Dia desses dei de cara com um perfil com textos divertidos sobre rock anos 80 e entre comentários espirituosos e resgates musicais o autor se saiu com essa: “quem aqui não conhece o clássico que começa assim xau xau leriroráu…”. Pois fiquei imaginando que diabos de música famosa seria essa até que no final ele explicou. Tratava-se de “Shout”, clássico absoluto da banda Tears for Fears que, efetivamente, começa justamente assim: “Shout, shout, let it all out…”.
Comentei na postagem sobre percepção parecida também nos anos 80, quando a bela balada “Build”, do grupo inglês Housemartins, estourou no Rio de Janeiro sendo conhecida como “Melô do Papel”. Tudo porque no refrão, após o vocalista cantar.”Let’s build a house where we can stay”, segue o coro “ba ba ba ba build”, que significa ao pé da letra “Construção” ou “Construir” mas que foneticamente lembra pa-pa-pa-pa-pel, como é cantada até hoje se tocada em churrasco em festa flash back.
Outro caso, este politicamente incorreto para os padrões atuais, é a conhecida por quem frequentava boates nos anos 80 “Melô do Gay”, nome pela qual DJs e operadores de rádio chamavam “Domino dancing”, do duo londrino Pet Shop Boys. Tudo porque no refrão, quando o vocalista canta “Watch them all fall down – all day all day” (Observe eles todos se encantarem – todo dia, todo dia) a parte final era cantada em coro como “Eu dei, eu dei”, Enfim.
Nesta seara ainda caio na gargalhada toda vez que vejo no YouTube o vídeo da moça no The Voice búlgaro anunciando que vai cantar “Ken Lee”, para estranhamento dos jurados. Quando ela solta a voz, trata-se de uma versão macarrônica de “Without you”, clássico da Mariah Carey que a inocente gorjeia o “Can´t live” (não posso viver) como esse tal de “Ken Lee”.
No Brasil tem dessas coisas em português também. A mais conhecida confusão neste sentido talvez seja com “Noite do Prazer”, de Cláudio Zoli, cujo verso “Tocando B.B King sem parar”, referência a alguém que ouve repetidamente disco do gênio do blues, quase todo mundo entende e canta como “Trocando de biquini sem parar”, o que remete a uma tara ou mania, sei lá.
Curioso que essas confusões linguísticas-musicais têm nome. Chamam-se virunduns. “Virundum” é termo criado nos anos 1970 pela equipe genial do jornal O Pasquim, brincando com percepção auditiva equivocada em que trocamos ou reinventamos letras de músicas. O termo nasceu de uma paródia do verso inicial do Hino Nacional: “Ouviram do Ipiranga” viraria”O virundum Piranga”, como algumas pessoas cantavam. No fim das contas é sempre o cérebro da gente processando as coisas como quer.
Inclusive recordo nos anos 2000 de excelente e divertido texto de Damião Nobre na revista (ainda impressa) Papangu. Damião, médico e intelectual, é, segundo o amigo também papangunista Marco Túlio Cícero, estudioso de virunduns. Que existem, aos montes e merecem uma atenção maior, sim.
Comentei com um amigo músico que estava escrevendo sobre o tema e ele lembrou de um virundum do rock americano: no clássico “Purple Haze”, Jimi Hendrix canta “Excuse me while I kiss the sky” (Com licença enquanto eu beijo o céu) mas o amigo registrou que frequentemente entendem como “Excuse me while I kiss this guy” (Com licença enquanto eu beijo este cara).
Entre virunduns famosos da Música Brasileira, lembro que em “Homem primata”, dos Titãs, havia quem cantasse “Homem pirata”. Mais recentemente, numa discussão do UOL sobre racismo, uma criatura comentou que a banda mineira Skank havia escrito uma música chamada “Macaco cidadão” até que Samuel Rosa em pessoa e wifi corrigiu: “O nome da música é PACATO cidadão, amigo, pelo amor de Deus!”.
E você, lembra de algum virundum? Qual o seu virundum favorito? Cartas para a redação.