Dor, medo, Alzheimer: artista inaugura exposição nesta quinta-feira (24)
A dor de ver alguém amado perder as próprias memórias e o medo de um dia viver esse apagamento são os pontos de partida para a exposição “Antes que eu me esqueça, eu estive aqui“, do artista visual Miguel Angelo Simioli Campos, que será inaugurada nesta quinta-feira (24), às 17h, na Galeria Conviv’Art, no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A mostra segue aberta à visitação até o dia 20 de agosto, sempre nos dias úteis, das 8h às 16h.
Licenciando em Artes Visuais pela UFRN, Miguel apresenta um conjunto de mais de 50 obras, em linguagens diversas como pintura, instalação e vídeo, que transitam entre o autobiográfico e o coletivo, entre a fragilidade da memória e a potência da resistência. Sua arte emerge de uma experiência íntima: acompanhar o avanço do Alzheimer em sua avó. “Ela repetia meu nome como se fosse a única palavra que ainda restava nela, mas já não sabia quem eu era”, relata o artista. Essa vivência se transforma em criações visuais que colocam em evidência a complexidade emocional e a crueza da doença.
No entanto, a exposição não se limita a um relato afetivo. Ela mergulha também nas inseguranças pessoais do artista quanto ao futuro, em especial o medo de passar pela mesma condição. “Expressar meu medo é libertador, mas, ao mesmo tempo, é, ironicamente, aterrorizante”, afirma Miguel. A produção se constrói como um campo de batalha entre o pânico de perder a si mesmo e a tentativa de permanecer, pelo gesto, pela cor, pela forma.
A narrativa visual proposta por Miguel se distingue por não suavizar a representação da doença. Pelo contrário, busca desnudar a realidade que muitos preferem ignorar. “As pessoas tendem a focar na empatia com o paciente, mas esquecem da realidade crua e hedionda do Alzheimer. Eu me recuso a sentir pena dessa doença. Quero retratá-la como ela é, como a vi e como sinto que ela deve ser representada”, defende o artista.
Além do enfoque na memória e no Alzheimer, a exposição também cruza vivências de identidade de gênero. Miguel, pessoa trans, insere sua experiência de vida no trabalho, tratando de questões como a perda e a construção da identidade, tanto no âmbito da doença quanto na travessia de corpos dissidentes. “Alguns retratam, por meio de metáforas, o esquecimento que vem com a doença; outros tratam do desespero da perda de identidade, onde entro também no território trans, que faz parte da minha vivência”, explica.
Essa abordagem sensível, crítica e contemporânea transforma a exposição em um espaço onde diferentes formas de apagamento são colocadas em tensão: o esquecimento forçado pela doença, o silenciamento social das identidades trans, o medo da morte da memória. As obras funcionam como gritos silenciosos, registros fragmentados de um ‘eu’ que se recusa a ser apagado.
A proposta ainda convida o público a participar ativamente da experiência, com algumas obras interativas que buscam provocar reflexões pessoais sobre o que se apaga, o que se retém e o que nos constitui como sujeitos. Em meio a cores densas, silêncios visuais e metáforas impactantes, Miguel constrói uma poética do enfrentamento, onde a arte se revela como forma de sobrevivência e testemunho.
Serviço
Exposição “Antes que eu me esqueça, eu estive aqui”
Local: Galeria Conviv’Art – Núcleo de Arte e Cultura (NAC/UFRN)
Endereço: Campus Central da UFRN, próximo à Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM)
Abertura: 24 de julho de 2025, às 17h
Período de visitação: 24 de julho a 20 de agosto de 2025
Horário: Segunda a sexta-feira, das 8h às 16h
Entrada gratuita