"Ecos do Autoritarismo no RN": livro mostra por que a ditadura ainda importa
Fotografias amareladas pelo tempo, manchetes esquecidas nos arquivos e rostos que a história oficial quase apagou formam um mosaico da memória potiguar. São fragmentos de uma história que não terminou quando os militares deixaram o poder. Ao contrário, continuam reverberando nas disputas pela memória, nas dificuldades de responsabilização pelos crimes da ditadura e nos desafios enfrentados pela democracia brasileira.
É dessa compreensão que nasce Ecos do Autoritarismo no Rio Grande do Norte, obra organizada pelos pesquisadores Maria da Conceição Fraga, João Maria de Sousa Fraga e Juan de Assis Almeida. Reunindo 17 artigos de autores de diferentes áreas do conhecimento, o livro amplia e aprofunda um esforço coletivo que vem ganhando corpo no estado para compreender não apenas o que foi a ditadura civil-militar, mas também as marcas que ela deixou na sociedade brasileira.
O novo volume dá continuidade ao trabalho iniciado em 2024 com o lançamento de 60 Anos do Golpe Civil-Militar no Rio Grande do Norte, organizado por Maria da Conceição Fraga e João Maria de Sousa Fraga no contexto das seis décadas da ruptura democrática de 1964. Se a primeira publicação buscou reunir reflexões sobre o significado histórico do golpe e seus impactos no estado, a nova obra avança sobre temas ainda pouco explorados, incorpora novas pesquisas e amplia o olhar sobre personagens, instituições e processos que atravessaram aquele período.
“Entendemos esse livro como uma continuidade dos estudos e das publicações sobre a ditadura militar no Rio Grande do Norte”, afirma a historiadora Maria da Conceição Fraga, doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), pós-doutora em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professora aposentada do Departamento de História da instituição.
A diversidade dos autores ajuda a explicar a amplitude do livro. Os artigos foram produzidos por historiadores, cientistas sociais, jornalistas, advogados, promotores de Justiça, professores da educação básica e pesquisadores universitários vinculados a instituições como UFRN, IFRN, UERN e outras organizações acadêmicas e de pesquisa.
O resultado é um panorama que atravessa diferentes dimensões da experiência autoritária no Rio Grande do Norte.
Entre os temas abordados estão a participação dos trabalhadores rurais nos processos de resistência ao regime, a atuação de lideranças populares perseguidas após o golpe, a repressão em espaços educacionais, a influência dos Estados Unidos na articulação da ruptura democrática e as relações entre as elites políticas locais e o novo regime instaurado em 1964.
Uma das contribuições da obra é justamente retirar da invisibilidade personagens e experiências que ficaram à margem das narrativas mais conhecidas sobre a ditadura. Os textos recuperam trajetórias de resistência como as de Vulpiano Cavalcanti, Zoé e Sérgio Dieb, entre outros militantes e lideranças que enfrentaram a repressão em diferentes momentos.
Para Juan Almeida, professor do Departamento de Direito da UFRN, integrante da Comissão da Verdade da universidade e um dos organizadores da obra, um dos principais méritos da publicação é justamente ampliar o conhecimento histórico sobre as formas de repressão adotadas pelo regime militar no estado.
“Esta obra revela novos conhecimentos históricos sobre os padrões repressivos da ditadura militar no Rio Grande do Norte, especialmente nos meios rural e educacional, além de destacar as lutas políticas travadas no interior do estado no período que antecedeu o golpe de 1964”, afirma.
Segundo ele, o livro contribui para expandir a historiografia produzida sobre o período ao recuperar experiências, personagens e conflitos políticos muitas vezes ausentes dos relatos mais tradicionais.
“Soma-se à historiografia já produzida ao evidenciar, igualmente, a biografia de potiguares que se enfileiraram na luta contra a ditadura e em defesa da democracia, como o sabugiense Zoé Lucas de Brito, o mipibuense Silton Pinheiro e o ex-vereador de Natal Sérgio Dieb”, destaca.
O livro também dedica atenção especial ao papel dos trabalhadores rurais, segmento que esteve entre os principais alvos da perseguição política após o golpe. As pesquisas mostram como sindicatos, associações e movimentos populares foram monitorados, desarticulados ou reprimidos em um contexto de intensa mobilização social que antecedeu a instalação da ditadura.
Outra investigação revisita a greve dos ferroviários ocorrida no período que antecede o golpe de 1964. Mais do que um episódio trabalhista, o movimento ajuda a compreender as tensões sociais e políticas que marcaram aqueles anos e que contribuíram para a construção do ambiente que culminaria na ruptura democrática.
O campo da educação também ocupa espaço relevante na obra. Um dos estudos analisa a experiência da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, hoje Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), durante os anos de regime militar, revelando os mecanismos de controle e vigilância presentes em instituições de ensino e formação profissional.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores voltam o olhar para as estruturas de poder que sustentaram o golpe. Um dos artigos examina a influência exercida pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria e suas conexões com a política brasileira. Outro discute o papel desempenhado pelo governo de Aluízio Alves nos acontecimentos que consolidaram a nova ordem política no estado.
Mas a obra não se limita à reconstrução histórica dos fatos.
Entre as reflexões presentes no livro está uma discussão sobre os processos de anistia no Brasil e seus efeitos sobre a cultura política nacional. Os autores analisam como sucessivas tentativas de ruptura institucional ao longo da história brasileira foram perdoadas sem que houvesse responsabilização efetiva dos envolvidos, contribuindo para a permanência de práticas autoritárias e para a fragilidade dos mecanismos de proteção democrática.
Também ganham espaço análises de fontes documentais produzidas pelos próprios órgãos de repressão. Ao examinar relatórios, registros e documentos oficiais, os pesquisadores buscam compreender não apenas como o Estado monitorava cidadãos e organizações, mas também como construía narrativas destinadas a justificar perseguições, prisões e intervenções políticas.
Ao reunir essas diferentes perspectivas, Ecos do Autoritarismo no Rio Grande do Norte dialoga com uma questão que ultrapassa os limites da historiografia: o direito à memória.
Num país onde a justiça de transição permanece incompleta, onde arquivos militares seguem fechados e onde familiares de vítimas ainda buscam respostas sobre desaparecimentos, mortes e violações de direitos humanos, lembrar continua sendo um ato político.
A disputa não se dá apenas sobre o passado, mas sobre o significado desse passado para as gerações que vieram depois.
Por isso, mais do que um conjunto de pesquisas acadêmicas, o livro se apresenta como uma ferramenta para compreender o presente. Ao revisitar a repressão, as resistências e os silêncios produzidos pela ditadura, a obra ajuda a iluminar os desafios democráticos contemporâneos e reforça a importância da memória como instrumento de defesa da própria democracia.
Em tempos de revisionismos, negacionismos e recorrentes ameaças às instituições democráticas, olhar para trás talvez seja uma das formas mais necessárias de seguir em frente.
Serviço
O livro Ecos do Autoritarismo no Rio Grande do Norte será lançado no dia 28 de agosto, às 8h30, no auditório da Reitoria da UFRN, em Natal.
A obra está em pré-venda por R$ 120. Após o lançamento, o valor será de R$ 150.
Informações e reservas podem ser obtidas diretamente com a professora Maria da Conceição Fraga pelo telefone (84) 98711-2324.