Como é feita uma Ball em Natal; Agúenta OTA resiste no bairro da Ribeira
No centro do baile, um corpo gira, desfila e reivindica espaço. Assim pulsa a Ballroom, movimento artístico e político que nasceu nos bailes do Harlem, em Nova Iorque, nos anos 1960 e 1970, com forte protagonismo de pessoas negras, latinas e LGBTQIAPN+. Criada como espaço de resistência e empoderamento, a Ballroom transformou a performance em narrativa, tecnologia e estratégia de sobrevivência.
Na última década, o movimento chega ao Brasil e, em 2023, se firma no Rio Grande do Norte. Em Natal, a cena Ballroom vem ganhando força com fomentos como a realização de treinos e Balls, entre eles a Agúenta OTA.
Uma Ball fixa no calendário
Inspirada no Open To All Entertainment, de Nova Iorque, a Agúenta OTA é um projeto idealizado pela Casa de Acúenda. A proposta é de realizar Balls todo mês, criando frequência e continuidade para a comunidade local.
“Produzir uma Ball é difícil, e produzir uma Ball todo mês é quase impossível. Mas conseguimos porque acreditamos no potencial da nossa comunidade”, conta Vitoria Um Milhão, mãe fundadora da Casa de Acúenda. Para ela, o baile é espaço de pertencimento e de possibilidade.

Fomento, desafios e Ribeira
O evento acontece no Clube Frisson, na Ribeira, parceiro fundamental que oferece estrutura física, som, iluminação e segurança. Mas manter a Ball viva exige criatividade financeira. Sem patrocínio fixo, a produção sobrevive de doações via Pix, bingos, venda de comidas e apoio da própria comunidade.
O bairro da Ribeira, histórico e antigo de Natal, viveu décadas de abandono após perder seu protagonismo econômico e cultural. Hoje, iniciativas como o Clube Frisson e outros projetos artísticos ocupam o espaço, transformando ruas e prédios em territórios de resistência, celebração e vitalidade cultural, buscando reaviver os fomentos na região.
“Nossa meta é transformar essas funções em trabalho reconhecido e remunerado. Produzir uma Ball envolve mais de dez pessoas, todas fundamentais. Esse é o futuro que buscamos: geração de renda e de trabalhos”, reforça Vitoria.
A engrenagem coletiva
Nos bastidores, diferentes funções sustentam a realização do baile. Lagunna 007, responsável pelo staff e pelos GrandPrizes, define sua missão como um exercício criativo: “Um prêmio bem feito é a identidade da Ball. Ele precisa ser desejado, precisa carregar história. Isso motiva quem pisa na passarela a dar tudo de si”.
Jai de Acúenda, fotógrafe oficial, vê sua lente como extensão da própria passarela: “Fotografar não é apenas registrar a noite, mas criar memória e acervo histórico. Cada clique é uma forma de afirmar que existimos”, reflete.
Também no audiovisual, Caeu 007 grava e edita os vídeos para o YouTube, ampliando o alcance da cena: “Os registros são fundamentais para quem não pode estar presente e para levar nossa Ballroom RN para o mundo”. Confira:
ANT 007, que circula entre fotografia, lives e organização: “Cada edição é uma oportunidade de fortalecer nossa comunidade e dar visibilidade a corpos que muitas vezes não têm espaço”, afirma.
E enquanto tudo acontece, Dio 007 alimenta o público com salgados veganos e bolos preparados no mesmo dia do evento. “É sobre economia comunitária. O dinheiro circula e volta para a Ballroom RN. Ninguém passa fome e fortalecemos a cena”, explica. A equipe também conta com Bardini 007 na iluminação e organização dos bailes.
A proposta envolve mais de dez pessoas diretamente na produção de cada edição, entre DJs, MCs, fotógrafos, videomakers, designers, jurades e performers. Para garantir a continuidade do projeto, foi criado um sistema de doações democráticas através de Pix ([email protected]).
Intercâmbio e expansão
Após dois anos como cultura viva em Natal, a Ballroom potiguar fortaleceu laços com outras cenas do país. Novas casas abriram capítulos no RN, como a Casixtranha (SP), Casa da Baixa Costura (PB), Casa das Benvenutty (PB), Casa de Kd Carlota (interestadual) e House of De Lá (SP).
Esse intercâmbio sinaliza um futuro promissor. Participações em grandes eventos da cidade, além dos treinos semanais gratuitos, ampliam o alcance e o engajamento da comunidade. A cada passo, a Ballroom RN expande horizontes, ganha visibilidade e se consolida como força cultural e tecnologia que impulsiona o trabalho, vida e criatividade de corpos dissidentes.
Fotos: ANT 007
Traquejos futuros
Seja em seu nascimento em Nova Iorque ou nas ruas da Ribeira hoje, a Ballroom permanece como uma verdadeira escola de vida. “É onde podemos materializar nossas vitórias e possibilidades”, resume Vitoria. Em Natal, esse espaço se torna ainda mais urgente diante da escassez de patrocínios contínuos, do abandono da cultura feita por corpos trans e travestis.
“Saiu de moda o arco-íris. Mas seguimos. O mundo gira, a Ball continua. O que precisamos é de apoio contínuo”, conclui a mãe fundadora da Casa de Acúenda.
Enquanto a passarela se enche de passos firmes, poses desafiadoras e criações de moda impecáveis, a comunidade potiguar se fortalece como movimento essencial para uma cidade mais plural e acolhedora.
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