O mangue tem voz de mulher
Natal, RN 7 de jun 2026

O mangue tem voz de mulher

7 de junho de 2026
14min
O mangue tem voz de mulher
Mulheres de diferentes territórios compartilhavam experiências marcadas por desafios semelhantes | Foto: Jana Sá

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Era muito cedo ainda quando as primeiras panelas começaram a chegar à sede da Associação das Mulheres Pescadoras Artesanais de São José da Coroa Grande (AMPAS), município de Abreu do Una, litoral sul de Pernambuco, na manhã do dia 30 de maio.

O cheiro de café coado se espalhava pelo espaço enquanto mulheres organizavam mesas, descarregavam alimentos e ajeitavam os últimos detalhes de um encontro que, embora tivesse a forma de festival, carregava significados muito mais amplos.

Vestiam a mesma camisa. Algumas traziam os filhos pela mão. Outras carregavam travessas, panelas e bandejas com os frutos do mangue que mais tarde seriam comercializados. Crianças corriam entre as árvores. Ao fundo, o manguezal seguia seu movimento silencioso, moldado pelas marés e pela vida de quem depende dele para existir.

Na parede da associação, um mural recém-pintado parecia acompanhar toda aquela movimentação. Construído a partir das histórias compartilhadas pelas mulheres da comunidade, o painel foi criado pelo artista Mario Mozart Marques Nunes como uma forma de registrar aquilo que, durante muito tempo, permaneceu invisível.

O mural surgiu justamente desse processo de escuta e interação com a comunidade”, explicou.

 Painel criado pelo artista Mario Mozart Marques Nunes | Foto: Jana Sá

Mais do que uma pintura, a obra se tornou uma espécie de mapa afetivo do território. “Eu gostaria que, quando as pessoas olhassem para ele, lembrassem da vida de quem vive aqui, das histórias dessas mulheres e da comunidade. Não é apenas pintura. Não é apenas arte.

Mario afirma que apenas utilizou a ferramenta que possui para contribuir com uma história construída por outras mãos. “O mérito é todo delas. Eu apenas utilizei a ferramenta que tenho para contribuir e dar visibilidade a essa história.”

Naquela manhã, porém, não era apenas o mural que contava uma história.

As próprias mulheres haviam decidido narrá-la.

Realizado pela segunda vez, o Festival do Mangue reuniu pescadoras artesanais, lideranças comunitárias, representantes de movimentos sociais, pesquisadores e integrantes do poder público para discutir os desafios enfrentados pelas comunidades pesqueiras da região. Mas também foi um espaço de celebração, troca de experiências e fortalecimento coletivo.

Da invisibilidade ao reconhecimento

Eu sou uma mulher preta, mãe solo e pescadora artesanal.

Quando Mirelly Gonçalves se apresenta, não há hesitação. Presidenta da AMPAS e integrante da coordenação da Articulação Nacional das Pescadoras, ela cresceu acompanhando a rotina da pesca sem perceber que também fazia parte dela.

Filha de pescador artesanal, foi criada pelo pai após perder a mãe ainda criança. Como tantas outras mulheres das comunidades pesqueiras, passou a infância participando de atividades fundamentais para a cadeia produtiva da pesca, mas sem que esse trabalho fosse reconhecido como tal.

“Meu pai levava meus irmãos para pescar. Nós ficávamos na beira da praia esperando o barco chegar para lavar o pescado, beneficiá-lo, remendar redes e realizar tantas outras atividades fundamentais. Mas esse trabalho não era reconhecido como pesca.”

A mudança veio por meio dos processos de formação política realizados junto às comunidades pesqueiras.

Foi nesse percurso que Mirelly passou a compreender que a pesca artesanal envolve muito mais do que a imagem tradicional do pescador em alto-mar.

Eu fazia parte desse processo. Não era porque eu não ia para o mar que deixava de ser pescadora.

Hoje, uma das principais bandeiras da associação é justamente o fortalecimento dessa identidade.

Atualmente, a AMPAS reúne cerca de 120 mulheres cadastradas e com Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP). Mas, para Mirelly, o documento é apenas parte da luta. “Não se trata apenas de ter o RGP. É também dizer, no Cadastro Único, no Bolsa Família, na escola dos filhos e em qualquer espaço do território, que é pescadora.

Embora sustentem parte importante da economia pesqueira local, muitas mulheres ainda aparecem registradas como donas de casa em cadastros públicos, unidades de saúde e outros serviços.

A pessoa compra o meu produto, sabe que eu vivo da pesca, mas, quando vai preencher minha ficha, coloca que eu sou dona de casa. Dona de casa todas nós somos, mas também temos uma profissão.

A disputa pelo reconhecimento profissional acompanha a trajetória das mulheres pescadoras há décadas. Foi a partir da mobilização iniciada ainda nos anos 1970 que elas passaram a conquistar o direito ao registro profissional e ao acesso a políticas públicas antes restritas aos homens.

Por isso, para Mirelly, afirmar-se pescadora continua sendo um ato político. “Antes de qualquer coisa, eu digo às mulheres: vão se apresentar nos lugares como pescadoras, porque a nossa profissão é pescadora artesanal.”

Um processo construído ao longo de meses

Embora tenha acontecido em apenas um dia, o Festival do Mangue é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de meses. Oficinas, encontros, debates sobre direitos previdenciários, mudanças climáticas, educação ambiental, identidade e defesa dos territórios antecederam o evento.

Segundo o sociólogo e educador popular Erick Morris, que acompanhou a construção da iniciativa, a proposta nasceu a partir de uma demanda da própria associação.

O projeto surgiu de uma iniciativa de Mirelly e da AMPAS. A demanda era trabalhar questões socioambientais, direitos previdenciários das pescadoras e formação política.

A partir daí foi construída uma articulação envolvendo educadores populares, organizações da sociedade civil, pesquisadores e lideranças comunitárias.

O processo foi construído em diálogo permanente com a associação. Foi se formando uma triangulação entre direitos previdenciários, formação política, educação ambiental e fortalecimento organizativo”, explica.

O sociólogo e educador popular Erick Morris acompanhou a construção da iniciativa | Foto: Jana Sá

Uma preocupação permanente era garantir a participação das mulheres sem ampliar a sobrecarga dos cuidados. Por isso, todas as atividades contaram com espaços voltados para crianças e adolescentes, acompanhados por educadores da própria comunidade.

Não era apenas uma forma de cuidar das crianças. Também havia uma dimensão pedagógica, ligada ao território, à cultura local e à educação ambiental”, afirma Erick.

Ao longo desse processo, a AMPAS ampliou sua participação em espaços de decisão e fortaleceu sua atuação política. Mas havia um objetivo que atravessava todas as atividades, o de reafirmar que o manguezal não é apenas um recurso natural. É território. É cultura. É modo de vida.

Muitas pessoas tinham nojo de pisar na lama do mangue. Mas é justamente nessa lama que mulheres pretas, pescadoras e marisqueiras trabalham diariamente para alimentar suas famílias e o Brasil”, resume Mirelly.

O futuro também estava no palco

Entre as apresentações culturais do festival, um dos momentos mais celebrados foi a participação do grupo Filhos do Una.

Crianças e adolescentes ocuparam o espaço com música, dança e manifestações ligadas à cultura local.

Grupo Filhos do Una | Foto: Jana Sá

A cena dialogava diretamente com uma preocupação recorrente entre as lideranças presentes: como garantir que as novas gerações permaneçam conectadas aos seus territórios sem abrir mão do acesso à educação e a novas oportunidades.

Muitas expressões culturais dos nossos territórios estão desaparecendo”, observou Kelly Flôr durante as atividades.

Para Mirelly, a permanência da juventude passa por um equilíbrio delicado.

Queremos que nossos filhos e filhas possam estudar, ingressar na universidade, mas que também retornem para fortalecer seus territórios e suas comunidades.

Quando Nasarethé apareceu na tela

O sol ainda estava alto quando o silêncio tomou conta do espaço.

Reunidas diante da tela montada para uma mostra audiovisual levada ao festival pelo Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, as participantes acompanharam a história de Maria Nasareth dos Santos.

Exibição do documentário que narra a história de Maria Nasareth dos Santos | Foto: Jana Sá

A exibição integrava uma programação voltada à reflexão sobre conflitos territoriais, proteção de lideranças ameaçadas e defesa dos direitos das comunidades tradicionais.

Naquele momento, as imagens das ilhas de Sirinhaém deixavam de contar apenas a trajetória de uma pescadora. Falavam também sobre expulsões, violência e resistência.

Durante décadas, dezenas de famílias viveram nas ilhas de Sirinhaém, retirando do mangue e da pesca os meios para sobreviver. Aos poucos, foram expulsas. Casas foram destruídas. Comunidades foram desfeitas.

Nasareth tornou-se símbolo dessa resistência.

A história emocionou muitas participantes.

O que me marcou muito foi o final do filme sobre Nasareth, porque ele retrata uma realidade muito verdadeira, principalmente para a vida das mulheres pescadoras artesanais”, disse Sandra Franco, presidenta da Colônia Z-6 da Barra de Sirinhaém. “Eles são os peixes grandes, e nós somos os peixes pequenininhos.

Mas, segundo ela, algo mudou. “A nossa voz hoje fala mais forte do que nunca.”

As ameaças variam de território para território. Podem vir na forma de uma usina, de um empreendimento turístico, da especulação imobiliária ou de obras que alteram profundamente os modos de vida locais. O conflito, porém, permanece o mesmo: a disputa pelo território.

Mulheres que se reconhecem na luta umas das outras

Esse sentimento apareceu de forma ainda mais evidente na roda de conversa que reuniu lideranças de diferentes comunidades pesqueiras.

Ao lado de Mirelly Gonçalves estavam Helena Nascimento, conhecida como Leninha, presidenta da Associação Mangue Mulher de Maracaípe; Nadiedja Silva Santos, presidenta da AMA Associação de marisqueiras de Acaú; Madalena Santos, presidenta da Colônia de Pescadores Artesanais e Marisqueiras Z-5 de Tamandaré; Sandra Franco, da Colônia Z-6 da Barra de Sirinhaém; Simone Lourenço, coordenadora-geral do Fórum Suape Espaço Socioambiental; Maria das Neves Chaves, coordenadora do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos; Circe Monteiro – Coordenadora do Projeto Maretórios Sustentáveis/UFPE; Eduarda Semeão da Silva (Duda), associada da AMPAS; Negra Linda, emprendedora social; e Suana Medeiros Silva, coordenadora-geral de Territórios Pesqueiros e Integração de Políticas Públicas do Ministério da Pesca e Aquicultura.

Roda de conversa reuniu lideranças de diferentes comunidades pesqueiras | Foto: Jana Sá

Mulheres de diferentes territórios compartilhavam experiências marcadas por desafios semelhantes: pressão de grandes empreendimentos, degradação ambiental, mudanças climáticas, violência contra lideranças e ausência de políticas públicas.

No centro da roda estava uma constatação simples. Nenhuma delas estava sozinha. Durante o encontro, uma carta pública elaborada pela AMPAS foi lida por Eduarda Semeão da Silva, uma das associadas da entidade.

O documento reafirma a importância da pesca artesanal para a segurança alimentar, para a preservação dos manguezais e para a manutenção dos modos de vida tradicionais. Também denuncia ameaças cada vez mais presentes nos territórios pesqueiros, como a especulação imobiliária, o turismo predatório, a poluição das águas e a degradação ambiental.

Entre as reivindicações estão a proteção dos territórios tradicionais, a regulamentação do tráfego de embarcações turísticas em áreas de pesca, investimentos em infraestrutura comunitária, fortalecimento da economia solidária, ampliação do acesso à saúde e apoio à comercialização dos produtos da pesca artesanal.

A carta também chama atenção para demandas que atravessam a vida das mulheres para além do trabalho. As pescadoras defendem a construção de uma creche comunitária, políticas educacionais voltadas para os territórios pesqueiros, formação política, letramento racial, incentivo à permanência da juventude nas comunidades e ampliação do acesso ao ensino superior.

Outro ponto central do documento é o direito das comunidades participarem das decisões que impactam seus territórios. As pescadoras reivindicam o respeito à Consulta Livre, Prévia, Informada e de Boa-fé, prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e defendem que nenhuma obra, empreendimento ou política pública seja implementada sem ouvir quem vive e trabalha nesses espaços.

Ao final da leitura, ficava claro que a carta não falava apenas sobre São José da Coroa Grande. Ela expressava preocupações compartilhadas por comunidades pesqueiras de toda a Costa dos Corais.

A mensagem era direta: “Nenhuma decisão sobre nossos territórios sem nós.

Reconhecer o território

Um dos momentos mais simbólicos do festival foi a entrega das portarias relacionadas aos Projetos de Assentamento Agroextrativistas (PAEs) de São José da Coroa Grande e Tamandaré.

A iniciativa representa um passo importante para o reconhecimento dos territórios tradicionais pesqueiros e para a inclusão de pescadoras e pescadores artesanais em políticas ligadas à reforma agrária.

Eu aprendi o que é território tradicional pesqueiro com vocês”, afirmou Suana Medeiros Silva.

Entrega das portarias relacionadas aos Projetos de Assentamento Agroextrativistas (PAEs) de São José da Coroa Grande e Tamandaré | Foto: Jana Sá

Para ela, a aproximação entre as políticas agrárias e a pesca artesanal abre possibilidades inéditas para comunidades historicamente excluídas dos processos de regularização territorial.

É um momento histórico nessa relação entre a política agrária e a pesca artesanal.

Quem conta o território

Antes do almoço, os barcos partiram pelos canais do manguezal. Mas quem conduzia o percurso não eram guias turísticos. Eram as próprias marisqueiras.

A atividade integra a Rota das Marisqueiras do Una, iniciativa criada pela AMPAS para fortalecer o turismo de base comunitária e valorizar os conhecimentos tradicionais das mulheres pescadoras.

Em cada embarcação, visitantes ouviam histórias sobre os caminhos percorridos diariamente por quem vive do mangue.

Rota das Marisqueiras do Una, iniciativa criada pela AMPAS

As marisqueiras apontavam áreas de pesca, explicavam os ciclos da maré, apresentavam espécies da região e compartilhavam conhecimentos construídos ao longo de gerações.

O território aparecia não como cenário, mas como espaço de trabalho, memória e pertencimento.

Em uma região marcada pela expansão do turismo e pela concentração de renda em grandes empreendimentos, a iniciativa busca criar alternativas que valorizem a cultura local e gerem renda para a própria comunidade.

A vida que insiste

Quando as rodas de conversa terminaram, o festival continuou. As barracas permaneceram abertas. As panelas continuaram cheias. As vendas aconteceram. O bingo reuniu moradores da comunidade. Crianças correram entre as mesas. Mulheres conversaram, dançaram e celebraram.

Nada disso era secundário. Afinal, a vida que essas pescadoras defendem não é feita apenas de conflitos. Também é feita de encontros, afetos, memória, trabalho e festa.
Enquanto o sol começava a desaparecer atrás dos manguezais, algumas participantes permaneciam sentadas observando o movimento da maré.

O festival chegava ao fim. Mas aquilo que havia sido construído durante o encontro está longe de terminar, seguem presentes na rotina da comunidade. Na próxima reunião da associação. Na próxima oficina. No próximo mutirão. Na próxima saída para o mangue.

Porque, para aquelas mulheres, a defesa do território não acontece uma vez por ano. Ela faz parte da vida cotidiana.

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