Entre tradição e novidades, o Alecrim se reinventa em plataformas como o TikTok
Diz o ditado popular que no Alecrim se encontra de tudo! Entre a muvuca do trânsito, a passagem estreita entre os ambulantes e o vai e vem de gente, o bairro mais popular de Natal se reinventa não só na oferta de produtos, mas em sua estratégia de divulgação. Para quem quer ir direto ao ponto, sem perder tempo batendo perna, já pode fazer uma consulta prévia, antes de sair de casa, isso porque não faltam vídeos com resenhas de produtos e lojas do bairro no TikTok.
“Às vezes me mandam ou me marcam. Estamos sempre estudando esse movimento. Tentamos replicar de alguma maneira, identificamos o que está atraindo o cliente, o que está na moda. Isso é importante também porque transmitimos essa visão, essa estratégia para os lojistas”, revela Matheus Feitosa, presidente da Associação dos Empresários do Alecrim (AEBA).
Kay percebeu esse público potencial e passou a fazer os vídeos da loja, que batem na casa dos milhares de visualizações.
“Já fui reconhecida no ônibus, no banheiro do Midway como a menina que faz os vídeos. A gente que grava com os próprios funcionários. Um dos melhores meios de divulgação que temos hoje é o TikTok e o Instagram e sempre tento passar alho divertido para os clientes. Muitos vêm até a loja por causa dos vídeos e comentam, chama muita atenção. A maioria dos nossos clientes vêm por causa das redes”, avalia Kay Barbosa, social media da Zapym.
Alguns lojistas fazem seus próprios vídeos, outros fecham parcerias, mas também acontece dos próprios clientes gravarem resenhas espontâneas.
“A maioria dos vídeos são os próprios clientes que fazem e postam. Isso traz um público bem mais jovem, às vezes juntam a turma, gravam e postam, quando pensa que não, tão procurando algum produto que viram no TikTok”, conta Flaviana Lopes, gerente da Le Jú Biju.
Foi o caso de Maria do Rosário, que é técnica em enfermagem e costuma consultar o TikTok antes de sair de casa.
“Foi assim com a Le Jú Biju, conheci a Zapym pelo TikTok também… acompanho. Prefiro ver os vídeos, quando alguém faz um ‘arrume-se comigo’ e diz onde comprou todas as peças, já serve como inspiração”, revela.

Kátia Jacó diz que entende pouco de internet, mas já notou que os vídeos postados pelo TikTok recebem mais visualizações do que em outras redes sociais.
“Tem gente que vem conhecer a loja por causa dos vídeos. É minha filha que cuida dessa parte, às vezes fazemos parcerias e notamos que faz efeito”, admite a comerciante, dona de uma sapataria no Beco do Café.


A direção da AEBA tem até discutido com o Sebrae a criação de uma campanha que leva em conta os negócios virtuais realizados pelos comerciantes do bairro.
“A proposta é lançar a campanha ‘Compre no Alecrim sem sair de casa’ porque alguns lojistas estão tendo essa percepção que é preciso investir mais no digital e nós temos grandes concorrentes que são empresas mundiais, como a Shopee, a Ali Express, Amazon, Magazine Luíza, são mega e-commerces. Mas, não é fácil fazer com que todo mundo adira a esse modo de vender, colocam dificuldades porque não contratam alguém para isso, nem sabem fazer, mas tem muita gente se qualificando para isso”, acredita Matheus Feitosa.

Uma das preocupações da direção da AEBA é conseguir unir a oferta de serviços físicos e digitais, sem perda de qualidade para o consumidor.
“Depois da pandemia tivemos que avançar muitos anos à frente no atendimento digital, então, com isso, estamos sempre preocupados em unir o físico ao digital. Nunca deixar de dar importância ao atendimento presencial, que muitas vezes faz com que o cliente leve mais produtos, é também uma oportunidade de experimentar algum produto, verificar os detalhes. Muitas lojas estão servido de showroom, faz os pedidos pelo celular, pede a um motoqueiro para buscar e deixar em casa ou no trabalho“, observa Matheus.
Tímida, a Yasmin Lima é gerente de uma loja de variedades no Alecrim, mas ainda não se animou para gravar vídeo, apesar de já ter na internet resenhas com promoções da loja dela.

“Foram espontâneas, eu até já tentei gravar, mas não me animei muito ainda. A gente até pensa nisso”, justifica.
Segundo os especialistas, a comerciante pode estar perdendo uma boa oportunidade não apenas de vender, mas de criar vínculo com o público e uma imagem da loja no universo virtual.
“O TikTok virou um grande palco para o varejo, uma vitime viva, que prende a atenção do consumidor, mas ainda precisa ser melhor trabalhada para alcançar resultados além dos likes, afinal lojista vive de venda e resultados. Muitos ainda enxergam o TikTok como uma rede apenas de dancinhas e piadas, mas o público jovem, em especial a geração z, que hoje dita tendências de consumo, usa a rede social como ferramenta de busca para tudo. Informação, compra, diversão. Alguns varejistas já perceberam essa oportunidade e vem experimentando formatos criativos, seja mostrando bastidores da loja, apresentando produtos de forma divertida ou até permitindo ao consumidor criar um modelo a ser vendido na loja, isso é mais comum em lojas de vestuário, como por exemplo a batalha de looks montados pelos consumidores e posto para votação na rede social, isso gera engajamento e ainda converte venda”, detalha a consultora em comunicação para vendas, Luciana Tito.

Pois é, mais do que uma relação de compra e venda, os vídeos também criam uma relação afetiva com o bairro, que está entre os mais antigos da cidade.
Uma das características dos comércios do Alecrim é, justamente, o fato de 40% das empresas serem familiares, ou seja, estão nas mãos de uma mesma família há gerações.
“Isso, às vezes, causa um certo ruído de gerações porque o filho quer implantar alguma mudança e até que o pai e a mãe entendam que aquilo é um investimento, leva tempo. Temos modelos de sucesso, como no caso da Pop Calçados. Lá quem toma de conta da parte de venda online e rede social é a filha. A rica história que o Alecrim tem também facilita na hora de produzir algum tipo de conteúdo”, acredita Matheus.
Roupa, sapato, maquiagem, bijuterias… João Paulo se especializou em fazer a divulgação dos pequenos negócios e hoje ele vive desse tipo de trabalho.
“Não tenho TikTok, mas trabalho com humor e divulgações em outras plataformas, sou bem desenrolado, trabalho com tudo um pouco. Isso começou depois de uma depressão, comecei a gravar para me libertar e acabaram se tornando virais“, explica o influencer.
No camelódromo e entre os ambulantes também não faltam influenciadores, afinal, a concorrência é grande.
“São mais de 400 bancas aqui. Além disso, tem as lojas de preço único, se você for lá agora, vai ver que estão lotadas”, ressalta Vagna Ângela, comerciante.
“Eu usava o TikTok para poder editar os vídeos do trabalho, para colocar os efeitos, foi assim que conheci. Eu usava mais como ferramenta de trabalho, na época atuava na área de cabelos, mas hoje pego situações do cotidiano e faço um roteiro. A gente que trabalha com o comércio tem muita história para contar”, brinca Jéssica Rodrigues, comerciária.

Para quem ainda está na dúvida sobre os efeitos das redes sociais, quem pesquisa o assunto é taxativo.
“O segredo está no equilíbrio: não basta entrar na onda das trends para aparecer, é preciso conectar o conteúdo com a proposta da marca e com o desejo do consumidor. O lojista que entende o TikTok como vitrine digital sai na frente. A rede permite contar histórias curtas, diretas e com emoção, e isso conecta as pessoas, prende a atenção”, avalia Luciana Tito.
Para quem ficou mais curioso para conhecer algum cantinho do Alecrim, fica o convite para uma visita, tanto virtual, quanto presencialmente.