MAR denuncia exclusão de pescadores do planejamento marinho
Natal, RN 10 de jun 2026

MAR denuncia exclusão de pescadores do planejamento marinho

28 de maio de 2025
6min
MAR denuncia exclusão de pescadores do planejamento marinho

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Durante três dias de intenso debate e articulação política, pescadores, marisqueiras, lideranças comunitárias, pesquisadores e representantes de movimentos sociais reuniram-se em Lagoa Seca, no interior da Paraíba, para reafirmar um princípio básico da democracia: nenhum processo que afete os territórios pode ocorrer sem a escuta e a participação direta de quem ali vive e resiste. De 23 a 25 de maio, o Movimento de Atingidas e Atingidos pelas Renováveis (MAR) promoveu sua Assembleia Geral, elegendo uma nova coordenação nacional e lançando uma carta pública que expõe uma grave omissão no processo de elaboração do Planejamento Espacial Marinho (PEM) no Brasil.

A carta, tornada pública ao final do evento, denuncia a exclusão das comunidades tradicionais de pesca artesanal, especialmente no Rio Grande do Norte, de todas as etapas de formulação do PEM — política que orienta o uso do espaço marinho por diferentes setores, como energia, turismo, transporte e conservação ambiental. O documento alerta para a ausência de transparência e de mecanismos de participação popular no processo conduzido até agora, além da violação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante o direito à consulta prévia, livre e informada às populações tradicionais.

“Não é possível planejar o futuro do mar ignorando quem vive dele”, sintetizou uma das participantes ao fim da assembleia, refletindo o sentimento de urgência que mobilizou as 79 organizações reunidas no encontro — entre associações, sindicatos, federações, comitês e instituições de pesquisa.

O Planejamento Espacial Marinho, segundo a definição da UNESCO, busca organizar de forma racional os usos do mar, equilibrando interesses econômicos, ecológicos e sociais. Na prática, porém, os representantes do MAR denunciam que as populações que historicamente ocupam e cuidam desses territórios — pescadores, marisqueiras, caiçaras, quilombolas e outros povos do mar — foram ignoradas no mapeamento das áreas de uso tradicional, nos diagnósticos ambientais e nos cálculos de impacto socioeconômico.

A carta aprovada em Lagoa Seca pede, entre outras medidas, a reparação dessa exclusão, com definição legal dos espaços de participação social no PEM e o efetivo reconhecimento dos territórios pesqueiros e maretórios, hoje ameaçados por empreendimentos de grande escala — como eólicas offshore, portos privados e monoculturas em áreas costeiras.

A mobilização do MAR também reflete uma crescente tensão entre projetos de transição energética e justiça ambiental no país. O movimento tem alertado que não se pode combater a crise climática às custas do direito de existir dos povos tradicionais. O encontro na Paraíba reafirmou o compromisso coletivo com uma transição que respeite os modos de vida, os saberes ancestrais e o protagonismo das comunidades diretamente afetadas.

Ao tornar pública a carta, o MAR não apenas denuncia uma ausência, mas aponta caminhos para um outro modelo de planejamento — mais democrático, inclusivo e enraizado na vida real das populações costeiras. O documento segue agora como instrumento de luta e pressão política, devendo ser entregue a órgãos do Executivo federal, do Judiciário e a entidades internacionais.

CARTA DE ATENÇÃO DO MAR EM RELAÇÃO À FORMULAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DO PEM – PLANEJAMENTO ESPACIAL MARINHO

Lagoa Seca, Paraíba, 25 de maio de 2025

O Movimento de Atingidas e Atingidos pelas Renováveis – MAR, composto por 79 organizações representativas da sociedade civil, como associações, sindicatos, federações, comitês, grupos e institutos de pesquisa, entre outros, esteve reunido em Lagoa Seca (PB) entre os dias 23 e 25 de Maio de 2025. Por meio de sua Assembleia Geral, o MAR elegeu sua Coordenação Nacional e aprovou como encaminhamento a presente nota de atenção em razão da ausência de participação das comunidades da pesca artesanal do Rio Grande do Norte, no processo de elaboração que ocorre até o presente momento do PEM – PLANEJAMENTO ESPACIAL MARINHO.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO): “O Planejamento Espacial Marinho (PEM) é um processo público de análise, alocação espacial e distribuição temporal de atividades humanas nas áreas marinhas para alcançar objetivos ecológicos, econômicos e sociais que foram determinados por meio de processos políticos. O PEM não é um fim em si mesmo, mas um modo prático de criar e estabelecer um uso mais racional do espaço marinho, bem como as interações de seus usos, a fim de equilibrar as demandas do desenvolvimento e atender aos resultados sociais e econômicos, de forma aberta e planejada”.

Nesse sentido, consideramos fundamental que a formulação e a implementação do PEM levem em consideração a transparência, integração e inclusão social, e a participação ativa daqueles que são os principais atingidos pela distribuição, uso e concessões dos territórios pesqueiros e maretórios do Rio Grande do Norte.

É fato que pescadores, pescadoras e marisqueiras que historicamente constituem os territórios pesqueiros, na terra e no mar, estão excluídos:

(i) Na dimensão econômica, dos processos de mapeamento e identificação dos usos do mar pela pesca artesanal;

(ii) Na dimensão ecológica ou ambiental, do mapeamento de habitats e dos serviços ecossistêmicos que as comunidades da pesca artesanal identificam como regiões prioritárias para a conservação e utilização sustentável do oceano, sobretudo para a adaptação às mudanças climáticas;

(iii) Na dimensão social, da identificação do potencial de trabalho e renda gerado pela pesca artesanal, que de forma negligente tem sido minimizado, e muitas vezes omitido, nos debates sobre o PEM. Ressalta-se ainda a ausência de participação social e principalmente de realização da Consulta Prévia, Livre e Informada que, de acordo com a Convenção 169 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, é um direito dessas comunidades diante de qualquer decisão legislativa ou administrativa que possa afetar diretamente os seus territórios.

Considerando o exposto, reiteramos a nossa preocupação com os procedimentos de formulação do PEM – PLANEJAMENTO ESPACIAL MARINHO, que até o momento não considerou a participação popular, os saberes e os direitos das comunidades fundadoras e constituintes dos territórios pesqueiros no Rio Grande do Norte.

Reivindicamos reparação, com definição dos espaços de participação social previstos em lei e com o efetivo reconhecimento dos territórios pesqueiros nesse processo.

MOVIMENTO DE ATINGIDAS E ATINGIDOS PELAS RENOVÁVEIS – MAR

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