os deuses se retiraram
nada mais nos une
mas o signo ainda
manipula o mundo
é razoável assentar
o céu, para que não percamos
a medida da esfera.
Márcio Simões
Já faz uns anos que ando entusiasmada com um certo tipo de gente: pessoas que, além de escreverem – poetas, escritores, jornalistas, redatores profissionais –, decidiram também se lançar no mundo como os responsáveis diretos por transformarem seus textos originais (e de outros) no produto final pronto para se pegar, abraçar, inspirar, ler, enfim: livros (e impressos em geral, como zines, plaquetes, revistas etc.). Essa gente que tenho designado autores-editores.
Já tive a alegria de conversar com algumas dessas pessoas: Adriano de Sousa ( Flor do Sal), Victor H. Azevedo e Ayrton Badryah (Munganga Edições), Rita Machado (Giro Selo Editorial Artístico), José Correia (Caravela Selo Cultural), Thiago Medeiros e Marina Rabelo (Selo Insurgências Poéticas), Marize Castro (Una Editora), Osair Vasconcelos (Z Editora) são alguns nomes de quem, na condição inicial de autor/a às margens do campo editorial, aprendeu na marra e na garra todas as frentes de ações necessárias para se fazer um livro e, como consequência, acabou por criar seu próprio selo editorial, buscando não só a autopublicação como também a publicação daqueles textos/autores que gostariam de ler.
Recentemente, tive a alegria de conversar com mais uma dessas pessoas, alguém em quem há tempos eu estava de olho: Márcio Simões, poeta, tradutor e editor da Sol Negro Edições. Márcio é formado em Letras e tem mestrado em Estudos da Linguagem, com trabalho sobre a poesia de Murilo Mendes, mas sua atividade profissional mesmo é fazer livros, com toda a artesania e autonomia possíveis, tal como o desejo assinalado no site da Sol Negro Edições, selo criado em 2011:
Editar livros com qualidade literária e gráfica, de maneira acessível e independente, abordando assuntos, autores, visões que estejam à margem dos interesses representados pelas grandes editoras e conglomerados de informação. Arte paga com arte.
Com um catálogo fantástico, que reúne pérolas que vão de William Blake, Francesco Petrarca e H. G. Wells a Walflan de Queiroz, Myriam Coeli e Antonio Pinto de Medeiros, passando por Jota Medeiros, Ana de Santana, Sopa D´Osso e Theo G. Alves, dentre outros em prosa e verso, a Sol Negro alçou planos voltados para uma maior escala de produção, fazendo uso também de gráficas offset e vendendo em plataformas como Estante Virtual.
Mas um dos muitos aspectos que mais me chamou a atenção em nossa conversa sobre sua experiência como um autor que também edita livros, dentre tantos outros, foi a dimensão das parcerias. Tal como nas outras conversas que tive com outros autores-editores, fica muito evidente que a experiência de fazer livros só é possível a partir de uma forte rede de apoio e interlocução no campo editorial. Márcio comprova isso ao fazer referência a nomes fundamentais em sua trajetória, como por exemplo, Camilo Prado, das Edições Nephelibata, com quem aprendeu a arte e ofício dos livros artesanais (feitos em impressoras domésticas, costurados um a um a mão, em tiragens numeradas e caprichadas) ou Adriano de Sousa, da já citada Flor do Sal, com quem publicou seu primeiro livro autoral. Essa rede, em esfera local, muitas vezes tem caráter mais do que profissional, mas também afetivo, afinal, muitos dos títulos de seu catálogo, em paralelo ao seu valor literário, também marcam elos de genuína amizade.
Em mais de dez anos de existência e com mais de 80 títulos lançados, o editor Márcio Simões com a Sol Negro Edições é um caso especial para pensar que bons livros não precisam ser só os das grandes editoras do eixo Rio-São Paulo. E que, embora os livros sejam produtos comerciais, eles podem ser encarados como algo precioso e exclusivo, um objeto cultural que, mais do que simples mercadoria em um mundo de competitividade, materializa energias de afeto, fruto de um esforço editorial e literário coletivo de, cantando a própria aldeia, também ser universal.
Para você também se entusiasmar, conhecer e adquirir os livros da Sol Negro Edições, acesse https://solnegroeditora.blogspot.com/