Em cada traço de grafite que colore os muros da comunidade da África, na zona Norte de Natal, há uma aula viva de educação popular. No centro desse processo está Miguel Carcará, rapper, artista visual, educador e militante do hip-hop, que há mais de duas décadas transforma a arte em ferramenta de resistência e de formação humana. À frente do projeto sociocultural AfriCores, Carcará tem semeado um movimento que une arte, ancestralidade e transformação social.
Natural de João Pessoa (PB), Miguel chegou a Natal nos anos 2000 e, desde então, constrói uma trajetória marcada pela valorização das periferias. Pedagogo de formação, coordena o Movimento Cultural Nossos Valores, onde promove oficinas de grafite, break, MC, trançado e outras expressões da cultura urbana. O AfriCores nasceu desse mesmo espírito: de um mutirão de grafite, transformou-se em um projeto permanente de educação popular através da cultura hip-hop, consolidado dentro da comunidade e com forte adesão de crianças, jovens e famílias.
Hoje, o espaço é reconhecido por seus resultados concretos: a Supernova Crew, grupo de dança formado por adolescentes da comunidade; o Coletivo 08, de artistas do graffiti da Redinha; e as jovens profissionais transistas que descobriram novas formas de sustento e autonomia a partir das oficinas. “O AfriCores é um elo entre a arte e o território. Ele faz com que as pessoas se reconheçam como parte de uma cultura potente, viva e transformadora”, explica Carcará em entrevista ao Saiba Mais.
A educação que nasce na periferia
Para o educador, o hip-hop é uma linguagem que ensina pela própria prática. “A cultura hip-hop sempre foi um campo de aprendizagem múltipla: quem dança, ensina; quem grafita, comunica; quem canta, forma pensamento crítico”, afirma. Essa pedagogia das ruas é o que sustenta a base do AfriCores, uma experiência de educação popular que rompe com os muros da escola tradicional e se conecta com o cotidiano das pessoas.
Segundo Carcará, aprender no quilombo, na aldeia, na rua ou na cela faz parte da mesma lógica de troca de saberes. “A educação popular é ancestralidade em movimento. Ela é o que o hip-hop sempre fez: ensinar e aprender junto com o povo”, defende.
Mas manter essa estrutura viva não é tarefa simples. Os maiores desafios, segundo o artista, são estruturais e financeiros. Tornar as ações contínuas e garantir espaços dignos para a criação e a formação ainda é um obstáculo. “Desenvolver cultura hip-hop na periferia é fácil, porque ela já nasce dali. Difícil é estruturar e manter”, pontua.
O nome “Carcará” carrega a simbologia de um pássaro forte, atento e resistente, atributos que também definem o artista. Sua história de enfrentamento ficou marcada em abril de 2023, quando, prestes a receber o título de cidadão natalense na Câmara Municipal de Natal, foi impedido de entrar no plenário por estar vestido com as roupas típicas do hip-hop, de boné e bermuda.
A recusa da presidência da Casa provocou debate público sobre preconceito institucional e discriminação estética. Mesmo assim, Carcará e seus parceiros decidiram comparecer com suas vestes características, reafirmando que o hip-hop também é uma cultura popular legítima, com identidade própria, tão simbólica quanto as roupas do Boi de Reis, do Coco ou dos povos indígenas.
O episódio expôs o abismo entre os códigos de poder e as expressões culturais das periferias, mas também reforçou o papel de Carcará como símbolo de resistência. Sua presença naquele espaço, ainda que contestada, representou o ingresso de uma cultura popular periférica em um ambiente historicamente excludente.
O impacto do AfriCores ultrapassou os limites do bairro da África. Em 2024, o projeto ganhou visibilidade nacional ao estrelar o primeiro episódio da segunda temporada da série “Nossas Vozes”, do Instituto Neoenergia, que apresenta histórias de lideranças sociais transformando suas comunidades.
Com o apoio do Instituto, o projeto se expandiu, profissionalizou suas ações e consolidou o papel de Carcará como referência em educação popular urbana. “Meu desejo é dar visibilidade ao trabalho de artistas que representam suas comunidades, para que tenham estrutura e sofram menos do que a gente sofreu”, contou o educador, em entrevista à série.
Mais recentemente, Carcará levou sua voz e poesia ao litoral sul potiguar: participou da Flipipa 2025, integrando a mesa literária “A Ninhada da Velha: romanceiro Tibau do Sul”, no Hotel Pipa Lagoa. No encontro, sua fala reafirmou o hip-hop como linguagem literária e poética que também narra as realidades das margens. Confira:
Com esse trabalho, Miguel Carcará segue sendo um elo entre arte, política e educação. Seu trabalho é uma aula de como o hip-hop pode ser mais que ritmo e expressão, pode ser um projeto de mundo. Entre as paredes pintadas de cores vivas e os versos que ecoam nas vielas da Redinha, o AfriCores reafirma uma certeza: educar é resistir.
E resistir, para Miguel Carcará, é manter vivo o que o hip-hop ensina desde o início, que a periferia não é ausência, é onde as coisas incríveis nascem.
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