costeiros. Por isso, é preciso pensar alternativas para os grupos que vivem nesses locais. 

“Então o fator do governo é compreender também a sustentabilidade do território e pensar políticas de forma macro e micro, porque não são só soluções globais, mas soluções locais também corroboram nesse enfrentamento climático”, explica.

Segundo Wilen, o Rio Grande do Norte também é um estado que vai ser impactado de forma profunda na mudança climática, por isso a importância de ter jovens potiguares nesse espaço de diálogo internacional. Contudo, o estudante da UFRN e a bióloga Maria Clara reclamam da falta de apoio dos governos locais para que possam ir à Conferência em Belém. De acordo com Wilen, nem o governo estadual nem a Prefeitura de Natal forneceram a ajuda necessária.

“Todos eles foram recorridos para que a gente pudesse ter o mínimo de estrutura para esse evento. A gente recebeu só negativas e nenhum tipo de apoio”, diz Ivinen.

Maria Clara também conta que, apesar de ter tentado, não conseguiu qualquer ajuda de custo dos governos locais: “mas não participar não era uma opção pra mim.”

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